Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae

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O Blog do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae é um dos veículos de comunicação em que circulam informações, produção de conhecimento, experiências clínicas e de pesquisa de seus diferentes membros. A interlocução com o público, dentro e fora do Departamento, é uma maneira de disseminar a troca no campo da Psicanálise e possibilitar a ampliação do alcance das reflexões em pauta. Fazem parte da equipe do Blog: Ana Carolina Vasarhelyi de Paula Santos, Fernanda Borges e Gisela Haddad.

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

Sobre o evento Relações e objetos na Psicanálise: fundamentos e clínica


Nos dias 3 e 4 de agosto último o Departamento de Psicanálise do Sedes Sapientiae promoveu o evento Relações e Objeto na Psicanálise: fundamentos e clínica, com a finalidade de debater o tema sob o ponto de vista histórico e crítico a partir de oticas conceituais diversificadas.

Maria Silvia Bolguese fez um pequeno relato da mesa 2, que contou com os psicanalistas Ana Maria Sigal, Christian Dunker e Elisa Ulhoa Cintra.


Sobre o evento Relações e objetos na Psicanálise: fundamentos e clínica

 Mesa 2: Pulsões, relações e objetos: contraste de concepções

“O tema das relações de objeto corresponde, na história da psicanálise, a um modo de compreensão das experiências psíquicas e afetivas dos sujeitos sempre em um campo intersubjetivo, incluindo aqui a relação transferencial.”

Apesar desse modo especifico de compreender a experiência psíquica e, consequentemente, a experiência psicanalítica, a intenção dos proponentes do evento Relações e objeto na psicanálise. Fundamentos na clinica foi a de promover uma discussão plural, não sectária – por que não dizer, menos infantil – sobre questões cruciais para a psicanalise contemporânea. A ideia era escapar do viés da tensão e do enfrentamento provocados pela crença de que o pertencimento a uma dada escola psicanalítica é suficiente para a formulação das respostas àqueles “velhos dilemas” que persistem vivos ao longo de mais um século de existência da psicanálise.

O titulo do evento já produzia assim uma ênfase interessante ao prescindir da preposição “de” entre as palavras “relação” e “objeto”. Longe de se constituir em um recurso meramente formal ou estilístico, a escolha do título do evento possibilitou que a pluralidade encontrasse espaço para produzir reflexão e pensamento. Assim, atravessamos as excelentes apresentações dos vários colegas que compuseram as três mesas do evento, e que buscaram refletir sobre o tema das relações, da objetalidade e da pulsionalidade, na medida em que trouxeram caminhos que poderiam ou não se contrapor para uma compreensão aprofundada acerca da constituição do psiquismo, base da teoria psicanalítica, incluindo-se, claro, a teoria da clínica.

Nesse sentido, comentarei aqui sobre as reflexões proporcionadas especificamente pelas apresentações da mesa 2, cujo objetivo era fazer falar as visões contrastantes e deixar que colegas psicanalistas de diferentes formações e percursos pudessem efetivamente (com)versar.

Em sua delicada reflexão, Elisa Ulhôa Cintra reivindicou com muita justeza a presença do pensamento de Melanie Klein e suas contribuições acerca das fantasias inconscientes em toda sua dimensão transicional, como fez questão de assinalar. Dialogando com Décio Gurfinkel, a partir do livro “Relações de objeto” (disparador da proposta de todo o evento), seu intuito foi destacar o quanto a objetalidade, a presença do objeto interno na constituição psíquica, pode ser pensada também como uma das contribuições fundamentais da obra kleiniana para os autores que escreveram sobre as relações de objeto, apesar do seu forte acento à importância da pulsionalidade e das disposições internas. A concepção freudiana acerca da dimensão pulsional na constituição subjetiva é acompanhada por Melanie Klein e, em certa medida, até radicalizada. Contudo, os objetos internos, as figuras materno/paternas são elementos fundamentais em sua teoria, não deixando a autora em sua clinica psicanalítica com crianças de incluir os pais e o ambiente como fundamentais para a construção dos espaços nos quais o psiquismo da criança pode se (re)constituir.

Ana Maria Sigal denominou seu texto de “Antropofagia do objeto: desconstrução e reconstrução”, dividindo sua exposição em duas partes. A primeira, bastante oportuna e relevante, destacou algumas de suas ideias advindas do seu longo percurso como representante do Departamento de Psicanálise no grupo Articulação. Perguntando, de saída, se em psicanálise poderia se afirmar quem tem a leitura mais justa ou interpreta melhor o legado de Freud, Ana chama atenção para o fato de que ninguém poderia ocupar este lugar. Existem múltiplas contribuições de diversos autores pós-freudianos que produziram e produzem avanços das reflexões no campo psicanalítico, mas quais seriam os elementos “inegociáveis” para se demarcar o que seria ou não seria psicanálise? A dimensão politica da discussão, assim, é explicitamente trazida para o centro do debate, revelando que é possível e desejável discutir as posições contrastantes. Contudo, diz Ana, os psicanalistas precisam se articular em torno de eixos fundantes, ocupando-se das questões que se impõem contemporaneamente, visando ao fortalecimento da teoria psicanalítica em tempos de constantes ataques, desfigurações e apropriações religiosas ou politico/religiosas. É preciso abandonar a compreensão binária das questões, imaginando que apenas uma ou outra posição expressa as respostas verdadeiras, para aprender a transitar na diversidade. Tomando-se os conceitos centrais, que ela chama de inegociáveis, sexualidade infantil e inconsciente entre outros, afirma que, assim como Freud, todo psicanalista deve ser um revisionista de sua clínica e de suas concepções. No segundo momento de sua exposição, Ana deixa clara sua concepção acerca da pulsionalidade e objetalidade na constituição do sujeito, argumentando que não se trata de fazer oposição entre o interno e o externo como determinantes do funcionamento mental. Acompanhando Laplanche, Ana ressalta que “a pulsão não é biológica (embora sua fonte seja corporal), mas o desejo da mãe ancorado e encarnado no corpo da criança; metabolizado, decomposto e recomposto. O desejo da mãe é “antropofagizado” até se fazer carne e fantasma no corpo da criança.” Não é então casual que Ana tenha revisto em sua clínica com crianças a presença/ausência dos pais no setting analítico, tendo passado a introduzi-los nas sessões junto com a criança.

Christian Dunker trouxe as contribuições de Lacan para pensar as relações de objeto e as implicações de natureza conceitual e também do método.  Retomando o livro de Décio Gurfinkel, concorda em parte com a concepção, ali defendida pelo autor, que estabelece dois paradigmas para pensar o desenvolvimento da teoria psicanalítica: o modelo freudiano pulsional, no qual a dimensão interna e corporal seria pregnante no psiquismo, e o modelo das relações de objeto, que defenderia, por assim dizer, a constituição de uma subjetividade compartilhada, definida previamente pelas relações de objeto, pela alteridade. Christian vai defender que a teoria lacaniana representaria um terceiro paradigma, já que Lacan não deixa de criticar os dois modelos aqui colocados. Ao fim a ao cabo, deixa claro que a teoria lacaniana não poderia ser pensada apenas como uma teoria das relações de objeto, mas muito mais como uma teoria que se ocupa a considerar a relação com a “falta” de objeto. Se, por um lado, o sujeito busca o objeto é porque, de outro, o objeto falta. Seria a partir dos modos de falta de objeto encontradas pelo sujeito - privação, frustração e castração - que Lacan vai desenvolver sua teoria das relações de objeto. A teoria lacaniana da relação com a falta do objeto sublinha a dimensão negativa e abre uma reflexão sobre a clínica do negativo.

Ao final, restava a sensação de que havia muitas possibilidades de discussão, muitos caminhos e oportunidades de pensamentos e reflexões, como chegou a mencionar alguém da plateia. Pulsão e objeto, fantasias inconscientes e transicionalidade, angústia e identificação, narcisismo primário e secundário. São polos que, se insistiam inicialmente em clamar a volta da  preposição “ou”, o que confinaria a discussão em uma dimensão puramente binária, como já havia alertado Ana Sigal, acabaram por ceder espaço, ao longo das exposições e da discussão que se seguiu, para um trabalho que manteve a tensão, o conflito e, até mesmo, a contradição provocada pelos movimentos regidos pela preposição “e”.  De fato, é preciso voltar com bastante calma a estes belos textos, que serão reunidos e publicados proximamente, mas que podem também ser revistos em vídeo disponível na Eventoteca do site do Departamento de Psicanálise do Sedes Sapientiae. Este texto tem a intenção de incitar esta retomada, pois tais falas merecem ainda um intenso trabalho, tanto pela complexidade das questões abordadas, quanto pela possibilidade não muito frequente de que posições contrastantes gerem condição de criar diálogos e produção conjunta. Entre sujeito, objeto e falta de objeto, fica colocado o trinômio a partir do que se necessita prosseguir pensando.  Sem dúvida alguma, avançamos.

Maria Silvia Bolguese é psicanalista, membro e professora do curso de Psicanálise do Departamento de Psicanálise do Sedes Sapientiae, e colunista do Blog do Departamento. É autora dos livros “Depressão & doença nervosa” (Via Lettera, 2004) e “O tempo e os medos. A parábola das estátuas pensantes” (Blucher, 2017)

quarta-feira, 22 de agosto de 2018

Coluna “Livros da minha Vida” - “O Conto da Ilha Desconhecida” por Rodrigo Blum


Nesse texto Rodrigo Blum escolhe o “O Conto da Ilha Desconhecida” de José Saramago como texto que marcou sua vida de leitor. Nos apresenta o caminho desde o aprendizado de menino, ao lado de seu avô na beira do rio, até a construção de uma ética que defende o direito inquestionável de sonhar.

Sonhemos juntos.


Navegar é preciso, viver não é preciso...


Que é que queres, Por que foi que não disseste logo o que querias, Pensarás tu que eu não tenho mais nada que fazer, mas o homem só respondeu à primeira pergunta, Dá-me um barco, disse. O assombro deixou o rei a tal ponto desconcertado, que a mulher da limpeza se apressou a chegar-lhe uma cadeira de palhinha, a mesma em que ela própria se sentava quando precisava de trabalhar de linha e agulha, pois, além da limpeza, tinha também à sua responsabilidade alguns trabalhos menores de costura no palácio, como passajar as peúgas dos pajens. Mal sentado, porque a cadeira de palhinha era muito mais baixa que o trono, o rei estava a procurar a melhor maneira de acomodar as pernas, ora encolhendo-as ora estendendo-as para os lados, enquanto o homem que queria o barco esperava com paciência a pergunta que se seguiria, E tu para que queres um barco, pode-se saber, foi o que o rei de facto perguntou quando finalmente se deu por instalado, com sofrível comodidade, na cadeira da mulher da limpeza, Para ir à procura da ilha desconhecida, respondeu o homem, Que ilha desconhecida, perguntou o rei disfarçando o riso, como se tivesse na sua frente um louco varrido, dos que têm a mania das navegações, a quem não seria bom contrariar logo de entrada, A ilha desconhecida, repetiu o homem, Disparate, já não há ilhas desconhecidas, Estão todas nos mapas, Nos mapas só estão as ilhas conhecidas, E que ilha desconhecida é essa de que queres ir à procura, Se eu to pudesse dizer, então não seria desconhecida, A quem ouviste tu falar dela, perguntou o rei, agora mais sério, A ninguém, Nesse caso, por que teimas em dizer que ela existe, Simplesmente porque é impossível que não exista uma ilha desconhecida, E vieste aqui para me pedires um barco, Sim, vim aqui para pedir-te um barco, E tu quem és, para que eu to dê, E tu quem és, para que não mo dês, Sou o rei desse reino, e os barcos do reino pertencem-me todos, Mais lhes pertencerás tu a eles do que eles a ti, Que queres dizer, perguntou o rei inquieto, Que tu, sem eles, és nada, e que eles, sem ti, poderão sempre navegar, Às minhas ordens, com meus pilotos e os meus marinheiros, Não te peço marinheiros nem piloto, só te peço um barco, E essa ilha desconhecida, se a encontrares, será para mim, A ti, rei, só te interessam as ilhas conhecidas, Também me interessam as desconhecidas quando deixam de o ser, Talvez esta não se deixe de o ser, Então não te dou o barco, Darás.

Parado em frente a uma alta estante com coleções de livros de encadernações antigas, duras e belas; herança preciosa de meu avô, procuro calmamente aquele autor ou livro que tenha realmente marcado minha vida de leitor. Aos meus olhos ressaltam Jorge Amado, Monteiro Lobato, Lima Barreto, Machado de Assis, Guimarães Rosa... Sim Guimarães. Neste me detenho um pouco mais e como um sopro escuto: “A vida é muito perigosa”. Escuto novamente, e novamente... em um instante vejo meu avô trazer em suas mãos “Grande Sertão: Veredas”, e me dizer com entusiasmo: “Rodrigo este é o livro mais belo e importante já escrito em todos os tempos!” Seu Odoacro Gonçalves me contava repetidamente que havia lido “Grande Sertão: Veredas” inúmeras vezes e nem por isso se cansava em reler. Confesso que nunca me senti à altura de meu avô para ler “Grande Sertão: Veredas” como ele me fazia imaginar o sertão de Diadorim. Mas não foi em Rosa que minha viagem estacionou. Meu barco aportou em outros portos e logo estava eu e Odoacro sentados em um singelo bote à beira do rio Paraná à espera do fisgar da piapara. Piapara era o peixe desejado no rio que divide São Paulo e Mato Grosso do Sul. Nas esperadas férias de julho, meu avô me apresentava seu mais rico prazer. Saíamos cedo em um pequeno bote a motor até um lugar privilegiado onde montávamos nossa embarcação. Varas prontas e rio calmo, era hora de jogar os anzóis. Lembro, como se fosse hoje, das conversas sem hora para terminar, ou mesmo, dos longos silêncios à beira do caudaloso rio. À espera da mordida da piapara meu avô sempre me oferecia uma barra de chocolate, guloseima cuidadosamente preparada por minha avó Cinira, enquanto iniciava seu mais primoroso ritual: o fumar de seu cachimbo. Sentado ao lado do meu avô em pleno rio Paraná, escutando suas histórias, ajudando a manipular o bote, brigando com as piaparas, inalando o aroma do fumo vindo do cachimbo, me sentia, mesmo ainda sem conhecer, como o velho Santiago frente ao mar. Se o dia era dedicado a pesca, a noite era reservada à prosa. Ao lado de Odoacro, Seu Salu, velho pescador e amigo antigo de meu avô, por toda a vida se dedicou à pesca. Sentados em volta da brasa quente, ficavam relembrando histórias do rio e seus personagens. Eu, menino atento, escutava cada uma das muitas histórias, imaginando cada situação como uma fábula naquele cenário sem eletricidade. A escuta era, desde lá, minha via mais respeitosa àqueles senhores e suas heranças. O encontro de Salu e Odoacro pareceria impossível à luz dos dias de hoje. No entanto, como é sabido, é à beira do fogo que a conversa se encontra com sua forma mais primitiva ou se preferimos mais infantil. É com os olhos atraídos pelo colorido das chamas e o calor da brasa, que despretensiosamente o sujeito fala sem olhar para quem está ao seu lado. Escutar meu avô e Seu Salu, mesmo muito precocemente, me punha perto de um universo ainda inexplorável, inconsciente e fascinante. Minha busca a ilha desconhecida só iria acontecer muitos anos depois. No entanto, hoje sem medo, posso afirmar que o meu primeiro encontro com o divã se deu junto a Salu e Odoacro.

Foi assim, embarcado nas recordações infantis que cheguei em José. Saramago certamente é o autor que mais li. José Saramago e sua escrita particular, seu português de Portugal, suas profundezas e delicadezas sempre me povoaram. Viajei por muitos sítios com José até chegar ao comovente O Conto da ilha Desconhecida, e ali aportei meu singelo barco.

Antes de nos aventurarmos ao mar aberto da psicanálise, convém içarmos nossas velas para o universo inconsciente e nos aproximarmos mais atentamente do diálogo travado entre um homem que deseja um barco para buscar uma ilha desconhecida e um rei sentado em seu trono de certezas. O que pode haver por detrás deste aparente desentendimento ou falta de consenso? Quem pensa que é este homem para desafiar o rei? O que o faz ter certeza que ainda exista uma ilha desconhecida? Por que será que um rei ficaria tão estupefato ou, ainda, insultado com o desejo deste sujeito? Inúmeras outras perguntas poderiam ser levantadas, mas é certo que estas já se fazem suficientes para nortear o início de nossa viagem.

O inconsciente é o infantil na teoria freudiana. Partir desta conceituação significa muito mais do que entender o inconsciente como uma região a ser descoberta ou revelada. Pensar no infantil como uma instância permanente no funcionamento psíquico significa considerar como determinante a força pulsional inconsciente na constituição subjetiva e, sobretudo, postular a ideia do sujeito ancorado desde o nascimento até a morte ao desamparo. Neste sentido, o que Freud nomeia “infantil” diz respeito às vivências essenciais que, reduzidas a feixes, traços e marcas, determinam uma organização subjetiva. Em Freud, o inconsciente é atemporal, ou seja, no registro inconsciente são os traços mnêmicos e os fragmentos articuláveis, que, a rigor, compõem a substância indestrutível do infantil. Sabemos que tais impressões da infância não sofrem um real desaparecimento. É sabido também que tais lembranças não serão recordadas no tempo da criança, ou ainda que somente na idade adulta, mesmo de forma fragmentada e alterada, retornarão à consciência de modo geral indiferenciadas das fantasias. Se é verdade que a pulsão de vida não cessa com a aproximação da morte, é também certo que as marcas da cultura são inevitavelmente cruéis. De posse desta proposição, veremos como acompanhar o sujeito, que deseja um barco para ir à procura de uma ilha desconhecida, considerando a precariedade dos recursos que ainda dispõe.

No texto intitulado Uma Dificuldade no Caminho da Psicanálise (1917), Freud irá nos apresentar brilhantemente o terceiro golpe narcísico a que o homem é submetido: o golpe psicológico. Sentado em seu trono narcísico, o homem tem a enganosa certeza que possui todo o conhecimento sobre si quando estabelece que tudo o que é mental é idêntico ao que é consciente. Ou seja, nesta perspectiva o sujeito se esforça e chega acreditar que tudo aquilo que sabe sobre si é exatamente tudo aquilo que chega a seu conhecimento, mesmo tendo óbvias evidências que inúmeras outras coisas acontecem em sua mente. Afinal, para este nobre sujeito não existem ilhas desconhecidas. Ledo engano. Diz Freud imaginando uma conversa entre dois distintos sujeitos:
            “Vamos, deixe que lhe ensinem algo sobre esse problema! O que está em sua mente não coincide com aquilo de que você está consciente; o que acontece realmente e aquilo que você sabe, são duas coisas distintas. (...) Com frequência, também, acontece que você só obtém informação dos eventos quando eles acabaram e quando você nada mais pode fazer para modificá-los. Mesmo se você não está doente, quem poderá dizer tudo o que está agitando sua mente, coisas que você não sabe ou das quais tem falsas informações? Você se comporta como um governante absoluto, que se contenta com as informações fornecidas pelos seus altos funcionários e jamais se mistura com o povo para ouvir a sua voz. Volte seus olhos para dentro, contemple suas próprias profundezas, aprenda primeiro a conhecer-se! Então, compreenderá por que está destinado a ficar doente e, talvez, evite adoecer no futuro.”
Diante da fatídica dupla constatação de que os processos mentais são, em si, inconscientes; e que as pulsões não podem ser domadas, o rei perde seu trono; ou ainda, como afirma Freud: o ego não é o senhor da sua própria casa. Voltemos nossa escuta mais atenta e flutuante à conversa entre o sujeito e o rei. Vamos fazer um exercício imaginário, fundamental para todo processo analítico, e deixar as associações reinarem livremente. Sentados ao lado de tal sujeito (delirante?), recém-chegados ao porto e abertos à uma viagem, o que será que pode nos atrair? Por onde devemos jogar nossas cordas (ou melhor, seria desatar os nós)? Vale a pena ficar jogando uma rede de significantes sem poder estar realmente atento ao sentido desta longa conversa entre um sujeito e seu rei? Que rei será este? E, uma última pergunta, talvez a única e fundamental: que deseja este corajoso sujeito?

Toda resistência tem um momento de afrouxamento ou ruptura. Frente a tanta persistência, o rei haveria de baixar a guarda e aceitar o pedido do homem que desejava um barco. Certo de que não mais havia ilhas desconhecidas e somente ilhas conhecidas, mas preocupado com a manifestação da vontade popular e com o que já havia perdido na “porta dos obséquios”, o rei levantou a mão direita a impor silêncio e disse, Vou dar-te um barco, mas a tripulação terás de arranjá-la tu, os meus marinheiros são-me precisos para as ilhas conhecidas.

Pronto, o pedido do homem que desejava o barco havia sido satisfeito, e agora? De posse da permissão do rei o homem vai em busca de sua ilha desconhecida, mas como? Antes de seguir viagem sozinho, ganha a companhia da mulher da limpeza, que já não via a hora de mudar de ofício e deixar de limpar palácios, sai de balde e vassoura pela “porta das decisões”.

Sentar ao lado deste nobre e corajoso sujeito, que desafia o tempo para pedir um barco, significa muito mais do que dar ouvidos ou atenção, cuidados ou recursos. Trata-se, sim, de oferecer um verdadeiro dispositivo clínico na contramão da concepção atual que determina que todo indivíduo tem o direito, e portanto, o dever, de não manifestar seu sofrimento, de não mais se entusiasmar com o menor ideal que não seja um bom medicamento para aliviar as suas dores. De posse do aparato psicanalítico, que insiste em nadar contra a forte correnteza neurobiológica, vamos oferecer o barco que tanto deseja nosso sujeito. Mais do que uma mera canoa que flutue com aparente segurança por mares turbulentos, ou pior, que deslize por profundas calmarias tediosas: nosso sujeito deseja um barco que comporte suas angústias, seus medos, seus desejos, seus conflitos. Contrários à ideia da busca incessante pela tranquilidade fictícia do sem dor ou crença da “felicidade”, esta embarcação lançará suas âncoras nas profundezas da subjetividade de sua ilha desconhecida. Assim, o acompanhar desta viagem, onde a bússola psicanalítica servirá como guia, terá como desafio o encontro recorrente com o motor da subjetividade: o conflito psíquico.

Somente o sonho será capaz de oferecer ao mesmo tempo um feixe de luz ao inconsciente e ao devir navegar. Sonhar e devanear sempre foram a mais preciosa produção humana. O sonho para Freud é a prova cabal do determinismo inconsciente. Se em Freud o sonhar tem como principal função garantir o sono de quem sonha, é como realização de desejo que o sonho ganha o status de linguagem e acesso ao conteúdo latente. Assim, em Interpretação dos Sonhos (1900), Freud apresenta de forma inequívoca a importância dos processos oníricos à luz da ciência psicanalítica. Revolucionário e radical, Freud desvela ao mundo científico o desconhecido da ilha conhecida por todos. Se até 1900 a existência da instância inconsciente era negada e repudiada por grande parte da classe médica; a partir desta, que é chamada a obra inaugural da psicanálise, o conteúdo inconsciente passa, então, a ser material de pesquisa e conflito. Aqui já não mais é possível negar o inconsciente, sonhar é do homem, logo cabe ao homem se haver com a interpretação dos seus sonhos. Freud iça sua âncoras, lança-se ao mar profundo do próprio inconsciente em sua auto-análise, viaja em busca das Índias e desembarca nas Américas. A ilha desconhecida do inconsciente continua a ser desconhecida, já que não existem mais ilhas conhecidas, somente ilhas desconhecidas. Freud, guiado pela inquietante sintomatologia histérica, embarca em sua metapsicologia e vai em busca da ilha desconhecida. Os sintomas serão seus primeiros portos. A análise do sentido dos sintomas leva-o em direção ao universo onírico dos sonhos e, com estes, parte em direção aos conteúdos recalcados. O infantil será seu destino primordial. Não a criança como entendiam seus críticos, mas a sexualidade infantil será seu norte principal. Ao pedir um barco ao rei, Freud ofereceu a toda uma cultura sua mais valiosa contribuição. Muito mais do que desvelar o inconsciente em cada um de nós, Freud revelou o determinante inconsciente no humano, assim como o poder da força pulsional e destruidora no seio da civilização. Nem mesmo o rei todo poderoso da consciência seria capaz de domar a força do desejo recalcado, que dirá a lisura de um sonho sonhado.

Em seu precioso texto, porém pouco comentado, Escritores Criativos e Devaneios (1908), Freud irá fazer o encontro entre a psicanálise e sua verdadeira obra. Para Freud a psicanálise é a única ciência capaz de desvelar o recalcado pela escuta do inconsciente. Mas são os escritores os privilegiados sujeitos capazes de brincar com as palavras como as crianças brincam no mais profundo universo infantil. Será então à luz da liberdade criativa dos escritores que Freud nos revelará o mais profundo e imperioso do inconsciente. É a partir da seriedade do brincar infantil que Freud apresentará o fantasiar dos escritores. A criança brinca seriamente, ou seja, cria seu universo de brincadeiras com toda a seriedade que a brincadeira merece, catexiza os objetos a sua volta com a força da imaginação afim de distinguir perfeitamente o brincar da realidade. Neste sentido a afirmação de que o brincar não é antítese do que é sério, e sim do que é real, ganha enorme força conceitual no texto de Freud. De posse deste conceito, Freud vai então nos apresentar o escritor criativo como aquele que brinca como as crianças, que ao criar um mundo de fantasia e leva-lo a sério, mantém uma nítida separação entre a fantasia e a realidade, onde a linguagem será a via da relação entre o brincar infantil e a criação poética. Diz Freud: “a criança em crescimento, quando para de brincar, só abdica do elo com os objetos reais; em vez de brincar, ela agora fantasia. Constrói castelos no ar e cria o que chamamos de devaneios.” (p.136). A linguagem portanto, com toda sua inigualável sabedoria, lançou luz sobre a natureza dos sonhos e iluminou os obscuros desejos inconscientes. Os ditos sonhos diurnos, devaneios, a partir de Interpretação dos Sonhos, ganham o reconhecimento justo da realização de desejos, passando a ser nomeados de fantasias. A psicanálise uma vez mais ilumina a ilha desconhecida e temida da loucura, dando o devido lugar ao estranho em cada um de nós. Assim, toda viagem que se possa imaginar tem como destino a ilha desconhecida do inconsciente e implica impreterivelmente no encontro com o estrangeiro que existe no horizonte de nossa existência. Esse estrangeiro que nos é familiar, essa ilha desconhecida onde só existem ilhas conhecidas, essa viagem regressiva que salta ao futuro, terá como guia o homem que deseja e sonha com um barco.

Se o início de nossa viagem teve o devaneio como ponto de partida, a liberdade do pensar criativo e o sonhar serão o porto de chegada. Volto ao comandante Freud para suas últimas palavras que não por acaso revelam o início deste ensaio: “Uma poderosa experiência no presente desperta no escritor criativo uma lembrança de uma experiência anterior (geralmente de sua infância), do qual se origina então um desejo que encontra realização na obra criativa. A própria obra revela elementos da ocasião motivadora do presente e da lembrança antiga.”(p.141) Antes de me despedir, gostaria de nomear a ética psicanalítica que norteia minha busca cotidiana às ilhas desconhecidas de meus pacientes, na qual a liberdade está no direito inquestionável de sonhar. Voltemos então ao barco de nosso fiel marujo à luz da poesia de José Saramago:


Desde que a viagem à ilha desconhecida começou que não se vê o homem do leme comer, deve ser porque está a sonhar, apenas a sonhar, e se no sonho lhe apetecesse um pedaço de pão ou uma maçã, seria um puro invento, nada mais. As raízes das árvores já estão penetrando no cavername, não tarda que estas velas içadas deixem de ser precisas, bastará que o vento sopre nas copas e vá encaminhando a caravela ao seu destino. É uma floresta que navega e se balanceia sobre as ondas, uma floresta onde, sem saber-se como, começaram a cantar pássaros, deviam estar escondidos por aí e de repente decidiram sair à luz, talvez porque a seara já esteja madura e é preciso ceifá-la. Então o homem trancou a roda do leme e desceu ao campo com foice na mão, e foi quando tinha cortado as primeiras espigas que viu uma sombra ao lado da sua sombra. Acordou abraçado à mulher da limpeza, e ela a ele, confundidos os corpos, confundidos os beliches, que não se sabe se este é o de bombordo ou o de estibordo. Depois, mal o sol acabou de nascer, o homem e a mulher foram pintar na proa do barco, de um lado e do outro, em letras brancas, o nome que ainda faltava dar à caravela. Pela hora do meio-dia, com a maré, A Ilha Desconhecida fez-se enfim ao mar, à procura de si mesma.


 Rodrigo Blum, agosto de 2018


Rodrigo Blum - Psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae -São Paulo-SP, Professor do curso Conflito e Sintoma do Instituto Sedes Sapientiae,  membro do GTEP - Grupo de Transmissão e Estudos de Psicanálise do mesmo Departamento.


Referencias bibliográficas:

Freud S. (1908) “Escritores Criativos e Devaneios”. In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas. Rio de Janeiro: Imago, 1996; v.9.
Freud S. (1917) “Uma Dificuldade no Caminho da Psicanálise”. In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas. Rio de Janeiro: Imago, 1996; v.17.
Saramago, J. O conto da Ilha Desconhecida. São Paulo: Companhia das Letras.

quinta-feira, 5 de julho de 2018

Neste mês vimos o avanço na Argentina da proposta de descriminalização do aborto. Veja a seguir um texto que discute este acontecimento e o tema do aborto articulados a outras questões como saúde pública, saúde mental e as representações psíquicas e sociais acerca da mulher.


Quem tem medo da descriminalização do aborto?
                                                                                             Helena Canto Gusso, Julia Fatio, Paula Rojas, Renata Conde (1)


Em 1970, Simone de Beauvoir escreveu um manifesto na França em favor da descriminalização do aborto. No texto, assinado por ela e mais 342 mulheres, se lia: Um milhão de mulheres na França têm um abor to a cada ano. Condenado ao sigilo, eles têm acontecido em condições perigosas, sendo que este procedimento, quando realizado sob supervisão médica, é um do s mais simples. Essas mulheres são vela das em silêncio. Eu declaro que sou uma delas. Eu tive um aborto. Assim como nós exigimos o acesso livre ao controle de natalidade, exigimos a liberdade de ter um aborto.” Intitulado como “Manifesto das 343”, a declaração causou grande escândalo no país. A palavra aborto, até então tabu nos meios de comunicação, passou a ocupar os noticiários e rapidamente o movimento foi nomeado pelos conservadores de “Manifesto das 343 Vagabundas”. Quatro anos depois, em 1975, o aborto foi legalizado na França. Recentemente , presenciamos também a descriminalização do aborto no Uruguai, Polônia, Irlanda e agora a Argentina avança nessa direção, com sua aprovação no Câmara dos Deputados.

No Brasil, o aborto segue como tema em disputa. Grupos religiosos e conservadores tentam pautar o debate para que o Estado incorpore suas crenças e morais nesse assunto. A partir da PEC 181 buscam tornar crime toda e qualquer forma de interrupção da gravidez. Por outro lado, há um longo trabalho de mulheres, movimentos feministas e organizações em defesa de seus direitos. Tivemos avanços concretos, como a legalização do aborto em casos de anencefalia, somando-se aos outros dois casos em que já era permitido – quando a gravidez representa um risco para vida da mulher ou é resultante de um estupro.

Ainda assim, estima-se que no Brasil 5,3 milhões de mulheres já tenham abortado ilegalmente. Só em 2014 foram contabilizadas 190 mil internações no SUS para curetagem. É a segunda maior atividade dos obstetras, sendo a primeira a realização de partos. Segundo pesquisas da UNB e UERJ a maioria delas tem entre 20 e 29 anos, vivem em relacionamento estável (70%) e têm pelo menos um filho. 

Quanto às suas crenças, 65% disseram ser católicas e 25% protestantes. Mulheres negras tem 2,5 mais chances de morrer durante um aborto do que as mulheres brancas, em sua maioria são provenientes de classes sociais mais pobres e ficam excluídas do acesso a procedimentos seguros. Também diante de aborto mal-sucedido, estudos mostram que elas têm menos acesso a serviços de saúde, o que aumenta o risco de vida.

A realidade brasileira expressa, portanto, a urgência em tomar o debate da legalização do aborto não como uma questão moral, mas de saúde pública que envolve atravessamentos de raça, classe e gênero. “Educação sexual para decidir; Contraceptivos para não engravidar; Aborto legal e seguro para não morrer” foi o mote da luta argentina.

Os movimentos feministas argentinos têm pautado fortemente o debate sobre osdireitos das mulheres e nos últimos treze anos fizeram uma árdua campanha pelo aborto legal, com debates semanais em Buenos Aires e nas províncias, construindo um amplo diálogo com a população. Segundo Flávia Biroli este trabalho de base, feito de modo estratégico e articulado, foi central para a compreensão de que a cidadania das mulheres é um valor democrático e é dever do Estado garantir sua integridade física e psíquica. O movimento #NiUnaMenos, surgido em 2015, foi também parte decisiva deste processo ao mobilizar milhares de argentinas e argentinos a lutar contra o feminicídio e pelos direitos das mulheres.

Outro ponto importante à descriminalização na Argentina, anterior e fundamental para a organização dos movimentos feministas atuais, é a longa história de resistência no país frente às violências de Estado. O encontro das mães e das avós de maio com as secundaristas, a cena de tantas jovens com pañuelos verdes amarrados em seus pescoços, braços e mochilas, ilustram que a transmissão da resistência tem a potência de quebrar e transformar o que poderia ser apenas um ciclo de dor e sofrimento. As mães e avós de maio ao manterem viva a memória das violências cometidas na ditadura argentina abrem caminho para que novas gerações de mulheres não aceitem a violência como destino e se apropriem do direito sobre seus corpos. Afinal, sabemos desde Freud que aquilo que não é recordado e elaborado, atualiza-se e retorna como compulsão à repetição.

O reflexo dessas articulações se evidenciou nos discursos pronunciados na Câmara dos Deputados da Argentina para defender a descriminalização do aborto: “ Se a gravidez é uma contingência, o desejo tem que ser a norma para decidir se queremos ou não ser mães. Não o desejo de outros, nem o parecer de um juiz.”; “ (...) a diferença entre o aborto voluntário e o involuntário é o desejo, e o que não queremos [sociedade argentina] discutir é que nós mulheres tenhamos direito a exercer nosso desejo, nossa liberdade.” 

Freud, em seu texto A Moral Sexual Civilizada, escrito em 1908, aponta para a moral sexual dupla. Segundo ele, a própria sociedade não acredita que seus preceitos possam ser obedecidos, e que a experiência também mostra que as mulheres são verdadeiros instrumentos dos interesses sexuais da humanidade. Freud afirma que “Uma das óbvias injustiças sociais é que os padrões de civilização exigem de todos uma idêntica conduta sexual, conduta esta que pode ser observada sem dificuldades por alguns indivíduos, graças às suas organizações, mas que impõe a outros os mais pesados sacrifícios psíquicos. Entretanto, na realidade, essa injustiça é geralmente sanada pela desobediência às junções morais.” (2) Não será sobre isso, que as mulheres na Argentina estão dizendo ao discursarem no Congresso em Buenos Aires que “O aborto existiu, existe e existirá! Legislem vocês o que quiserem” ?

Sobre esse assunto, a psicanalista argentina Iresis Greisis comenta que o tema do aborto levanta uma questão para a sociedade que é a separação entre a figura da mulher e da mãe. Para ela há um esforço em justamente manter a representação da mulher como mãe e, nesse sentido, o aborto é um golpe nessa crença, visto por muitos como um atentado à figura da mulher como mãe santa. Segundo Djamila Ribeiro, a maternidade compulsória implica nisso, uma construção social da feminilidade na qual a maternidade se torna o principal destino para a mulher, destino este tomado como natural. A maternidade, neste sentido, seria também uma forma de controlar os corpos das mulheres. As ditas “vagabundas” seriam então aquelas que recusam a representação de si como mães? Estaríamos diante da dupla representação da mulher como santa ou puta?

Nesse sentido, a conquista argentina opera uma disjunção entre mulher e mãe, o que gera efeitos nas próprias significações dadas à experiência aborto. Em um texto autobiográfico, Anne Ernaux comenta que em nossa sociedade o fato é que acabamos nos calando sobre a real experiência do aborto. Costumamos associá-lo a experiências traumáticas, de culpa, da qual uma mulher raramente se recuperaria. Ora, a generalização é o oposto da escuta analítica, e nesse momento lembramos de nossas hermanas argentinas: “(...) não queremos governar sobre os homens, queremos governar sobre nós mesmas, queremos governar sobre o nosso corpo, queremos governar sobre o nosso desejo, queremos governar sobre os nossos sonhos.”(Gabriela Cerruti, deputada Argentina)


Notas bibliográficas
2) FREUD, S. Moral sexual ‘civilizada’ e doença nervosa moderna (1908). In: O delírio e os sonhos na “Gradiva”, Análise da fobia de um garoto de cinco anos e outros textos (1906-1909). Tradução Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2015 (Obras completas, volume 8).



[1]Helena Canto Gusso - acompanhante terapêutica, psicanalista e aspirante a membro do Departamento de Psicanálise; Julia Fatio Vasconcelos - acompanhante terapêutica e psicanalista; Paula Grimberg Rojas - psicanalista e acompanhante terapêutica, formada no Departamento de Psicanálise; Renata Conde - psicanalista e professora da Escola de Psicanálise de São Paulo; e integram o Grupo de Estudos e Trabalho em Psicanálise e Feminismo, grupo criado em 2015, com a proposta de pensar diálogos e tensões entre feminismo e psicanálise, a partir de diferentes espaços como rodas de conversa, debates e produções teóricas.




quinta-feira, 28 de junho de 2018

Racismo e simbolização

No último dia 9 de junho realizou-se no Sedes Sapientiae a segunda parte do evento Questões sociais e políticas na história da psicanálise: ontem e hoje, evento que se propôs a resgatar na história da psicanálise, autores que se mantiveram esquecidos como Otto Gross, Sabina Spielrein, Frantz Fanon, Erich Fromm entre outros, mas que trabalharam no campo social e político e promoveram mudanças sociais e subjetivas significativas. Fanon,por exemplo, médico psiquiatra negro, nascido na Martinica, foi um importante pensador sobre as questões raciais. A convite do Blog Cristiane Abud, uma das organizadoras do evento, apresenta um lindo texto sobre o tema.

Confiram: 



Racismo e simbolização


Cristiane Curi Abud

Há alguns anos tenho me aproximado da problemática do racismo e o negro no Brasil e tem me intrigado o tremendo mal estar que o tema desperta em todos os lugares onde é discutido. Alguns colegas nomeiam essa mal estar como vergonha, culpa ou raiva pela violência exercida contra os negros. Essas palavras traduzem para mim apenas parte do mal estar que insiste de forma tão violenta que atinge meu corpo em sensações de enjoo, taquicardia e tensão muscular, sensações sobre as quais tenho muita dificuldade de pensar. 

Por isso, levanto a questão de quais seriam os efeitos do racismo no processo de simbolização. Bem, podemos definir a simbolização como tornar psiquicamente presente um objeto ausente.

Ao vivenciarmos uma determinada experiência somos corporalmente afetados por seus estímulos sensoriais (visual, olfativo, auditivo, tátil e gustativo). A percepção desses estímulos demandará trabalho ao psiquismo. Ocorre então uma passagem da sensação propriamente dita para sua respectiva imagem psíquica, que carregada de afeto, constitui o que chamamos de representação-coisa. O passo seguinte à significação afetiva da experiência é poder falar sobre ela, transformando-a em representação de palavra.

Basicamente, este constitui o processo intrapsíquico da simbolização. Mas se a simbolização requer que se represente o objeto na sua ausência, cabe questionar a função que o objeto cumpre neste processo.
Neste sentido, retomamos o conceito de objetos transicionais que incidem na área intermediária da experiência, abrindo caminho para a jornada do bebê desde o puramente subjetivo até a objetividade.

Os objetos ofertados ao bebê são artefatos da cultura na qual a família se insere. Importa aqui notar que a produção cultural não é ingênua, ela carrega aspectos sócio históricos, institucionais, econômicos e ideológicos. Carregam e revelam as alianças inconscientes acordadas pelo grupo familiar do bebê, inserido no grupo social maior, alianças que determinam o que fará parte do discurso e da experiência daquele grupo e o que não fará parte.

Foto 1. Esta foto foi tirada por um fotógrafo negro chamado Chichico Alkimin (1886-1978) e está exposta no Instituto Moreira Sales. Podemos receber seus estímulos visuais, percebê-la e fazer a passagem que se realiza da sensação para a imagem psíquica. No entanto, ao revelar o negativo das imagens deixadas por Chichico, o Instituto encontrou outras revelações a partir dos negativos das fotos.



Foto 2. Neste caso, o estímulo sensorial foi negativado, e aquilo que seria apenas uma sensação, insumo para a experiência estética da vida psíquica, aparece como uma coisa da qual se pretende livrar. Dentro do longo processo de simbolização de uma experiência, que aqui descrevemos, ataca-se seu primeiro passo, a percepção. Percepção de que ali tem seres humanos, sem os quais, a foto revelada seria outra, mas dela não podem fazer parte. Corta-se assim o mal pela raiz. Através de um mecanismo reconhecidamente perverso de ataque à percepção recusa-se que essas pessoas façam parte da cena social. Elas estão ali, sabemos que estão ali, mas agimos como se não estivessem. Tal aliança limita a possibilidade de canalização psíquica da experiência e de palavras para dizer, a violência toma outros rumos e retorna através de atuações.  



Num instituto de formação em psicanálise como o Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae essas alianças tendem a se repetir e selecionamos colegas, autores, teorias, eventos, publicações que fazem parte do nosso espaço transicional, espaço no qual tentamos simbolizar as experiências vividas na clínica, seja ela pública ou privada. Assim como selecionamos aquilo da cultura que não fará parte do nosso espaço. Essas definições e determinações se dão no detalhe, por exemplo, em como esse auditório organiza seus móveis estabelecendo já um tipo de relação entre oradores e plateia, neste crucifixo da parede, na forma como nos vestimos, no café que servimos nos intervalos, nas decisões de como investir os recursos financeiros do departamento, nos textos que utilizamos nas aulas e espaços de estudos, etc.  Se observarmos o perfil demográfico de nosso departamento, perfil dividido em classe, gênero e raça, não demoraremos a notar que nossos cursos são caros, somos uma maioria de mulheres, na plateia pelo menos, e somos uma maioria de brancos.

Corta-se assim o mal pela raiz. Só que não. A resistência dos movimentos negros no Brasil, este evento e tantas outras iniciativas que vem sendo tomadas em diferentes âmbitos da nossa sociedade propõe-se a rever o que Freud chamou de recusas da percepção, Ferenczi chamou de desmentido e Figueiredo de desautorização da percepção. É preciso enquanto psicanalistas, reconstruir nossa História, através da atividade de ligação do mal estar produzido a cada encontro no qual tentamos tomar consciência, rever e resignificar o pacto social do qual somos todos signatários. É preciso sustentar o mal estar para transformá-lo em representação, elaborações e simbolizações. 

Franz Fannon, Deivison Nkosi Faustino, Neusa Santos, Isildinha Batista, Mariele, Maria Lucia Silva, Anne Egidio, Maria Aparecida Miranda, Eliane Costa, Néia Marques, Maria Celia Malaquias e tantos outros amigos e colegas vieram para dentro da cena, do nosso espaço transicional que hoje, 9 de junho de 2018, pode, quem sabe, favorecer a nomeação, representação e simbolização de algumas das tantas experiências violentas que recusamos ao longo da nossa História. Quem sabe possa ser mais um espaço a favorecer que mais colegas venham para dentro da cena, ainda que para isso precisemos instituir bolsas de estudo no nosso Departamento.

Nas palavras De Fanon: “O olho não é apenas espelho, mas espelho retificador. O olho deve nos permitir corrigir os erros culturais.”

Cristiane Curi Abud é professora afiliada da Universidade Federal de São Paulo e professora do curso de Psicossomática do Instituto Sedes Sapientiae. É Psicanalista Membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae.

segunda-feira, 25 de junho de 2018

Texto sobre a mesa - A LÍNGUA ERRANTE / O APÁTRIDA - Evento Deslocamentos


Nos dias 04 e 05 de maio de 2018 aconteceu pelo Departamento de Psicanálise do Sedes Sapientiae o evento Deslocamentos, organizado pelo coletivo Escutando a Cidade O tema pretendia abranger não só  os deslocamentos como conceito psicanalítico,mas como viagem, mudança de povos e/ou indivíduos de um lugar para outro e como experiência de descentramento do sujeito. 

A convite do Blog do Departamento Maria Laurinda R. Souza escreveu um lindo texto sobre a mesa  A LÍNGUA ERRANTE / O APÁTRIDA.

Confira:


Corpos nômades. Línguas errantes


Maria Laurinda R. Souza

“Passar pelo silêncio e fazer dele sua vida, por esse ponto a que o escritor sempre volta, é ir a um limite da memória, lugar inaugural de um saber que perpassa sua obra: o saber do perdido, a volta aos lugares inóspitos do vazio, para viver com a despossessão, a partir da aprendizagem da incompletude, da não-totalização, que ele atravessa com o impacto de uma escrita, a dele, que é também o testemunho de algo que existe para além do burburinho e do vozerio desse século dos excessos que aponta para o sucesso ilusório da totalização”.[1]

Se começo este comentário com a citação de Ruth Silviano Brandão (2005) a respeito do trabalho de Pascal Quignard, é porque a escuta sobre “A língua errante e/ou o apátrida”,  me remeteu diretamente a esse escritor, ele também, assim como outros nomeados pelos palestrantes ,  marcado pela perda, pelo abandono e pelas catástrofes do século XX – guerras, totalitarismos, nacionalismos, fragmentações, êxodos, despossessões, genocídios, campos de extermínio -,  e que encontrou na arte – especificamente na música - e na literatura uma forma de sobrevivência. Significativamente,  afirmava ele que ”a mão que escreve é, antes, uma mão que escava a linguagem que falta, que tateia em direção à linguagem sobrevivente, que crispa, enerva-se, que, desde a ponta dos dedos, mendiga.”

Língua errante, à busca de sustentação para deslocamentos compulsórios na tentativa de não se imobilizar no vazio, de não enlouquecer. É, portanto, esta vertente, a da possibilidade de transformar a perda da língua materna ou o exílio voluntário ou forçado, na busca de uma língua outra que se torna  obra  literária, que me interessa privilegiar.

Na abertura deste encontro, Nelson introduz o tema propondo uma aproximação entre  a língua errante e o exílio: Será o exilado o apátrida da língua? É de Bárbara Cassin a afirmação de que a marca do exílio é a transformação da relação com a língua; o exílio desnaturaliza a  língua materna e se superpõe a outras duas perdas: o universo das nossas certezas e a certeza do nosso universo.  E se Paul Célan, citado por ele, nos impacta com a declaração de que sua língua materna é a dos assassinos de sua mãe, é porque nele o exílio e o embate com a língua se conjugam, produzindo sofrimento, mas também, criação.

O exílio, diz Caterina Koltai, sempre esteve presente no âmago da criação literária. Como se o escritor precisasse ser, por definição, um deslocado, afastado de seu país, cortado de sua língua materna. Mas, o que pode significar a perda da língua materna? Em sua fala, retoma um texto escrito anteriormente “A língua exilada”, em que se refere a dois autores húngaros: Sandor Márai e Imre Kertesz,, ambos testemunhas involuntárias da catástrofe, ambos capazes de transformar o vazio em capacidade de pensar.

Márai, teve sua obra proibida na própria terra e, ao emigrar para os EUA, em 1948, esquecida e só relembrada após o suicídio em 1989. Ao emigrar perdeu sua terra e seus leitores; perdeu as palavras. Pagou caro por sua liberdade. A língua materna permanecendo como uma ferida presente e sensível.

Um de seus grandes temas foi a amizade. O amigo era para ele uma testemunha, um consolo. Sua dedicação ao tema da amizade é uma das razões pelas quais Caterina Koltai, diz gostar tanto dele. Já em seu texto “Entre psicanálise e história: o testemunho” (2016)[2], Caterina também afirmara que “em situações extremas, quando se é submetido a tratamentos desumanos, algo pode colaborar para manter o fio da vida: a relação de amizade que se tece entre aqueles que estão submetidos ao mesmo destino e lutam pela vida lado a lado” (p.27).

Imre Kertesz, admirador de Márai, nobel de literatura em 2002, foi, ainda adolescente, prisioneiro dos campos de concentração nazistas. Ao sair do campo, com 16 anos, poderia ter emigrado, mas decidiu ficar, só começando a escrever 10 anos depois, também como uma forma de sobrevivência. Em sua obra mais conhecida Sem Destino,  trata da frágil experiência do indivíduo contra a arbitrariedade da história e do poder político. Quando em 1956, muitos decidiram abandonar a Hungria, ele mais uma vez resolveu ficar e continuar a escrever em sua língua materna. Tornou-se, dessa forma, o exilado em seu próprio país, o escritor do impossível. Escreveu para esquecer ainda que as lembranças nunca tenham desaparecido.

Márcio Seligmann-Silva também inicia sua fala convocando a literatura em sua aproximação com a psicanálise: de certo modo, diz ele, a literatura é uma espécie de porteira da cripta – conceito caro a Abraham e Maria Torok  que nos anuncia um impossível de simbolização – sendo que o que habita esse túmulo é o “esquecido” da própria história.  É esse esquecido, continua Márcio, que, muitas vezes,  se encontra na obra de Kafka e nos obriga a ouvir a voz da natureza esquecida, revelando-nos os traumas do indivíduo moderno. É  ao impossível que Kafka se refere quando fala sobre o surgimento de sua literatura, mencionando a  “impossibilidade de  não escrever, a impossibilidade de escrever em alemão, a impossibilidade de escrever de maneira diferente”. E, depois, acrescenta: “a impossibilidade de escrever”.

Nessa “literatura do desloucamento”, assim nomeada por Márcio, que marcou o século dos genocídios, muitos artistas como Kafka vão embaralhar os arquivos,  revelar segredos e romper fronteiras, fazendo-os explodir; o artista quer destruir os arquivos que funcionam como máquinas de destruição.  Bispo do Rosário é lembrado por ele como exemplo, no Brasil,  de um artista anarquivador. Portador de todas as categorias de segregação -  negro, pobre, louco -, rompeu, com sua arte, o exílio que lhe foi impingido.

Jean Améry, outro escritor dessa literatura de testemunho,  mescla, em seu ensaio sobre a tortura,  a análise objetiva da realidade desse “procedimento” com breves relatos subjetivos sobre sua própria experiência. Passou por vários campos de concentração e suicidou-se em 1978 tendo sucumbido àquilo que pode ser considerado como vivência  de desamparo absoluto frente a um poder absoluto – o do torturador. A tortura, disse ele, é o evento mais horrível que um homem pode guardar dentro de si; quem foi torturado permanece como tal. Permanece, para sempre, apátrida. Para sempre condenado ao exílio.

Com outro olhar, Vilém Flusser, que teve todos seus parentes mortos em campos de concentração, constrói uma obra positivando a apatricidade e o exílio, transformando o que poderia ser da ordem do abandono e da exclusão num ato de conquista e liberdade. Para ele, é preciso romper com os laços que nos enraízam e nos cegam e adquirir uma liberdade política e eticamente responsável com o próximo e com suas ligações.  “Pátria, para mim, diz ele, são os homens pelos quais tenho responsabilidade”. 

É uma ética da responsabilidade que se coloca em cheque no depoimento-poema  “Antigamente fomos muitos” de Almires Martins, indígena do povo guarani, e com o qual Seligmann-Silva encerra sua participação nesta mesa.

Se ele iniciou sua fala remetendo-se a Kafka, é com uma referência a ele que Peter Pál Pelbart termina, depois de citar um diálogo imaginário entre Edward Said e Mahmud Darwich, poeta palestino, que encontrou na poesia uma forma de superar o exílio sofrido aos 6 anos, em 1948.

Said: Se eu morrer antes de você, deixo como legado o impossível
Darvich: Está muito longe o impossível?
Said: A uma geração de distância
Peter: É quase Kafka que diz: Há fé, muita,  muita esperança, uma esperança infinita, mas não para nós.

Diálogo que remete a um possível do impossível. Um possível sempre adiado? Onde cada geração poderia dizer não ser ainda o momento?  Não foi essa a impressão que seu discurso nos deixou. Pois, depois de fazer uma aproximação entre o sofrimento do povo judeu e do povo palestino, ambos vítimas de condições históricas tão similares, e se perguntar como escapar da autovitimização competitiva, traz no desenvolvimento que  segue aberturas para o impossível.  Inicialmente pela compreensão de uma estratégia política que mantém essa racionalidade de extermínio do “outro” – palestino, mantendo-se, assim, o poder do Estado judaico e a justificativa para ocupação das terras palestinas,  expulsão de seus moradores e para a recusa à existência de um Estado Palestino. Depois, destacando a importância de que um povo pudesse re-conhecer a narrativa do outro aproximando suas culturas e a legitimidade de suas respectivas alteridades. Proposta também sustentada pelo movimento do próprio Edward Said.

Mas, o discurso mais importante para se pensar essas questões vem da África, enfatiza Pelbart, vem de um pensador negro, Achille Mbembe, em sua obra “Crítica da Razão Negra”. Nela enuncia que a constituição do pensamento europeu sobre o humano é indissociável do surgimento do negro como personagem racial, o que poderia se aplicar também a Israel com relação ao palestino ou ao muçulmano, diz Pelbart.  Judeu, palestino, negro – cada um carrega sua cota particular de desterro. Entre o negro e o judeu há um não-dito; ambos são vítimas da mesma racionalidade, ambos são marcados pela diáspora.

O conceito de raça serviu para diagnosticar a degradação e déficit ontológico de uma população outra ; eles são os menos-ser, necessários para fazer o reconhecimento dos que são.  Capitalismo, nacionalismo e racismo estão intimamente conjugados; somos herdeiros dessas operações.

É de Mbembe a potência da seguinte afirmação: “assim como se pode postular uma vontade de poder, deve-se postular uma vontade de comunidade, mas uma vontade descolonizada”; as diásporas, os deslocamentos, os exílios contemporâneos, podem criar novos fundamentalismos, mas, também, podem criar novos territórios – afetivos e sensíveis.

Retomo, para finalizar este comentário, uma das falas de Caterina Koltai: “Os recursos da literatura, assim como os do inconsciente se reinventam sem cessar na medida em que o poeta é sempre um pouco um profeta, na medida em que seu ouvido se abre no limiar da emergência da linguagem, lá onde chamamos as coisas antes de nomeá-las.”
É na esperança dessa reinvenção incessante que se podem criar deslocamentos possíveis para o que é da ordem do impossível, da ordem do horror.

P.S. Termino com um duplo agradecimento: a Gisela que me fez o convite para escrever para o Blog do Departamento  comentando esta mesa e, a Caterina, Márcio e Peter  pela generosa apresentação de suas falas e pela inspiração a buscar, nos autores citados, suas produções, o que me produziu muito encantamento.
   


[1] Brandão, R. S. “Pascal Quignard: escrever é ouvir a palavra perdida”. www.scielo.br/scielo.php

[2] Revista de Psicologia da USP, www.scielo.br/pusp


M. Laurinda R. Souza é professora do curso de Psicanálise pelo Departamento de Psicanálise do Sedes Sapientiae. Autora, entre outros, de Violência, Casa do Psicólogo, 2005 e Vertentes da Psicanálise, Pearson, 2017.