Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae

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O Blog do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae é um dos veículos de comunicação em que circulam informações, produção de conhecimento, experiências clínicas e de pesquisa de seus diferentes membros. A interlocução com o público, dentro e fora do Departamento, é uma maneira de disseminar a troca no campo da Psicanálise e possibilitar a ampliação do alcance das reflexões em pauta. Fazem parte da equipe do Blog: Ana Carolina Vasarhelyi de Paula Santos, Fernanda Borges e Gisela Haddad.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

Crônica de Maria Laurinda Sousa - Café Brasileiro. Doce português.

Maria Laurinda de Sousa, nossa colunista do Blog do Departamento, esteve em sua terra natal e escreveu um linda crônica : Café Brasileiro. Doce português.

Confiram:


Café brasileiro. Doce português.

É apenas a imagem de um homem, e eu não poderia saber sua idade,
nem sua cor, nem os traços de sua cara.
Estou solitário com ele, e espero que ele esteja comigo
Homem no mar.
Crônica de Rubem Braga

Gostaria de estar ao lado de Rubem Braga, na janela de sua sala, absorta como ele, olhando o mar carioca e o homem madrugador que desliza pela espuma das águas, deixando os movimentos dos braços ondularem na retina do poeta-prosador. Rubem admira a nobreza calma desse homem e se sente solidário com a missão que ele parece cumprir. “Ele certamente fazia uma coisa bela, e o fazia de um modo puro e viril”. Assim termina o cronista a elegia a esse correto irmão. Assim, gostaria eu, que fosse a missão (pretenciosa?) desta crônica: pura e correta.

Não posso estar com ele; a distância dos tempos nos separa. Mas, posso sentir-me ali – presença invisível. Olhos fechados para ver melhor a cena. Aproximar levemente meu corpo do dele – um toque apenas para partilhar do encanto sem desfazer seu interesse pelo homem no mar.

De olhos fechados vou, então, para outras janelas. Essas que habito sozinha, mas que também posso partilhar com amigos invisíveis. Delas não avisto o mar; ele está perto, mas longe dos olhos. Percorro, antes, os campos e as terras verdejantes do norte de Portugal. Convido você para me acompanhar nessa viagem. 

Portugal é assim... Um pouco especial - e como qualquer lugar por onde passamos, se tivermos olhos receptivos e delicados, cada paisagem nos contará uma história - mesmo que não saibamos reproduzi-la.

Dizem os que vivem no norte, que esse é o pedaço mais rico, verde e telúrico daquele pequeno continente. Desconfio que os do sul dirão coisas parecidas. Há que ser um viajante para conferir qual deles terá razão. 

A mim, o que me enternece o coração é o verde dos morros do norte, a vida bucólica das velhas aldeias, com os muros de pedras que cercam as quintas onde, outrora, viviam os grandes proprietários. Gosto de adentrar nas pequenas igrejas espalhadas por todos os cantos e cercadas por cemitérios extremamente familiares, onde ainda se vê, todos os dias, ao final da tarde, homens e mulheres carregando flores, vasos, vassouras, porta-velas, para render homenagens diárias àqueles que se foram. Lavam os túmulos enfeitando-os com flores naturais e acendem as velas que supostamente iluminam os caminhos dos que jazem adormecidos para lhes recordar que ainda fazem parte daquele grupo.

Como isso é o que faz repouso no meu olhar, é sobre o norte que posso falar.

E se vou ao Porto, certamente tomarei um café no Majestic e me encantarei, mais uma vez, e sempre, com a decoração do lugar e com os passantes que olham as vitrines das lojas da rua ou comem apressados nos intervalos do trabalho. Outra paragem costumeira é na Lello. Há que entrar, subir ao mezanino, folhear os livros, ver os caminhos do trilho que ainda lá está. E rodear o olhar pela estação ferroviária com seus azulejos pintados. Passear pela margem do rio Douro e pela ruazinha de cima onde há pequenas lojinhas que vendem coisas encantadoras.  E, depois, assistir algum espetáculo na casa da Música e admirar a construção projetada por Siza Vieira. E há também as caves onde se experimenta o velho vinho do Porto. E muitas igrejas, avenidas, museus, subidas e decidas e ruas de pedra e prédios muito antigos, alguns bastante depauperados com roupas penduradas nas janelas... E no miolo do centro há restaurantes antigos onde se experimenta a comida típica e se ouve o fado do norte - com vários fadistas revezando-se nas apresentações.

Perto do Porto está a terra onde nasci: Vila Nova de Famalicão. Você, amigo invisível, pode me acompanhar até lá.  Podemos ir até a Casa-museu de Camilo Castelo Branco e, atravessando o jardim, chegar à Casa das Artes de Camilo (outro belo projeto do artista-arquiteto – Siza Vieira). Em Vila Nova, sinto-me em casa - gosto de andar pelas calçadas do centro, visitar a velha igrejinha, circular pelas ruas, entrar nas confeitarias, comer os famosos pastéis de nata, as queijadinhas, os doces de amêndoas, morder as paciências e me perder nelas...

E nessa região do Minho - tão próxima da ideia de ninho – há pequenos lugares muito convidativos: Barcelos, Viana do Castelo, Braga (maior e um grande centro religioso) e, em especial, Guimarães. Foi lá que  nasceu Portugal - você verá a placa afixada numa velha muralha. Sente-se comigo numa das mesas, no centro das muralhas, e aprecie o movimento... Caminhe pelas ruas e sinta o burburinho das velhas senhoras de preto que vendem frutas apetitosas - compre algumas.... Veja as galerias dos artistas e se encante com os objetos...

E subindo o rio Douro aprecie as fileiras das plantações de uvas, de cerejas, de maçãs que rodeiam os morros. E se quiser se aventurar pelas ruas dessas plantações encontrará grandes vinícolas que oferecem, hospitaleiramente, uma boa dose de vinho da casa.

E há muito mais.  Lugares não descritos nos guias tradicionais que vale a pena conhecer.  Mas, lembre-se, o mais encantador é o verde, o olhar a se perder nos campos, e a poesia. Repare, Portugal dá um valor imenso à poesia - você encontrará varias inscrições poéticas espalhadas pelas cidades.

E, se, saindo do norte, formos a Lisboa, subiremos de bonde até o castelo de S. Jorge. De lá, o olhar, agora, se perde nos telhados coloridos e nas casas de muitos matizes amarelos. Na descida, vamos a pé. É tempo de percorrer, com calma e cuidado, o calçamento de pedras das  vielas  estreitas. Nelas, a luz dos lampiões antigos se perde nas sombras das jardineiras e dos varais que denunciam as intimidades de cada morador.

Vá à Casa de Fernando Pessoa e visite em silêncio respeitoso o quarto onde ele dormia.  Admire o baú onde jogava escritos sem fim. Ele está lá, abarrotado de poemas não publicados. Feche os olhos por um tempo e imagine, como eu me imaginei ao lado de Rubem Braga, que Fernando Pessoa foi só tomar um café e logo volta para uma boa conversa; é isso que diz o simpático senhor que toma conta do lugar. Ou, então, se quiser, vá ao encontro dele na “Brasileira” e tire uma foto ao lado do poeta enquanto saboreia o bom café não tão brasileiro.

Depois, atravesse a cidade e me acompanhe até a ponte Vasco da Gama. Ela até hoje nos assombra com seus fios de aço e sua extensão que busca a eternidade, guardando em si, o espírito aventureiro desse povo viajante, sempre à procura  de novas terras…
 É do Tejo, que eles partiam. Suba à Torre de Belém, ao Monumento das Descobertas e, depois, atravesse a grande avenida e visite o Convento dos Jerônimos…
E, ao sair de lá, seguindo na mesma calçada e atravessando a rua -  o comércio disputado do famoso pastel de Belém - uma delícia para se comer aquecido e com canela...E tudo isso em companhia dos turistas que se misturam com as gentes da terra como se fossem velhos conhecidos…

À noite, sente-se em uma das mesas da Rua Augusta, admire o portal que se abre para a Praça do Comércio, lá onde está a Casa dos Bicos, hoje Fundação Saramago. Coma, comigo, uma sardinha, beba um vinho e pense no mar.
Na chegada ao Brasil, no Rio de Janeiro, faça outra pausa. Vislumbre ao longe um homem madrugador que encanta a retina do poeta-cronista Rubem Braga. Eu estarei lá, ao lado dele, na varanda, aguardando o término da sua e da minha missão. Enquanto ele escreve sua crônica sobre o homem no mar, eu preparo para nós um bom café brasileiro e um docinho português.

Maria Laurinda é psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, professora do Curso de Psicanálise Teoria e Clínica, autora dos livros “Violência”( 2005) e “Vertentes da Psicanálise”(2017) ambos da Coleção Clínica Psicanalítica, ed. Casa do Psicólogo.

terça-feira, 27 de novembro de 2018

Crônica de Maria Laurinda Sousa - Viagem à Cuba em outubro de 2018 - Diário de Viagem


Nossa colunista Maria Laurinda de Sousa publica uma linda crônica sobre sua viagem à Cuba em outubro de 2018 - Diário de Viagem. Cuba revisitada.

Confiram abaixo:

Diário de viagem. Cuba revisitada

Nenhum homem é uma ilha; inteiramente isolado,
todo homem é um pedaço de um continente,
uma parte de um todo...E por isso não perguntai:
Por quem os sinos dobram; eles dobram por vós.
John Donne. Meditação XVII

Cheguei a Cuba, no meio da noite, depois de um dia de atraso devido à perda da conexão com o voo que partiria do Panamá. Aeroporto praticamente vazio. Espaço físico descuidado. Pouco acesso a informações. Falta de internet.  Um guarda prestativo ajudou-me no câmbio da moeda. Dinheiro necessário para pagar o primeiro taxi disponível.

Son treinta y cinco pesos, diz o jovem motorista descendo de um carro antigo, mal conservado, com as portas pintadas em cores diferentes.
Faço as contas rapidamente – são trinta e cinco euros - e começo a discussão. Em Cuba há que negociar o valor da corrida. Sempre.
Es mucho.  
Su hotel está lejos de aqui. Es tarde. Usted no encontrá por menos.
         Pondero o cansaço e o desconhecimento do lugar.
treinta?
Está bien

Sigo viagem segurando-me no banco e rezando para que o sacolejar barulhento  do carro não termine num desmonte de todas as peças.

Depois de um tempo em Havana você se acostuma e até acha pitoresca a viagem nos carros antigos e com pouca manutenção, nos cocotaxis ou bicitaxis que cruzam “velozmente” as avenidas e vielas da cidade antiga. Estes últimos,  aliás, as formais mais eficientes de transporte para pequenas distâncias.

Tenho ainda três dias para conhecer a cidade antes  do início do Congresso sobre Subjetividade e Trabalho: entre o mal-estar e o bem-estar. Título sugestivo, já que minha permanência em Havana também foi marcada por momentos de oscilação entre o mal e o bem-estar.

O ônibus turístico deixa-me no Armazém S. José. É lá que se reúnem  artesãos e pintores. Trabalhos delicados de madeira, joias semipreciosas de prata, camisetas pintadas com motivos cubanos e frases que,  vou reencontrar  nos muros da cidade e nos painéis das avenidas: falas de José Martí, Che Guevara e de Fidel, todas elas alusivas ao valor da Revolução. Numa delas: “O Bloqueio é um genocídio”.

Sim, isso é visível.

A cidade padece com o racionamento de alimentos e com a falta de manutenção: casas com telhados caindo, encanamentos improvisados, fiação atravessando muros, pessoas coabitando espaços extremamente pequenos com portas e janelas escancaradas para aliviar o calor que neste inverno chega a 36 graus. Crianças brincam com bolas improvisadas e alheias às águas que escorrem pelos canos sem esgoto e se empoçam nas ruas. Alheias, também, à história que marca a crise econômica que afeta esta ilha.

 Sim, há muitas faltas visíveis, mas todas as crianças têm acesso à educação, embora a qualidade já não seja a mesma. Muitos professores resolveram abandonar o ensino porque o ganho mensal – 20 pesos – é inferior a qualquer prática comercial ou turística – agora parcialmente liberada pelo Regime. Todos têm emprego, mas os salários, garantidos pelo Estado, não são suficientes para a manutenção mensal.  A saúde é um modelo para o mundo e motivo de orgulho, mas começam a surgir falta de médicos especialistas e dificuldade em adquirir equipamentos de ponta. Sim, há a literatura, mas a falta de papel tem dificultado o acesso a livros impressos.

No Congresso os especialistas cubanos vão apresentando repetidamente as causas maiores de preocupação nos serviços de saúde e seguridade social: o envelhecimento da população, a baixa taxa de natalidade - atribuída à dificuldade econômica -, e os conflitos decorrentes da mudança e abertura política da Ilha; hoje, cerca de 42% da população realiza alguma atividade privada com um ganho superior ao oferecido pelos empregos sustentados apenas pelo Estado.

Quando comento com uma amiga a preocupação e surpresa com as condições sociais e de moradia, ela me pergunta: mas que imagem você tinha da ilha?

Imagem? Sou atravessada por uma avalanche delas. Minha juventude marcada pelas narrativas da oposição à ditadura de Fulgêncio Batista, liderada por Fidel, Cienfuegos e Che, em Sierra Maestra. As frases e poemas de José Martí, herói da independência (“um grão de poesia basta para perfumar todo um século”). O  livro A Ilha de Fermando Morais referência dos movimentos de esquerda na época da ditadura. Meus amigos exilados em Cuba quando a opção de ficar era o risco de prisão e tortura. O filme de Wim Wenders sobre Buena Vista Social Club. A história de Hemingway e seu refúgio na Bdeguita do meio e na Floridita. A aposta numa revolução socialista e no Estado Social. Os filmes e fotos que vi de Cuba,  onde as cores e um certo olhar sobre a persistência e a luta desse povo encobria o descolorido que eu encontrava agora. Cuba revisitada:  de um lado, o ideal, a utopia, de outro, a realidade e seus tropeços. Hay que endurecerse, pero sin perder la ternura jamás...

 Foi o encontro com a música que me devolveu a ternura ao olhar. Em todas as ruas, praças e bares há sempre grupos tocando e dançando. Salsa, mambo, merengue – uma mistura da influência espanhola e africana. Mas também há os grupos de jazz e de música clássica.

Ao final da tarde, depois de um dia passeando pelas ruas de Havana Velha – reconhecida, desde 1982,  pela Unesco, como patrimônio histórico e cultural -chego à Praça de San Francisco, lugar de grande concentração de turistas. É lá, na Basílica Menor de San Francisco de Asís, um convento  construído no final do século XVI, e hoje transformado em museu de arte sacra e auditório de música, que entro para assistir uma das apresentações do IV Festival Internacional de Mozart: Quinteto de cordas n. 3 em Do e o Quinteto de cordas n. 4 em Sol menor. Duas violas, dois violinos e um Cello. Na viola I, Firmian Lermer, reconhecido violista austríaco e professor da Universidade Mozarteum de Salzburgo, acompanha os membros da orquestra do Liceu cubano de música, alunos desse mesmo Liceu. Para além da música o que me encanta é o prazer desse músico mais velho e experiente em acompanhar e incentivar a apresentação desses jovens músicos. Prazer visível na forma como olha para eles e no abraço que eles lhe dirigem ao final de cada apresentação.

Na tarde seguinte, à porta do Gran Teatro Alícia Alonso, um outro encontro significativo. Uma senhora cubana tenta, como eu, conseguir um ingresso para a apresentação da noite. Ela me fala, com entusiasmo, sobre a paixão cubana pela dança. Em geral, os ingressos se esgotam logo no começo do ano. Ela própria sempre os compra com antecedência, mas, este ano, ficou muito doente e pensou que não viveria a tempo de ver as apresentações. Não foi o que ocorreu e agora ela, assim como eu, esperávamos por alguma desistência. Depois de quase duas horas de espera, a desistência foi nossa. Ela saiu da fila para buscar o neto na escola, eu,  vencida pelo cansaço. Assisti algumas das apresentações pela televisão e outras pelo telão colocado no calçadão ao lado do teatro. Não há ingresso para todos, mas não há restrições à divulgação simultânea dos espetáculos; um movimento solidário de acesso à cultura.

Na ida a Varadero – praia geralmente visitada pelos turistas - uma senhora faz uma pergunta inesperada: De Varadero se vê Key West? Marta, a guia cubana que nos acompanhava, ficou tão surpresa quanto eu. A turista espanhola insistia e afirmava que sim. Retirou a máquina fotográfica e mostrou uma foto que parecia confirmar essa possibilidade. A insistência foi se tornando irritante, e não terminaria se eu não tivesse lançado outra pergunta: Key West? Onde fica a casa de Hemingway? Não dei muita sorte. A tal turista era apaixonada por Hemingway e agora a insistência era para afirmar quem sabia mais sobre a vida do autor – se ela ou Marta. O divertido da historia é que Marta tinha sido professora de literatura inglesa e conhecia a vida e a obra de Hemingway. Começaram a discutir Por quem os sinos dobram, O velho e o Mar, os autores que o influenciaram, os lugares onde viveu – a Bodeguita del Medio, La Floridita, o quarto 511 do Hotel Ambos Mundos, La Finca Vigia. Anotei o roteiro para o dia seguinte...

No meio das referências literárias apareciam, na fala de Marta, as dificuldades da vida em Havana. A carreira que valorizava, mas que abandonou para trabalhar no turismo e dar aulas privadas de ingles. Os livros que gostaria de reler mas a que tem dificuldade de acesso.  Há, em Cuba, um misto de expectativas favoráveis às mudanças decorrentes da abertura do Regime e um receio da perda dos valores que marcaram a Revolução e que permitiram o acesso pleno à Educação, à Saúde e à Cultura.

O dia em Varadero é para o repouso. A areia branca,  a águal azul transparente e as palmeiras lembram as praias de nosso nordeste. O sol está quente apesar do inverno. Lá, assim como em toda a ilha, é possível pedir as bebidas preferidas por Hemingway - o mojito e o daiquirí, ambas feitas à base de rum branco.   

Ao final da tarde, uma foto com o grupo. Marta pede para não ser incluída; o guia precisa manter uma certa distância do grupo que acompanha.  O endurecimento do Regime deixou marcas profundas no exercício da liberdade.

Depois de um intervalo de quatro dias para o Congresso, mais uma visita ao centro de Havana e um passeio pelos jardins do Hotel Nacional, construído por Al Capone, com frente para o Malecón, avenida à beira mar por onde transitam os turistas, os pescadores, os namorados e os grupos ocasionais de música caribenha.

A tarde foi reservada para o Museu Nacional de Belas Artes. Logo na entrada, na sala à esquerda, uma exposição temporária. Deixo-a para o final e me encanto com as instalações de Sislej Xhafa, artista kosovar  que viveu de perto a desintegração da antiga Iugoslávia e fez de suas obras uma elegia à resistência.  Um colchão de casal abandonado nas ruas de Havana Velha é recortado no formato de um coração com as duas metades abertas. Um guarda-chuva colorido é o varal de apoio para as roupas recicladas que se vendem nas janelas das casas. Uma lápide com um telefone em cima cria um enigma surpreendente; não podemos falar com os mortos, mas, com quem falaremos no futuro? Em seus objetos há uma dialética de imobilidade e  movimento questionadora da capacidade humana para resistir, adaptar-se ou seguir adiante.  Reconheço-me na ternura poética das imagens que ele criou sobre Cuba.

Saindo do museu, a despedida na sorveteria mais famosa: Coppelia. Foi lá que descobri, mais uma vez, a experiência dos lugares segregados. Há a fila para os cubanos e o lugar para os turistas – sem filas. Um não tendo acesso ao lugar do outro. Eu não posso comprar a moeda nacional (CUP) que me permitiria entrar nesse lugar e a moeda a que tenho acesso (CUC) marca meu lugar de turista e o preço que tenho que pagar por produtos que, para mim, não estão racionados. Entendo o princípio e o valor econômico representado pelo turismo, mas me sinto atingida pela segregação.

Na volta ao Brasil vou ao centro da cidade em São Paulo. Necessidade urgente de resolver uma situação burocrática na representação do Ministério da Saúde. Vejo as pessoas deitadas nas calçadas, crianças pedindo esmolas nos faróis, prédios abandonados, pixados, vidros quebrados, pinturas descascadas, ocupações... Cenas tão presentes no nosso cotidiano.

Surpreendo-me perguntando a mim mesma porque me inquietei tanto com a precarização das moradias e das condições econômicas em Cuba. Lá, apesar da precariedade, não se vê pessoas jogadas nas ruas, crianças perdidas pela cidade e não há medo de transitar desacompanhada à noite. Havana ainda é uma cidade segura para caminhar.

Dei-me conta, novamente, que vivemos uma realidade terrivelmente segregadora. É bom, esporadicamente, ter olhos de estrangeiro para poder, de fato, enxergá-la.

20/11/2018

Maria Laurinda é psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, professora do Curso de Psicanálise Teoria e Clínica, autora dos livros “Violência”( 2005) e “Vertentes da Psicanálise”(2017) ambos da Coleção Clínica Psicanalítica, ed. Casa do Psicólogo.

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

Texto Fátima Vicente - "Passar para outra coisa"


Nos dias 26 e 27 de outubro passado aconteceu o evento "CLÍNICAS REPUBLICANAS E DEMOCRÁTICAS, CLÍNICAS PÚBLICAS E ABERTAS" no Sedes Sapientiae cujas mesas eram formadas por aqueles que praticam a clínica nas ruas, nas praças, nos canteiros, nas casas, nos campos e nas florestas, nos trabalhos de recepção, de acolhimento, de cuidado e praticam a escuta, como dispositivo contra a exclusão em situações sociais críticas.

Confira abaixo o lindo texto "Passar para outra coisa" escrito por Maria de Fátima Vicente sobre a mesa de sábado, dia 27 de outubro, à convite do Blog do Departamento.





Passar para outra coisa

Maria de Fatima Vicente
                      
Era 27 de outubro de 2018, sábado cedo. Fomos quase pontuais e precisamente atentos. No auditório do Sedes Sapientiae aconteciam leituras abertas à evocação, a pensamentos, a emoções. Principalmente abertas à conversa.

Era a primeira mesa do segundo dia do evento “Clínicas republicanas e democráticas, clínicas públicas e abertas”. Um título longo que abarca histórias múltiplas e experiências diversas.

A abertura do evento ocorrera na noite anterior, com a apresentação do documentário de Eliane Brum sobre a triste história de Altamira/PA. Tristeza ponteada pelas histórias e singularidades subjetivas resgatadas dos escombros, na experiência de Saúde Mental que ali aconteceu, graças à escuta solidária, à presença andarilha e à fé cega na vida de quem dispõe de si ao outro. Apenas uma alegria discreta, brotada na confiança construída e na palavra partilhada. Palavras de uma amiga durante o café da manhã coletivo, já que não pude estar presente àquela noite. Havia faltado à importante abertura do evento, pois no mesmo horário, junto com Tatiana, colega psicanalista do Departamento de Psicanálise, e Juliana, colega assistente social da Clínica do Sedes, participara de uma das “Rodas de Conversa” sustentadas pelo coletivo Escuta Sedes. Dispositivo inventado na urgência destes tempos, para abrigar a angústia, a confusão, o medo, o temor de cidadãs e cidadãos perturbados com os riscos da polarização instalada no país, nos desarranjos do processo eleitoral em curso. Mais uma tentativa de experiência de saúde mental em um momento de loucura social.

Estávamos às vésperas do segundo turno das eleições para presidente do país. E do que elas significavam: à beira de nós, à beira do abismo, mas com a esperança nervosa de que ainda desse pra virar.

Era nessa vigília que ouvíamos daqueles colegas da mesa, como cada um “se vira” quando está extra-muros, quando exerce o ofício de psicanalista em  variados contextos, como fazer outras clínicas, aquelas necessárias.

É muito pouco dizer, nesses casos, que se trata de “sair dos consultórios”. É mais que isso.

Quando ouvimos o relato de Auro Lescher sobre o trabalho desenvolvido no antigo e sempre inquietante e juvenil Projeto Quixote, reconhecemos que é muito mais do que isso e outra coisa. Auro nos fala de educadores terapêuticos, os tais E.Ts, que vão munidos de mochilas lúdicas contendo algum material que possa dar sustentação à troca de palavras entre os educadores e quem está ou vive na rua. Troca por meio da qual o afeto do reconhecimento transita e faz tramitar o silêncio que embrutece ao fazer desse silêncio, a  esperança de voz, de fala, de canto. Às vezes, nasce um rap! Garotos e garotas ladeando o Casarão Amarelo da Consolação, de um lado, residência artística, do outro, mocó construído na angústia e na espera da polícia ou do parceiro.  

Logo, o trânsito e o trâmite fazem do muro uma banda de Moebius, sem dentro nem fora, banda em que soam vozes, risos, olhares e calores. Tudo se escora nesse circuito. Nada nem ninguém é escória. Não mais. Um novo modo da propriedade.

Sobre escoras e ancoragens nos falam Emília e Jorge Broid, representantes da espantosa empresa Sur, que conta somente com esses dois sócios para ir a campo aberto fazer Psicanálise. Fazer resgates. Engancham o cordão encarnado da História e das histórias.

Jorge resgata a história da longa, tradicional e pouco ortodoxa, mas, convenientemente esquecida pelos homens de bem, de algumas Psicanálises, aquelas da vocação psicanalítica para com os que não contam: os operários e os jovens de Reich, os pacientes da policlínica de Berlim, e vários outros. Dentre esses, os pobres.
Ah! Essa gente! Ah! Essa palavra!

Os pobres.

Curiosamente, essa palavra não aparece em nenhum dos  títulos de nosso evento. E, no entanto, nesse extramuros de um país de abissais diferenças sociais, econômicas e culturais, isso conta. Disso se conta.

Jorge nos lembra de que já em Freud, a ampliação da Psicanálise é pensada como questão de Saúde Pública, sob a responsabilidade do Estado. Estado que daria conta dos custos que a neurose acarreta à vida social e, que para subvencionar  o tratamento a tantos, teria que reduzir um pouco o custo  e o valor da Psicanálise: do ouro puro da transferência e da interpretação ao cobre da sugestão.

A espinhosa questão do risco de uma clínica de segunda qualidade porque voltada democraticamente também para os pobres é confrontada pela qualidade das clínicas apresentadas pelos colegas naquela nossa reunião. Pois, com sugestões também se faz boa clínica, aquela que resgata o brilho no olho, ou porque o leva “na mochila”, mas, principalmente, porque o transmite “olho a olho” ao reencontrar e reenganchar o fio daquela história na qual e no quando  os olhos brilhavam.

Emília traz a experiência de reenganchar, pela sugestão, a experiência que fez marca de valor no menino quase sem voz, experiência de valor que pode ser reconhecida ao ser retomada pela analista: voltar a apostar na alegria por meio da lembrança da alegria que havia quando a mãe sentia que tinha valor aovender garrafas de água no farol.
Lampejos! A transmissão da experiência vivida por meio da justa forma.

Nesse pequeno ponto de luz uma história para contar, a história dos papeizinhos que marcaram o intercâmbio com o outro, aquele sedento, para quem se tinha água a oferecer. Registro dos valores cobrados e recebidos. Mais que contabilidade, traços para escrever uma nova história, para criar, para fazer a vida com alegria prosseguir.

O custo de levar a Psicanálise aos pobres é o custo de lhes reconhecer o valor. Não muitos estão dispostos a pagar o preço. Divisar os pequenos faróis na escuridão dos tempos, à qual olhamos de frente e juntos. Um novo modo da amizade.

Disso sabe bem o movimento que acolhe Noemi Araújo, porque precisa da Psicanálise que ela leva, transporta e transmite.

A experiência de escutar os alunos da Escola Florestan Fernandes, na qual as lideranças em preparação do MST se apoiam e se educam é feita de alianças e de profundo respeito e perseverança para com o desejo de cada um.

Insistir, perseverar, permanecer, de corpo presente, ficar assentada no lugar da escuta enquanto cada assentado faz sua passagem naquela casa de itinerância. Intervenções no ponto, passagens pontuais. Esse é o trabalho de Noemi.

É, porém, com o relato sobre as crianças do MST que fazemos a experiência da liberdade do sujeito como fundamento, experiência à qual a escuta da psicanalista deu lugar e da qual ela traz notícias à comunidade psicanalítica.

Ela nos conta que as crianças foram a ela por si próprias, em transferência uma com as outras e cada uma esperando a sua vez. Porque a vez e a voz ali estão asseguradas.
Fazem seu singular percurso de análise e se vão. Nenhum pai e mãe a obstruir lhes os caminhos. Porque estes já foram abertos pela confiança depositada e nas responsabilidades que lhes foram reconhecidas, não só pelos adultos, mas também por eles.

As crianças que vão e vêm sobre seus próprios pés falam de uma possibilidade de laço social em que a solidariedade fale e seja ouvida, para além da autoridade da família. Daquilo que entra no jogo quando o desejo encontra seu lugar na polis.

Sobre isso conversamos com os colegas que nos falaram à mesa: sobre ETs de mochilas, sobre brilho no olho, sobre a memória e sobre a perseverança. Sobre o que encontram os psicanalistas quando caminham entre as gentes e aprendem com elas. Conversamos sobre a paciência histórica nestes tempos, sobre apostar que é possível sair da repetição, que o sujeito possa advir no laço social e na instituição psicanalítica. Um modo cotidiano e vivo de virar: passar para outra coisa.


Maria de Fátima Vicente é psicóloga e psicanalista, trabalha em consultório privado desde 1978. É professora do Curso de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae desde 1992, e membro do Departamento de Psicanálise desta instituição  desde sua fundação. É mestre em Psicologia e doutora em Ciências Sociais, autora de “Psicanálise e Música – Aproximações”, São Paulo: Editora Pearson/Casa do Psicólogo - Coleção Clínica Psicanalítica coordenada por Flávio Ferraz.

terça-feira, 6 de novembro de 2018

Fórum de Discussão com o texto "Flores Amarelas" de Nicolas Winck


O Blog do Departamento abre seu espaço para um fórum de discussão sobre o momento atual de nosso país. Confiram abaixo o lindo texto "Flores Amarelas" de Nicolas Winck

Flores amarelas

Nicolas Winck

Grandes escritores do século XX expressaram a dor de seu tempo tentando descrever a relação entre o sujeito e a sociedade. Essa ponte foi historicamente resumida a um conjunto de receios que permeiam os desejos, as impressões e o discurso.

Fernando Pessoa publicou, em 1934, o livro Mensagem, no intuito de reconstruir e projetar de modo simbólico a história de Portugal. Foi justamente no terceiro poema da obra, denominado “Ulisses”, que o poeta consagrou uma das maiores sínteses do nosso passado ocidental:

“O mito é o nada que é tudo”. Não foi a primeira vez – e obviamente não seria a última – que o fato histórico e a ficção deram as mãos.

Um pouco depois, em 1940, Carlos Drummond de Andrade deu vida e público ao Sentimento do mundo. Enevoado como Pessoa, o poeta mineiro já reconhecia, no poema “Congresso Internacional do Medo”, que vivemos todos uma vida amedrontada, para, enfim, morrermos de medo. Fosse o medo “dos sertões, dos mares, dos desertos” ou ainda “o medo dos ditadores, medo dos democratas”, estaríamos ainda fadados a deixar a existência e partir para “o medo de depois da morte”.

A partir de obras engajadas como essas, é no mínimo cômodo que se atribuam significados ao recorte político e social do momento dos poetas – em um caso, a agitação de um governo militar que seria encabeçado por Salazar e, no outro, o Estado Novo brasileiro e a Era Vargas. É cômodo, mas não absurdo. A ideia não é aproximar com intimidade a história de Portugal à do Brasil, muito menos abrir mão das relações entre a obra e seus autores (até porque elas de fato existem). A questão é que a literatura já apontava, com seus recursos, o clímax do embate político de 2018: um período eleitoral que flutua entre a negação, o mito e o medo.

Nesse contexto, é importante reconhecer que nenhuma ação deixa de ser política por não estar revestida de nomes de partidos ou de referências a grupos de ativismo. E é justamente neste ponto que se diferenciam realidade e verdade: no discurso. O modo de expressar apoio ou aversão às propostas e ideias de figuras como Fernando Haddad e Jair Bolsonaro determina a relação entre as nossas verdades e a realidade tal como se apresenta para nós.

A mobilização EleNão, por exemplo, canalizou força expressiva na negação. Todos que aderiram a esse discurso conhecem a alta porcentagem de negativas que habita a retórica do candidato do PSL.

Durante grande parte de suas participações em debates ou entrevistas, ele nada mais fez do que negar. Negou frases que teria dito, negou possíveis alianças, negou estar presente em determinados lugares, negou tudo o que pôde. A frase “Jamais iria estuprar você porque você não merece”, esbravejada contra a deputada Maria do Rosário, em 2003, tornou-se uma de suas negações mais conhecidas não só pelo conteúdo absurdo de suas palavras, mas porque todos sabemos que se trata, na verdade, de uma grave afirmação. Ou seja, mesmo quando afirma, Bolsonaro o faz pela negação, pela violência. O capitão, sabemos, afirma-se no ato de negar o outro. No aniquilamento do que não lhe cabe à própria compreensão e, claro, ao seu orgulho.

Nesse sentido, uma manifestação coletiva contra Bolsonaro só poderia encontrar voz por meio do espelhamento do discurso do candidato, que emana repúdio, aversão e, finalmente, afastamento, uma síntese do não, do nunca, do jamais. Contudo, surgiu daí uma dialética complicada, pois, no gesto subjetivo de afastar o absurdo e no distanciamento do inimigo, o mito e o medo passaram a ganhar força, vida e sobrevida.

Quando Fernando Pessoa define mito como “o nada que é tudo”, está evocando o teor fundamental da ausência na origem das nossas crenças.

Referir-se a Jair Bolsonaro como mito, portanto, é justamente afirmar o caráter esporádico da sua presença real. É conferir um aspecto quase poético e lendário às suas ausências, por exemplo, nos debates, como se uma figura como a dele não fosse digna de uma interação tão intimista, tão terrena, tão aproximada a seus oponentes. É neste momento que o nadase torna tudo: no momento em que incontáveis eleitores apaixonados aprovam que ele permaneça distante dos debates, longe de seu adversário, e tornam-se, eles mesmos, seu corpo e propaganda. Bolsonaro, então, sai da condição de candidato e deixa a patente de capitão para converter-se em um mito, um princípio, um ideal. Ele pode não estar em debates, porém já está em tudo: nas redes sociais, nas mensagens de grupos de WhatsApp, não apenas na boca e na palavra de seus eleitores, mas nas de todos. Agora pelo sim ou pelo não.

Criou-se, com essa onda de ódio, preconceito e escárnio, uma força negativa onipresente. Uma nuvem escura de medo ergueu-se sobre a razão, sobre os fatos, sobre o estado de direito, sobre o bom-senso. É um medo generalizado, pois está nos dois lados: os que temem o caos da barbárie travestida de ordem e os que temem as responsabilidades trazidas pelas noções mínimas de civilização e democracia. Enfim o medo drummondiano dos ditadores e dos democratas. Os que negam Bolsonaro e os que negam Haddad. Ou melhor: os que negam as verdades de um e as verdades de outro. Eis a nossa realidade.

Sendo assim, há que se enfrentar o medo e renovar a linguagem política. Se fatos e Direitos Humanos foram transformados em questão de opinião – e, no limite, uma questão de fé –, é importante ressignificar as nossas referências e as nossas verdades. O que leva alguém a votar em Bolsonaro? Caso a resposta esteja envolvida por alguma negação, não se está votando em uma proposta de governo nem em um candidato a presidente, e sim elegendo um discurso. Um discurso que nasce no outro, mas que morre em nós. O medo que deságua na violência e que faz com que o indivíduo fique afastado daqueles que são seus semelhantes.

Não é novidade, porém, que as atitudes dos brasileiros oscilem entre as esferas do público e do privado, muitas vezes confundindo-as.

Atualmente elegemos um político que defenda os nossos interesses e, se as nossas ideias divergem das dos outros, paciência. Para compensar a falta de unidade, abraça-se um coletivismo postiço: o verde e amarelo, as camisas da Seleção Brasileira de futebol, quaisquer movimentos que estabeleçam a Pátria acima de tudo. A eleição tornou-se mais um jogo de final de campeonato: quer-se ganhar a todo custo, mesmo que seja à força, com armas e dentes, com subversões e com o completo apagamento do nosso passado histórico. A esfera dos interesses públicos foi implodida pelos grupos privados de WhatsApp e a verdade passou a alimentar o seu avesso: a mentira.

O conceito de mito, a partir daí, associa-se como sinônimo a termos como mentira e boato. A ausência, então, torna-se chave fundamental para a automação do medo que faz os celulares tremerem ininterruptamente. O discurso dos eleitores – muitas vezes referidos pela mídia indevidamente como fãs –, por outro lado, está presente, replicando o mito, que se apresenta na voz dos outros, longe da razão e do compromisso com outras verdades, mas que, nem por isso, deixa de ser uma realidade. O medo enterrou o discurso, sepultando-o nos comandos encaminhar e compartilhar. Afasta-se qualquer informação antes mesmo que se tenha tempo para pensar nela, e é preciso tempo e serenidade para desmitificar. Por isso que o longo prazo assusta tanto os brasileiros, que dormem abraçados a suas próprias verdades.

Drummond, no fim das contas, já cantou o medo, aquele que não permite que cantemos o amor. São duas opções que se anulam e que precisam urgentemente oferecer espaço para reflexão e diálogo. O poema do Sentimento do mundo, afinal, encerra-se com tom profético neste derradeiro verso: “e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas”. O gesto de nascer em um mesmo plano da morte deve ser lido aqui como uma pergunta a respeito do que prevalece – se os nossos túmulos ou as medrosas flores amarelas. Se o túmulo sepulta qualquer esperança de humanidade e a cor amarela encontra eco na nossa bandeira, parece que o medo, por outro lado, se não mata, apenas faz dilatar o tempo. Tempo de repensar, talvez de renascer.

NICOLASWINCK é linguista formado pela USP e professor de Literatura e Língua Portuguesa.


Texto escrito em 19 de outubro de 2018

sábado, 27 de outubro de 2018

Lançamento do livro Cenas em Jogo de Renato Tardivo


O Blog do Departamento convida a todos para o lançamento do livro Cenas em Jogo de Renato Tardivo que acontece hoje, dia 27 de outubro, entre 15:00 e 18:00 horas  na Livraria da Vila da Fradique Coutinho nº 915.

Na ocasião haverá um debate com a participação de Camila Salles Gonçalves, membro do Departamento de Psicanálise do Sedes Sapientiae.


Confira abaixo o texto de Camila sobre o livro:

Em seu livro, o escritor e psicanalista Renato Tardivo convida o leitor a participar do encontro de três artes: cinema, literatura e psicanálise. Esta última, enquanto arte da interpretação. Somos presenteados com  tranças conceituais, urdidas a partir da especificidade de cada uma das linguagens  implicadas e de seus modos de construir cada narrativa  percorrida.

Uma  das perspectivas,  a  partir das quais o autor comenta vários textos e filmes, tem como foco   “o campo paradoxal – reconciliação e conflito – implicado na comunicação entre as obras”.  Faz com que nos detenhamos em trechos literários e em movimentos de câmera,  planos e sonoridades escolhidos.

A  psicanálise  entrançada com a literatura e a linguagem cinematográfica  está, por exemplo,  na interpretação  que resulta do contexto  e  das cenas do filme Linha de passe de Walter Salles e Daniela Thomas. Após acompanharmos as histórias das cinco personagens que  “se (des) alinham” sobre uma São Paulo “assustadoramente real”, somos levados a  pensar sobre  “a conjuntura social  estruturada nos moldes da perversão, na qual o próprio corpo dos humilhados assume a condição de objeto fetiche”.

Os esclarecedores  ensaios deste livro  tornam presente , com coragem e beleza de estilo, o diálogo fascinante entre as artes. Um  exemplo é a abordagem  de Lavoura Arcaica, romance de Raduan Nassar e do filme homônimo  de Luiz Fernando Carvalho, que “vestiu com luz e som as palavras do romance ”.

Camila Salles Gonçalves

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

Sobre o evento Relações e objetos na Psicanálise: fundamentos e clínica


Nos dias 3 e 4 de agosto último o Departamento de Psicanálise do Sedes Sapientiae promoveu o evento Relações e Objeto na Psicanálise: fundamentos e clínica, com a finalidade de debater o tema sob o ponto de vista histórico e crítico a partir de oticas conceituais diversificadas.

Maria Silvia Bolguese fez um pequeno relato da mesa 2, que contou com os psicanalistas Ana Maria Sigal, Christian Dunker e Elisa Ulhoa Cintra.


Sobre o evento Relações e objetos na Psicanálise: fundamentos e clínica

 Mesa 2: Pulsões, relações e objetos: contraste de concepções

“O tema das relações de objeto corresponde, na história da psicanálise, a um modo de compreensão das experiências psíquicas e afetivas dos sujeitos sempre em um campo intersubjetivo, incluindo aqui a relação transferencial.”

Apesar desse modo especifico de compreender a experiência psíquica e, consequentemente, a experiência psicanalítica, a intenção dos proponentes do evento Relações e objeto na psicanálise. Fundamentos na clinica foi a de promover uma discussão plural, não sectária – por que não dizer, menos infantil – sobre questões cruciais para a psicanalise contemporânea. A ideia era escapar do viés da tensão e do enfrentamento provocados pela crença de que o pertencimento a uma dada escola psicanalítica é suficiente para a formulação das respostas àqueles “velhos dilemas” que persistem vivos ao longo de mais um século de existência da psicanálise.

O titulo do evento já produzia assim uma ênfase interessante ao prescindir da preposição “de” entre as palavras “relação” e “objeto”. Longe de se constituir em um recurso meramente formal ou estilístico, a escolha do título do evento possibilitou que a pluralidade encontrasse espaço para produzir reflexão e pensamento. Assim, atravessamos as excelentes apresentações dos vários colegas que compuseram as três mesas do evento, e que buscaram refletir sobre o tema das relações, da objetalidade e da pulsionalidade, na medida em que trouxeram caminhos que poderiam ou não se contrapor para uma compreensão aprofundada acerca da constituição do psiquismo, base da teoria psicanalítica, incluindo-se, claro, a teoria da clínica.

Nesse sentido, comentarei aqui sobre as reflexões proporcionadas especificamente pelas apresentações da mesa 2, cujo objetivo era fazer falar as visões contrastantes e deixar que colegas psicanalistas de diferentes formações e percursos pudessem efetivamente (com)versar.

Em sua delicada reflexão, Elisa Ulhôa Cintra reivindicou com muita justeza a presença do pensamento de Melanie Klein e suas contribuições acerca das fantasias inconscientes em toda sua dimensão transicional, como fez questão de assinalar. Dialogando com Décio Gurfinkel, a partir do livro “Relações de objeto” (disparador da proposta de todo o evento), seu intuito foi destacar o quanto a objetalidade, a presença do objeto interno na constituição psíquica, pode ser pensada também como uma das contribuições fundamentais da obra kleiniana para os autores que escreveram sobre as relações de objeto, apesar do seu forte acento à importância da pulsionalidade e das disposições internas. A concepção freudiana acerca da dimensão pulsional na constituição subjetiva é acompanhada por Melanie Klein e, em certa medida, até radicalizada. Contudo, os objetos internos, as figuras materno/paternas são elementos fundamentais em sua teoria, não deixando a autora em sua clinica psicanalítica com crianças de incluir os pais e o ambiente como fundamentais para a construção dos espaços nos quais o psiquismo da criança pode se (re)constituir.

Ana Maria Sigal denominou seu texto de “Antropofagia do objeto: desconstrução e reconstrução”, dividindo sua exposição em duas partes. A primeira, bastante oportuna e relevante, destacou algumas de suas ideias advindas do seu longo percurso como representante do Departamento de Psicanálise no grupo Articulação. Perguntando, de saída, se em psicanálise poderia se afirmar quem tem a leitura mais justa ou interpreta melhor o legado de Freud, Ana chama atenção para o fato de que ninguém poderia ocupar este lugar. Existem múltiplas contribuições de diversos autores pós-freudianos que produziram e produzem avanços das reflexões no campo psicanalítico, mas quais seriam os elementos “inegociáveis” para se demarcar o que seria ou não seria psicanálise? A dimensão politica da discussão, assim, é explicitamente trazida para o centro do debate, revelando que é possível e desejável discutir as posições contrastantes. Contudo, diz Ana, os psicanalistas precisam se articular em torno de eixos fundantes, ocupando-se das questões que se impõem contemporaneamente, visando ao fortalecimento da teoria psicanalítica em tempos de constantes ataques, desfigurações e apropriações religiosas ou politico/religiosas. É preciso abandonar a compreensão binária das questões, imaginando que apenas uma ou outra posição expressa as respostas verdadeiras, para aprender a transitar na diversidade. Tomando-se os conceitos centrais, que ela chama de inegociáveis, sexualidade infantil e inconsciente entre outros, afirma que, assim como Freud, todo psicanalista deve ser um revisionista de sua clínica e de suas concepções. No segundo momento de sua exposição, Ana deixa clara sua concepção acerca da pulsionalidade e objetalidade na constituição do sujeito, argumentando que não se trata de fazer oposição entre o interno e o externo como determinantes do funcionamento mental. Acompanhando Laplanche, Ana ressalta que “a pulsão não é biológica (embora sua fonte seja corporal), mas o desejo da mãe ancorado e encarnado no corpo da criança; metabolizado, decomposto e recomposto. O desejo da mãe é “antropofagizado” até se fazer carne e fantasma no corpo da criança.” Não é então casual que Ana tenha revisto em sua clínica com crianças a presença/ausência dos pais no setting analítico, tendo passado a introduzi-los nas sessões junto com a criança.

Christian Dunker trouxe as contribuições de Lacan para pensar as relações de objeto e as implicações de natureza conceitual e também do método.  Retomando o livro de Décio Gurfinkel, concorda em parte com a concepção, ali defendida pelo autor, que estabelece dois paradigmas para pensar o desenvolvimento da teoria psicanalítica: o modelo freudiano pulsional, no qual a dimensão interna e corporal seria pregnante no psiquismo, e o modelo das relações de objeto, que defenderia, por assim dizer, a constituição de uma subjetividade compartilhada, definida previamente pelas relações de objeto, pela alteridade. Christian vai defender que a teoria lacaniana representaria um terceiro paradigma, já que Lacan não deixa de criticar os dois modelos aqui colocados. Ao fim a ao cabo, deixa claro que a teoria lacaniana não poderia ser pensada apenas como uma teoria das relações de objeto, mas muito mais como uma teoria que se ocupa a considerar a relação com a “falta” de objeto. Se, por um lado, o sujeito busca o objeto é porque, de outro, o objeto falta. Seria a partir dos modos de falta de objeto encontradas pelo sujeito - privação, frustração e castração - que Lacan vai desenvolver sua teoria das relações de objeto. A teoria lacaniana da relação com a falta do objeto sublinha a dimensão negativa e abre uma reflexão sobre a clínica do negativo.

Ao final, restava a sensação de que havia muitas possibilidades de discussão, muitos caminhos e oportunidades de pensamentos e reflexões, como chegou a mencionar alguém da plateia. Pulsão e objeto, fantasias inconscientes e transicionalidade, angústia e identificação, narcisismo primário e secundário. São polos que, se insistiam inicialmente em clamar a volta da  preposição “ou”, o que confinaria a discussão em uma dimensão puramente binária, como já havia alertado Ana Sigal, acabaram por ceder espaço, ao longo das exposições e da discussão que se seguiu, para um trabalho que manteve a tensão, o conflito e, até mesmo, a contradição provocada pelos movimentos regidos pela preposição “e”.  De fato, é preciso voltar com bastante calma a estes belos textos, que serão reunidos e publicados proximamente, mas que podem também ser revistos em vídeo disponível na Eventoteca do site do Departamento de Psicanálise do Sedes Sapientiae. Este texto tem a intenção de incitar esta retomada, pois tais falas merecem ainda um intenso trabalho, tanto pela complexidade das questões abordadas, quanto pela possibilidade não muito frequente de que posições contrastantes gerem condição de criar diálogos e produção conjunta. Entre sujeito, objeto e falta de objeto, fica colocado o trinômio a partir do que se necessita prosseguir pensando.  Sem dúvida alguma, avançamos.

Maria Silvia Bolguese é psicanalista, membro e professora do curso de Psicanálise do Departamento de Psicanálise do Sedes Sapientiae, e colunista do Blog do Departamento. É autora dos livros “Depressão & doença nervosa” (Via Lettera, 2004) e “O tempo e os medos. A parábola das estátuas pensantes” (Blucher, 2017)

quarta-feira, 22 de agosto de 2018

Coluna “Livros da minha Vida” - “O Conto da Ilha Desconhecida” por Rodrigo Blum


Nesse texto Rodrigo Blum escolhe o “O Conto da Ilha Desconhecida” de José Saramago como texto que marcou sua vida de leitor. Nos apresenta o caminho desde o aprendizado de menino, ao lado de seu avô na beira do rio, até a construção de uma ética que defende o direito inquestionável de sonhar.

Sonhemos juntos.


Navegar é preciso, viver não é preciso...


Que é que queres, Por que foi que não disseste logo o que querias, Pensarás tu que eu não tenho mais nada que fazer, mas o homem só respondeu à primeira pergunta, Dá-me um barco, disse. O assombro deixou o rei a tal ponto desconcertado, que a mulher da limpeza se apressou a chegar-lhe uma cadeira de palhinha, a mesma em que ela própria se sentava quando precisava de trabalhar de linha e agulha, pois, além da limpeza, tinha também à sua responsabilidade alguns trabalhos menores de costura no palácio, como passajar as peúgas dos pajens. Mal sentado, porque a cadeira de palhinha era muito mais baixa que o trono, o rei estava a procurar a melhor maneira de acomodar as pernas, ora encolhendo-as ora estendendo-as para os lados, enquanto o homem que queria o barco esperava com paciência a pergunta que se seguiria, E tu para que queres um barco, pode-se saber, foi o que o rei de facto perguntou quando finalmente se deu por instalado, com sofrível comodidade, na cadeira da mulher da limpeza, Para ir à procura da ilha desconhecida, respondeu o homem, Que ilha desconhecida, perguntou o rei disfarçando o riso, como se tivesse na sua frente um louco varrido, dos que têm a mania das navegações, a quem não seria bom contrariar logo de entrada, A ilha desconhecida, repetiu o homem, Disparate, já não há ilhas desconhecidas, Estão todas nos mapas, Nos mapas só estão as ilhas conhecidas, E que ilha desconhecida é essa de que queres ir à procura, Se eu to pudesse dizer, então não seria desconhecida, A quem ouviste tu falar dela, perguntou o rei, agora mais sério, A ninguém, Nesse caso, por que teimas em dizer que ela existe, Simplesmente porque é impossível que não exista uma ilha desconhecida, E vieste aqui para me pedires um barco, Sim, vim aqui para pedir-te um barco, E tu quem és, para que eu to dê, E tu quem és, para que não mo dês, Sou o rei desse reino, e os barcos do reino pertencem-me todos, Mais lhes pertencerás tu a eles do que eles a ti, Que queres dizer, perguntou o rei inquieto, Que tu, sem eles, és nada, e que eles, sem ti, poderão sempre navegar, Às minhas ordens, com meus pilotos e os meus marinheiros, Não te peço marinheiros nem piloto, só te peço um barco, E essa ilha desconhecida, se a encontrares, será para mim, A ti, rei, só te interessam as ilhas conhecidas, Também me interessam as desconhecidas quando deixam de o ser, Talvez esta não se deixe de o ser, Então não te dou o barco, Darás.

Parado em frente a uma alta estante com coleções de livros de encadernações antigas, duras e belas; herança preciosa de meu avô, procuro calmamente aquele autor ou livro que tenha realmente marcado minha vida de leitor. Aos meus olhos ressaltam Jorge Amado, Monteiro Lobato, Lima Barreto, Machado de Assis, Guimarães Rosa... Sim Guimarães. Neste me detenho um pouco mais e como um sopro escuto: “A vida é muito perigosa”. Escuto novamente, e novamente... em um instante vejo meu avô trazer em suas mãos “Grande Sertão: Veredas”, e me dizer com entusiasmo: “Rodrigo este é o livro mais belo e importante já escrito em todos os tempos!” Seu Odoacro Gonçalves me contava repetidamente que havia lido “Grande Sertão: Veredas” inúmeras vezes e nem por isso se cansava em reler. Confesso que nunca me senti à altura de meu avô para ler “Grande Sertão: Veredas” como ele me fazia imaginar o sertão de Diadorim. Mas não foi em Rosa que minha viagem estacionou. Meu barco aportou em outros portos e logo estava eu e Odoacro sentados em um singelo bote à beira do rio Paraná à espera do fisgar da piapara. Piapara era o peixe desejado no rio que divide São Paulo e Mato Grosso do Sul. Nas esperadas férias de julho, meu avô me apresentava seu mais rico prazer. Saíamos cedo em um pequeno bote a motor até um lugar privilegiado onde montávamos nossa embarcação. Varas prontas e rio calmo, era hora de jogar os anzóis. Lembro, como se fosse hoje, das conversas sem hora para terminar, ou mesmo, dos longos silêncios à beira do caudaloso rio. À espera da mordida da piapara meu avô sempre me oferecia uma barra de chocolate, guloseima cuidadosamente preparada por minha avó Cinira, enquanto iniciava seu mais primoroso ritual: o fumar de seu cachimbo. Sentado ao lado do meu avô em pleno rio Paraná, escutando suas histórias, ajudando a manipular o bote, brigando com as piaparas, inalando o aroma do fumo vindo do cachimbo, me sentia, mesmo ainda sem conhecer, como o velho Santiago frente ao mar. Se o dia era dedicado a pesca, a noite era reservada à prosa. Ao lado de Odoacro, Seu Salu, velho pescador e amigo antigo de meu avô, por toda a vida se dedicou à pesca. Sentados em volta da brasa quente, ficavam relembrando histórias do rio e seus personagens. Eu, menino atento, escutava cada uma das muitas histórias, imaginando cada situação como uma fábula naquele cenário sem eletricidade. A escuta era, desde lá, minha via mais respeitosa àqueles senhores e suas heranças. O encontro de Salu e Odoacro pareceria impossível à luz dos dias de hoje. No entanto, como é sabido, é à beira do fogo que a conversa se encontra com sua forma mais primitiva ou se preferimos mais infantil. É com os olhos atraídos pelo colorido das chamas e o calor da brasa, que despretensiosamente o sujeito fala sem olhar para quem está ao seu lado. Escutar meu avô e Seu Salu, mesmo muito precocemente, me punha perto de um universo ainda inexplorável, inconsciente e fascinante. Minha busca a ilha desconhecida só iria acontecer muitos anos depois. No entanto, hoje sem medo, posso afirmar que o meu primeiro encontro com o divã se deu junto a Salu e Odoacro.

Foi assim, embarcado nas recordações infantis que cheguei em José. Saramago certamente é o autor que mais li. José Saramago e sua escrita particular, seu português de Portugal, suas profundezas e delicadezas sempre me povoaram. Viajei por muitos sítios com José até chegar ao comovente O Conto da ilha Desconhecida, e ali aportei meu singelo barco.

Antes de nos aventurarmos ao mar aberto da psicanálise, convém içarmos nossas velas para o universo inconsciente e nos aproximarmos mais atentamente do diálogo travado entre um homem que deseja um barco para buscar uma ilha desconhecida e um rei sentado em seu trono de certezas. O que pode haver por detrás deste aparente desentendimento ou falta de consenso? Quem pensa que é este homem para desafiar o rei? O que o faz ter certeza que ainda exista uma ilha desconhecida? Por que será que um rei ficaria tão estupefato ou, ainda, insultado com o desejo deste sujeito? Inúmeras outras perguntas poderiam ser levantadas, mas é certo que estas já se fazem suficientes para nortear o início de nossa viagem.

O inconsciente é o infantil na teoria freudiana. Partir desta conceituação significa muito mais do que entender o inconsciente como uma região a ser descoberta ou revelada. Pensar no infantil como uma instância permanente no funcionamento psíquico significa considerar como determinante a força pulsional inconsciente na constituição subjetiva e, sobretudo, postular a ideia do sujeito ancorado desde o nascimento até a morte ao desamparo. Neste sentido, o que Freud nomeia “infantil” diz respeito às vivências essenciais que, reduzidas a feixes, traços e marcas, determinam uma organização subjetiva. Em Freud, o inconsciente é atemporal, ou seja, no registro inconsciente são os traços mnêmicos e os fragmentos articuláveis, que, a rigor, compõem a substância indestrutível do infantil. Sabemos que tais impressões da infância não sofrem um real desaparecimento. É sabido também que tais lembranças não serão recordadas no tempo da criança, ou ainda que somente na idade adulta, mesmo de forma fragmentada e alterada, retornarão à consciência de modo geral indiferenciadas das fantasias. Se é verdade que a pulsão de vida não cessa com a aproximação da morte, é também certo que as marcas da cultura são inevitavelmente cruéis. De posse desta proposição, veremos como acompanhar o sujeito, que deseja um barco para ir à procura de uma ilha desconhecida, considerando a precariedade dos recursos que ainda dispõe.

No texto intitulado Uma Dificuldade no Caminho da Psicanálise (1917), Freud irá nos apresentar brilhantemente o terceiro golpe narcísico a que o homem é submetido: o golpe psicológico. Sentado em seu trono narcísico, o homem tem a enganosa certeza que possui todo o conhecimento sobre si quando estabelece que tudo o que é mental é idêntico ao que é consciente. Ou seja, nesta perspectiva o sujeito se esforça e chega acreditar que tudo aquilo que sabe sobre si é exatamente tudo aquilo que chega a seu conhecimento, mesmo tendo óbvias evidências que inúmeras outras coisas acontecem em sua mente. Afinal, para este nobre sujeito não existem ilhas desconhecidas. Ledo engano. Diz Freud imaginando uma conversa entre dois distintos sujeitos:
            “Vamos, deixe que lhe ensinem algo sobre esse problema! O que está em sua mente não coincide com aquilo de que você está consciente; o que acontece realmente e aquilo que você sabe, são duas coisas distintas. (...) Com frequência, também, acontece que você só obtém informação dos eventos quando eles acabaram e quando você nada mais pode fazer para modificá-los. Mesmo se você não está doente, quem poderá dizer tudo o que está agitando sua mente, coisas que você não sabe ou das quais tem falsas informações? Você se comporta como um governante absoluto, que se contenta com as informações fornecidas pelos seus altos funcionários e jamais se mistura com o povo para ouvir a sua voz. Volte seus olhos para dentro, contemple suas próprias profundezas, aprenda primeiro a conhecer-se! Então, compreenderá por que está destinado a ficar doente e, talvez, evite adoecer no futuro.”
Diante da fatídica dupla constatação de que os processos mentais são, em si, inconscientes; e que as pulsões não podem ser domadas, o rei perde seu trono; ou ainda, como afirma Freud: o ego não é o senhor da sua própria casa. Voltemos nossa escuta mais atenta e flutuante à conversa entre o sujeito e o rei. Vamos fazer um exercício imaginário, fundamental para todo processo analítico, e deixar as associações reinarem livremente. Sentados ao lado de tal sujeito (delirante?), recém-chegados ao porto e abertos à uma viagem, o que será que pode nos atrair? Por onde devemos jogar nossas cordas (ou melhor, seria desatar os nós)? Vale a pena ficar jogando uma rede de significantes sem poder estar realmente atento ao sentido desta longa conversa entre um sujeito e seu rei? Que rei será este? E, uma última pergunta, talvez a única e fundamental: que deseja este corajoso sujeito?

Toda resistência tem um momento de afrouxamento ou ruptura. Frente a tanta persistência, o rei haveria de baixar a guarda e aceitar o pedido do homem que desejava um barco. Certo de que não mais havia ilhas desconhecidas e somente ilhas conhecidas, mas preocupado com a manifestação da vontade popular e com o que já havia perdido na “porta dos obséquios”, o rei levantou a mão direita a impor silêncio e disse, Vou dar-te um barco, mas a tripulação terás de arranjá-la tu, os meus marinheiros são-me precisos para as ilhas conhecidas.

Pronto, o pedido do homem que desejava o barco havia sido satisfeito, e agora? De posse da permissão do rei o homem vai em busca de sua ilha desconhecida, mas como? Antes de seguir viagem sozinho, ganha a companhia da mulher da limpeza, que já não via a hora de mudar de ofício e deixar de limpar palácios, sai de balde e vassoura pela “porta das decisões”.

Sentar ao lado deste nobre e corajoso sujeito, que desafia o tempo para pedir um barco, significa muito mais do que dar ouvidos ou atenção, cuidados ou recursos. Trata-se, sim, de oferecer um verdadeiro dispositivo clínico na contramão da concepção atual que determina que todo indivíduo tem o direito, e portanto, o dever, de não manifestar seu sofrimento, de não mais se entusiasmar com o menor ideal que não seja um bom medicamento para aliviar as suas dores. De posse do aparato psicanalítico, que insiste em nadar contra a forte correnteza neurobiológica, vamos oferecer o barco que tanto deseja nosso sujeito. Mais do que uma mera canoa que flutue com aparente segurança por mares turbulentos, ou pior, que deslize por profundas calmarias tediosas: nosso sujeito deseja um barco que comporte suas angústias, seus medos, seus desejos, seus conflitos. Contrários à ideia da busca incessante pela tranquilidade fictícia do sem dor ou crença da “felicidade”, esta embarcação lançará suas âncoras nas profundezas da subjetividade de sua ilha desconhecida. Assim, o acompanhar desta viagem, onde a bússola psicanalítica servirá como guia, terá como desafio o encontro recorrente com o motor da subjetividade: o conflito psíquico.

Somente o sonho será capaz de oferecer ao mesmo tempo um feixe de luz ao inconsciente e ao devir navegar. Sonhar e devanear sempre foram a mais preciosa produção humana. O sonho para Freud é a prova cabal do determinismo inconsciente. Se em Freud o sonhar tem como principal função garantir o sono de quem sonha, é como realização de desejo que o sonho ganha o status de linguagem e acesso ao conteúdo latente. Assim, em Interpretação dos Sonhos (1900), Freud apresenta de forma inequívoca a importância dos processos oníricos à luz da ciência psicanalítica. Revolucionário e radical, Freud desvela ao mundo científico o desconhecido da ilha conhecida por todos. Se até 1900 a existência da instância inconsciente era negada e repudiada por grande parte da classe médica; a partir desta, que é chamada a obra inaugural da psicanálise, o conteúdo inconsciente passa, então, a ser material de pesquisa e conflito. Aqui já não mais é possível negar o inconsciente, sonhar é do homem, logo cabe ao homem se haver com a interpretação dos seus sonhos. Freud iça sua âncoras, lança-se ao mar profundo do próprio inconsciente em sua auto-análise, viaja em busca das Índias e desembarca nas Américas. A ilha desconhecida do inconsciente continua a ser desconhecida, já que não existem mais ilhas conhecidas, somente ilhas desconhecidas. Freud, guiado pela inquietante sintomatologia histérica, embarca em sua metapsicologia e vai em busca da ilha desconhecida. Os sintomas serão seus primeiros portos. A análise do sentido dos sintomas leva-o em direção ao universo onírico dos sonhos e, com estes, parte em direção aos conteúdos recalcados. O infantil será seu destino primordial. Não a criança como entendiam seus críticos, mas a sexualidade infantil será seu norte principal. Ao pedir um barco ao rei, Freud ofereceu a toda uma cultura sua mais valiosa contribuição. Muito mais do que desvelar o inconsciente em cada um de nós, Freud revelou o determinante inconsciente no humano, assim como o poder da força pulsional e destruidora no seio da civilização. Nem mesmo o rei todo poderoso da consciência seria capaz de domar a força do desejo recalcado, que dirá a lisura de um sonho sonhado.

Em seu precioso texto, porém pouco comentado, Escritores Criativos e Devaneios (1908), Freud irá fazer o encontro entre a psicanálise e sua verdadeira obra. Para Freud a psicanálise é a única ciência capaz de desvelar o recalcado pela escuta do inconsciente. Mas são os escritores os privilegiados sujeitos capazes de brincar com as palavras como as crianças brincam no mais profundo universo infantil. Será então à luz da liberdade criativa dos escritores que Freud nos revelará o mais profundo e imperioso do inconsciente. É a partir da seriedade do brincar infantil que Freud apresentará o fantasiar dos escritores. A criança brinca seriamente, ou seja, cria seu universo de brincadeiras com toda a seriedade que a brincadeira merece, catexiza os objetos a sua volta com a força da imaginação afim de distinguir perfeitamente o brincar da realidade. Neste sentido a afirmação de que o brincar não é antítese do que é sério, e sim do que é real, ganha enorme força conceitual no texto de Freud. De posse deste conceito, Freud vai então nos apresentar o escritor criativo como aquele que brinca como as crianças, que ao criar um mundo de fantasia e leva-lo a sério, mantém uma nítida separação entre a fantasia e a realidade, onde a linguagem será a via da relação entre o brincar infantil e a criação poética. Diz Freud: “a criança em crescimento, quando para de brincar, só abdica do elo com os objetos reais; em vez de brincar, ela agora fantasia. Constrói castelos no ar e cria o que chamamos de devaneios.” (p.136). A linguagem portanto, com toda sua inigualável sabedoria, lançou luz sobre a natureza dos sonhos e iluminou os obscuros desejos inconscientes. Os ditos sonhos diurnos, devaneios, a partir de Interpretação dos Sonhos, ganham o reconhecimento justo da realização de desejos, passando a ser nomeados de fantasias. A psicanálise uma vez mais ilumina a ilha desconhecida e temida da loucura, dando o devido lugar ao estranho em cada um de nós. Assim, toda viagem que se possa imaginar tem como destino a ilha desconhecida do inconsciente e implica impreterivelmente no encontro com o estrangeiro que existe no horizonte de nossa existência. Esse estrangeiro que nos é familiar, essa ilha desconhecida onde só existem ilhas conhecidas, essa viagem regressiva que salta ao futuro, terá como guia o homem que deseja e sonha com um barco.

Se o início de nossa viagem teve o devaneio como ponto de partida, a liberdade do pensar criativo e o sonhar serão o porto de chegada. Volto ao comandante Freud para suas últimas palavras que não por acaso revelam o início deste ensaio: “Uma poderosa experiência no presente desperta no escritor criativo uma lembrança de uma experiência anterior (geralmente de sua infância), do qual se origina então um desejo que encontra realização na obra criativa. A própria obra revela elementos da ocasião motivadora do presente e da lembrança antiga.”(p.141) Antes de me despedir, gostaria de nomear a ética psicanalítica que norteia minha busca cotidiana às ilhas desconhecidas de meus pacientes, na qual a liberdade está no direito inquestionável de sonhar. Voltemos então ao barco de nosso fiel marujo à luz da poesia de José Saramago:


Desde que a viagem à ilha desconhecida começou que não se vê o homem do leme comer, deve ser porque está a sonhar, apenas a sonhar, e se no sonho lhe apetecesse um pedaço de pão ou uma maçã, seria um puro invento, nada mais. As raízes das árvores já estão penetrando no cavername, não tarda que estas velas içadas deixem de ser precisas, bastará que o vento sopre nas copas e vá encaminhando a caravela ao seu destino. É uma floresta que navega e se balanceia sobre as ondas, uma floresta onde, sem saber-se como, começaram a cantar pássaros, deviam estar escondidos por aí e de repente decidiram sair à luz, talvez porque a seara já esteja madura e é preciso ceifá-la. Então o homem trancou a roda do leme e desceu ao campo com foice na mão, e foi quando tinha cortado as primeiras espigas que viu uma sombra ao lado da sua sombra. Acordou abraçado à mulher da limpeza, e ela a ele, confundidos os corpos, confundidos os beliches, que não se sabe se este é o de bombordo ou o de estibordo. Depois, mal o sol acabou de nascer, o homem e a mulher foram pintar na proa do barco, de um lado e do outro, em letras brancas, o nome que ainda faltava dar à caravela. Pela hora do meio-dia, com a maré, A Ilha Desconhecida fez-se enfim ao mar, à procura de si mesma.


 Rodrigo Blum, agosto de 2018


Rodrigo Blum - Psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae -São Paulo-SP, Professor do curso Conflito e Sintoma do Instituto Sedes Sapientiae,  membro do GTEP - Grupo de Transmissão e Estudos de Psicanálise do mesmo Departamento.


Referencias bibliográficas:

Freud S. (1908) “Escritores Criativos e Devaneios”. In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas. Rio de Janeiro: Imago, 1996; v.9.
Freud S. (1917) “Uma Dificuldade no Caminho da Psicanálise”. In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas. Rio de Janeiro: Imago, 1996; v.17.
Saramago, J. O conto da Ilha Desconhecida. São Paulo: Companhia das Letras.