Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae

Minha foto
São Paulo, SP, Brazil
O Blog do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae é um dos veículos de comunicação em que circulam informações, produção de conhecimento, experiências clínicas e de pesquisa de seus diferentes membros. A interlocução com o público, dentro e fora do Departamento, é uma maneira de disseminar a troca no campo da Psicanálise e possibilitar a ampliação do alcance das reflexões em pauta. Fazem parte da equipe do Blog: Ana Carolina Vasarhelyi de Paula Santos, Fernanda Borges e Gisela Haddad.

terça-feira, 30 de abril de 2019

Comemoração dos 30 anos da Revista Percurso


A Revista Percurso editada pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae completou 30 anos de existência!



Para comemorar foi realizado um evento no dia 6 de abril com os psicanalistas convidados Ana Staal (França) e Fernando Urribari (Argentina), além de  Camila Salles  e  Miriam Schneiderman que compuseram duas mesas coordenadas por Mania Deweik e Lila Vidigal.

Veja a seguir um trecho da apresentação da nossa colega do Departamento Mania que há 31 anos se dedica a edição da revista:
   
Bem-vindos a esta comemoração dos 30 anos da Percurso. São ao todo 60 números.  

Projeto Coletivo criado por sonhos conjuntos de vários colegas que se encontraram em 1987 para um ano inteiro de conversas: discussões a respeito da escolha da linha editorial, formato, nome, número de seções (que foram crescendo ao longo dos anos)etc. Em 1988 o lançamento do número I da Revista. Um orgulho enorme, um compromisso com o Departamento de Psicanálise e com a comunidade psicanalítica em geral! 
  
Desde então, construída a várias mãos, a vocação de Percurso tem se evidenciado nos vários textos produzidos, explicitando a psicanálise que praticamos: não neutra, inserida na cultura e suas várias formas de expressão, comprometida com a leitura crítica do fundador da psicanálise, aberta às várias correntes, implicada na formação interminável e ética do analista. 

Contra o pensamento hegemônico, ampliamos uma gama de vozes que, ao ampliar fronteiras por meio do continuo movimento de línguas, permitiu abrigar diferentes    
Linguagens para que cada autor pudesse se expressar. 
  
É consenso aceitarmos e reafirmarmos que a formação do analista supõe estudo teórico, experiência da própria análise e supervisão: o famoso tripé. Eu acrescentaria mais um pé aos três já conhecidos. 

O pé da escrita.  Escrever a clínica a fim de possibilitar novas aberturas metapsicológicas, tecer críticas, construir novas hipóteses a partir da vivência na clínica, propor novos enquadres, sustentar o compromisso ético com a Psicanálise e outros saberes e com os desafios colocados pelo tempo em que vivemos pela complexidade de um mundo em acelerada mutação. 
  
Trata-se de uma escrita cujo eixo não permita que o cabedal psicanalítico caia no inefável da intuição ou no indizível da criação pessoal.  

Escrita que possa ser transmitida, discutida, refutada e criticada a fim de criar um movimento que afine nossas práxis e possibilite a criação de novos dispositivos para nossas diversas intervenções no social, na política, nas instituições, nas ONGS, nos ambulatórios de Saúde Mental, no trabalho e em todos os lugares onde houver um ser em sofrimento. 
  
Cada um de nós é uma combinatória de experiências, de informações, de leituras, de imaginações nos diz Calvino. Cada vida é uma enciclopédia, uma biblioteca, uma montagem de estilos onde tudo pode ser reordenado, remexido em infinitas combinações. Falar e escrever sobre isto para tocar outros semelhantes é fazer Psicanálise no melhor de seus sentidos possíveis. 
  
Esta é a posição da Percurso desde o número I: ser um lugar plural, de interlocução tanto para membros, alunos e ex-alunos do nosso Departamento como para psicanalistas das mais diversas Instituições e linhas teóricas. 

Contemplamos e tentamos sustentar a diversidade, singularidade e estilo dos diferentes articulistas, debatedores, entrevistados e desenhadores. 
  
Começamos pequenos e autorreferentes, reafirmando a Carta de Princípio do Instituto Sedes Sapientiae em nosso primeiro editorial. 

Percurso era uma condição entre outras para que, do Curso, pudéssemos constituir um Departamento neste Instituto. 

Friso o “neste instituto” porque foi uma escolha consciente e compartilhada por sua contínua história de luta pela democracia e por abrigar diversas clinicas politicamente engajadas no atendimento dos mais diversos flagelos a que está exposto o ser humano e por seu compromisso de construção de dispositivos para combater as desigualdades sociais. 
  
Este nosso evento ocorre num momento político altamente tenso e polarizado desde o paroxismo desencadeado pela eleição presidencial de 2108 e seus efeitos no ano que corre e no qual vivemos tempos de violência, quiçá um novo tipo de violência, ainda a ser decodificado. 
  
Violência Tupiniquim? Violência Mundial? Violência Globalizada? 
  
O filosofo Coreano Byun Chun Han  fala em Violência Neuronal no livro “Sociedade do Cansaço“. Esta é caracterizada pelo desaparecimento da alteridade e da estranheza. À diferença pós-moderna falta a estranheza que provocaria reação ”imunológica “. 
E uma estranheza neutralizada pelo consumo. 

O estranho cedeu lugar ao exótico. Os vários eventos e fenômenos do cotidiano perdem sua especificidade e ganham um mesmo horizonte de sentido: são todos referidos a uma proteção contra um risco. 

Viveríamos uma época que o autor caracteriza como imunológica. 

O imigrante não é um outro, não é um estrangeiro, ele é um peso, uma ameaça. O paradigma imunológico não se coaduna com o processo de globalização. A dialética é o traço fundamental da imunidade. 
  
Vivemos numa época pobre de negatividades. Vivemos um exagero de positividade. A violência viria da positividade, do totalitarismo do igual, absorção e assimilação. 

A comunicação generalizada e superinformação ameaçam todas as forças de defesa possíveis.  A violência da positividade gera o super desempenho. A positivação do mundo faz surgir novas formas de violência, violência sistêmica, imanente ao sistema. Se, de um lado há a eliminação das resistências nas fendas do poder há também outra positividade, a da alegria como uma forma de resistência à violência. 

Para esta apresentação, pensei em falar em nome de todos os grupos que “fabricam” a Revista. Assim pedi a cada grupo que me enviassem um pequeno texto que, em forma de associação livre, contasse como tem sido participar deste coletivo, como é o cotidiano do fazer a Revista e que futuro imaginam para ela. Gostaria de destacar traços comuns que sobressaíram da leitura dos textos dos diversos grupos de trabalho: o orgulho da Revista pronta e bonita, a satisfação do aprendizado conjunto, o prazer do estudo com interlocutores atentos e, principalmente, a alegria do convívio amistoso e fraterno na realização de uma revista de grande qualidade editorial. 
  
Esta, penso, é uma alegria que potencializa a autopreservação da existência e extrai do Homem, exposto às paixões e aos desejos, um esforço de troca, de comercio, de construção de acordos que promovem uma expansão. 

Para Byun Chun Han   a Liberdade é uma nova forma de Coerção – a coerção do Homem do Desempenho. Aquele que explora a si mesmo. Mas, paradoxalmente, para ele, ser livre é estar com amigos – ele faz uma junção entre Freund (amigo) e Frehert (Liberdade).

Liberdade é uma palavra relacional assim como felicidade é um feliz estar junto.

terça-feira, 23 de abril de 2019

Quando a presença se torna ausência - Texto de Maria Laurinda


Só vos peço uma coisa: se sobreviverdes a esta época, não vos esqueçais! Não vos esqueçais
nem dos bons, nem dos maus.Juntai com paciência as testemunhas que
 tombaram por eles e por vós. (Júlio Fuchik, Testamento sob a forca)

Ibirapuera. 31 de março de 2019. 16 horas.  Homens, mulheres, jovens, crianças,  aproximam-se do palco, montado na Praça da Paz, acompanhando as músicas que marcaram a resistência à ditadura.  A maioria veste preto. Muitos, procuram companheiros de uma luta que insiste na busca e denúncia de parentes e amigos desaparecidos ou assassinados pela ditadura civil-militar que se estendeu de 1964 a 1985. Tentativas de encontro já que os intimamente desejados nunca mais acontecerão.

Outros, estão lá movidos pela solidariedade e por saberem o que significou e ainda significa, os anos ditos de chumbo e para afirmar : DITADURA NUNCA MAIS.

Revejo amigos que viveram o exílio. Estou com meu filho. Grata por sua companhia num ato que  relembra a história que vivi quando ainda bem mais jovem que ele.

Em silêncio, partilho com todos que vieram à praça a dor pelos amigos perseguidos, o silêncio dos destinos interrompidos, o medo sempre em alerta pelo risco de não saber de onde vinha o perigo das denúncias e das prisões.

Partilho, também, o horror pelos discursos de um presidente que nega a verdade do golpe e se declara publicamente a favor da tortura, legitimando as mortes cometidas.

Aos poucos,  o grupo se adensa, se concentra.

Às 18hs tem início a Caminhada do Silêncio.  Alguns trazem fotos dos parentes desaparecidos, outros, faixas denunciando as mortes, o genocídio indígena, o racismo, as perseguições à população LGBT. Pedem pelo reconhecimento e encaminhamento  das conclusões da Comissão Nacional da Verdade que confirmou as graves violações aos direitos humanos, cometidas pelo Estado e pelas Forças Armadas, caracterizando-as como crime contra a humanidade. O fato dessas violações não terem sido adequadamente denunciadas, nem seus autores responsabilizados, criou condições para sua perpetuação até os dias atuais. 

Com velas acesas e flores, os que acompanham esta caminhada, neste final de tarde,  simbolizam o sofrimento  de um luto de 55 anos que ainda espera pela justiça.    

Na saída do portão 7, encontro Ivan Valente, líder do Psol, e o cumprimento pela participação na audiência pública na Comissão de Educação da Câmara dos Deputados, quando pediu a renúncia de Vélez Rodrigues do Ministério da Educação.  Ele me diz que Velez não é nosso ministro. Concordo. Sim é um des-ministro. Sigo pensando neste nosso des-governo e nos crimes e perseguições que continuam acontecendo.

Marielle, grita uma voz ao lado do Monumento aos Desaparecidos. PRESENTE. Outros nomes vão surgindo: Luís Eduardo Merlino, Eduardo Collin Leite (Bacuri), Mário Alves, Dilma Alves, Álvaro Caldas, Herzog, Rubens Paiva... Todos eles com história e nome próprio; não são mortos e desaparecidos anônimos, depositados no mar ou numa vala comum em lugar desconhecido.
Um amigo a meu lado inquieta-se. Começou assim, ele me diz.

Revive seus tempos de passeata em 1968. Ainda guarda o medo de que a qualquer hora a cavalaria irrompa contra a multidão, os tanques tomem as ruas, as bombas estourem seus ouvidos, os jatos dágua e os cassetetes derrubem os jovens estudantes e os forcem  a correr e se esconder nos bares que fecham suas portas por temer a ação da polícia.  

Olha para os lados apreensivo. Gritos de 64 NUNCA MAIS, sobrepõem-se ao seu murmúrio.

Os anos na prisão deixaram estilhaços de terror em sua mente. Há dias em que ainda ouve os gritos das celas ao lado. Noites em que acorda sentindo seu corpo nu no chão frio da sala de tortura.

Por um instante revejo as mesmas cenas, tantas vezes relatadas, mas o tranquilizo.

Estamos em 2019, digo pausadamente.

Ele não me ouve. Seus olhos estão no passado.

Começou assim...


Maria Laurinda Ribeiro de Souza é psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae e professora do curso de Psicanálise do mesmo departamento.
Escreve, a partir do testemunho de sua experiência na Caminhada do Silêncio na Praça da Paz, entre o horror e a esperança, numa tentativa de elaboração que aponte para alguma saída possível de nossa atual triste melancolia. Nunca mais.
Precisamos lembrar para não esquecer. Para que o medo não se transforme em realidade nunca mais.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

Crônica de Maria Laurinda Sousa - Café Brasileiro. Doce português.

Maria Laurinda de Sousa, nossa colunista do Blog do Departamento, esteve em sua terra natal e escreveu um linda crônica : Café Brasileiro. Doce português.

Confiram:


Café brasileiro. Doce português.

É apenas a imagem de um homem, e eu não poderia saber sua idade,
nem sua cor, nem os traços de sua cara.
Estou solitário com ele, e espero que ele esteja comigo
Homem no mar.
Crônica de Rubem Braga

Gostaria de estar ao lado de Rubem Braga, na janela de sua sala, absorta como ele, olhando o mar carioca e o homem madrugador que desliza pela espuma das águas, deixando os movimentos dos braços ondularem na retina do poeta-prosador. Rubem admira a nobreza calma desse homem e se sente solidário com a missão que ele parece cumprir. “Ele certamente fazia uma coisa bela, e o fazia de um modo puro e viril”. Assim termina o cronista a elegia a esse correto irmão. Assim, gostaria eu, que fosse a missão (pretenciosa?) desta crônica: pura e correta.

Não posso estar com ele; a distância dos tempos nos separa. Mas, posso sentir-me ali – presença invisível. Olhos fechados para ver melhor a cena. Aproximar levemente meu corpo do dele – um toque apenas para partilhar do encanto sem desfazer seu interesse pelo homem no mar.

De olhos fechados vou, então, para outras janelas. Essas que habito sozinha, mas que também posso partilhar com amigos invisíveis. Delas não avisto o mar; ele está perto, mas longe dos olhos. Percorro, antes, os campos e as terras verdejantes do norte de Portugal. Convido você para me acompanhar nessa viagem. 

Portugal é assim... Um pouco especial - e como qualquer lugar por onde passamos, se tivermos olhos receptivos e delicados, cada paisagem nos contará uma história - mesmo que não saibamos reproduzi-la.

Dizem os que vivem no norte, que esse é o pedaço mais rico, verde e telúrico daquele pequeno continente. Desconfio que os do sul dirão coisas parecidas. Há que ser um viajante para conferir qual deles terá razão. 

A mim, o que me enternece o coração é o verde dos morros do norte, a vida bucólica das velhas aldeias, com os muros de pedras que cercam as quintas onde, outrora, viviam os grandes proprietários. Gosto de adentrar nas pequenas igrejas espalhadas por todos os cantos e cercadas por cemitérios extremamente familiares, onde ainda se vê, todos os dias, ao final da tarde, homens e mulheres carregando flores, vasos, vassouras, porta-velas, para render homenagens diárias àqueles que se foram. Lavam os túmulos enfeitando-os com flores naturais e acendem as velas que supostamente iluminam os caminhos dos que jazem adormecidos para lhes recordar que ainda fazem parte daquele grupo.

Como isso é o que faz repouso no meu olhar, é sobre o norte que posso falar.

E se vou ao Porto, certamente tomarei um café no Majestic e me encantarei, mais uma vez, e sempre, com a decoração do lugar e com os passantes que olham as vitrines das lojas da rua ou comem apressados nos intervalos do trabalho. Outra paragem costumeira é na Lello. Há que entrar, subir ao mezanino, folhear os livros, ver os caminhos do trilho que ainda lá está. E rodear o olhar pela estação ferroviária com seus azulejos pintados. Passear pela margem do rio Douro e pela ruazinha de cima onde há pequenas lojinhas que vendem coisas encantadoras.  E, depois, assistir algum espetáculo na casa da Música e admirar a construção projetada por Siza Vieira. E há também as caves onde se experimenta o velho vinho do Porto. E muitas igrejas, avenidas, museus, subidas e decidas e ruas de pedra e prédios muito antigos, alguns bastante depauperados com roupas penduradas nas janelas... E no miolo do centro há restaurantes antigos onde se experimenta a comida típica e se ouve o fado do norte - com vários fadistas revezando-se nas apresentações.

Perto do Porto está a terra onde nasci: Vila Nova de Famalicão. Você, amigo invisível, pode me acompanhar até lá.  Podemos ir até a Casa-museu de Camilo Castelo Branco e, atravessando o jardim, chegar à Casa das Artes de Camilo (outro belo projeto do artista-arquiteto – Siza Vieira). Em Vila Nova, sinto-me em casa - gosto de andar pelas calçadas do centro, visitar a velha igrejinha, circular pelas ruas, entrar nas confeitarias, comer os famosos pastéis de nata, as queijadinhas, os doces de amêndoas, morder as paciências e me perder nelas...

E nessa região do Minho - tão próxima da ideia de ninho – há pequenos lugares muito convidativos: Barcelos, Viana do Castelo, Braga (maior e um grande centro religioso) e, em especial, Guimarães. Foi lá que  nasceu Portugal - você verá a placa afixada numa velha muralha. Sente-se comigo numa das mesas, no centro das muralhas, e aprecie o movimento... Caminhe pelas ruas e sinta o burburinho das velhas senhoras de preto que vendem frutas apetitosas - compre algumas.... Veja as galerias dos artistas e se encante com os objetos...

E subindo o rio Douro aprecie as fileiras das plantações de uvas, de cerejas, de maçãs que rodeiam os morros. E se quiser se aventurar pelas ruas dessas plantações encontrará grandes vinícolas que oferecem, hospitaleiramente, uma boa dose de vinho da casa.

E há muito mais.  Lugares não descritos nos guias tradicionais que vale a pena conhecer.  Mas, lembre-se, o mais encantador é o verde, o olhar a se perder nos campos, e a poesia. Repare, Portugal dá um valor imenso à poesia - você encontrará varias inscrições poéticas espalhadas pelas cidades.

E, se, saindo do norte, formos a Lisboa, subiremos de bonde até o castelo de S. Jorge. De lá, o olhar, agora, se perde nos telhados coloridos e nas casas de muitos matizes amarelos. Na descida, vamos a pé. É tempo de percorrer, com calma e cuidado, o calçamento de pedras das  vielas  estreitas. Nelas, a luz dos lampiões antigos se perde nas sombras das jardineiras e dos varais que denunciam as intimidades de cada morador.

Vá à Casa de Fernando Pessoa e visite em silêncio respeitoso o quarto onde ele dormia.  Admire o baú onde jogava escritos sem fim. Ele está lá, abarrotado de poemas não publicados. Feche os olhos por um tempo e imagine, como eu me imaginei ao lado de Rubem Braga, que Fernando Pessoa foi só tomar um café e logo volta para uma boa conversa; é isso que diz o simpático senhor que toma conta do lugar. Ou, então, se quiser, vá ao encontro dele na “Brasileira” e tire uma foto ao lado do poeta enquanto saboreia o bom café não tão brasileiro.

Depois, atravesse a cidade e me acompanhe até a ponte Vasco da Gama. Ela até hoje nos assombra com seus fios de aço e sua extensão que busca a eternidade, guardando em si, o espírito aventureiro desse povo viajante, sempre à procura  de novas terras…
 É do Tejo, que eles partiam. Suba à Torre de Belém, ao Monumento das Descobertas e, depois, atravesse a grande avenida e visite o Convento dos Jerônimos…
E, ao sair de lá, seguindo na mesma calçada e atravessando a rua -  o comércio disputado do famoso pastel de Belém - uma delícia para se comer aquecido e com canela...E tudo isso em companhia dos turistas que se misturam com as gentes da terra como se fossem velhos conhecidos…

À noite, sente-se em uma das mesas da Rua Augusta, admire o portal que se abre para a Praça do Comércio, lá onde está a Casa dos Bicos, hoje Fundação Saramago. Coma, comigo, uma sardinha, beba um vinho e pense no mar.
Na chegada ao Brasil, no Rio de Janeiro, faça outra pausa. Vislumbre ao longe um homem madrugador que encanta a retina do poeta-cronista Rubem Braga. Eu estarei lá, ao lado dele, na varanda, aguardando o término da sua e da minha missão. Enquanto ele escreve sua crônica sobre o homem no mar, eu preparo para nós um bom café brasileiro e um docinho português.

Maria Laurinda é psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, professora do Curso de Psicanálise Teoria e Clínica, autora dos livros “Violência”( 2005) e “Vertentes da Psicanálise”(2017) ambos da Coleção Clínica Psicanalítica, ed. Casa do Psicólogo.

terça-feira, 27 de novembro de 2018

Crônica de Maria Laurinda Sousa - Viagem à Cuba em outubro de 2018 - Diário de Viagem


Nossa colunista Maria Laurinda de Sousa publica uma linda crônica sobre sua viagem à Cuba em outubro de 2018 - Diário de Viagem. Cuba revisitada.

Confiram abaixo:

Diário de viagem. Cuba revisitada

Nenhum homem é uma ilha; inteiramente isolado,
todo homem é um pedaço de um continente,
uma parte de um todo...E por isso não perguntai:
Por quem os sinos dobram; eles dobram por vós.
John Donne. Meditação XVII

Cheguei a Cuba, no meio da noite, depois de um dia de atraso devido à perda da conexão com o voo que partiria do Panamá. Aeroporto praticamente vazio. Espaço físico descuidado. Pouco acesso a informações. Falta de internet.  Um guarda prestativo ajudou-me no câmbio da moeda. Dinheiro necessário para pagar o primeiro taxi disponível.

Son treinta y cinco pesos, diz o jovem motorista descendo de um carro antigo, mal conservado, com as portas pintadas em cores diferentes.
Faço as contas rapidamente – são trinta e cinco euros - e começo a discussão. Em Cuba há que negociar o valor da corrida. Sempre.
Es mucho.  
Su hotel está lejos de aqui. Es tarde. Usted no encontrá por menos.
         Pondero o cansaço e o desconhecimento do lugar.
treinta?
Está bien

Sigo viagem segurando-me no banco e rezando para que o sacolejar barulhento  do carro não termine num desmonte de todas as peças.

Depois de um tempo em Havana você se acostuma e até acha pitoresca a viagem nos carros antigos e com pouca manutenção, nos cocotaxis ou bicitaxis que cruzam “velozmente” as avenidas e vielas da cidade antiga. Estes últimos,  aliás, as formais mais eficientes de transporte para pequenas distâncias.

Tenho ainda três dias para conhecer a cidade antes  do início do Congresso sobre Subjetividade e Trabalho: entre o mal-estar e o bem-estar. Título sugestivo, já que minha permanência em Havana também foi marcada por momentos de oscilação entre o mal e o bem-estar.

O ônibus turístico deixa-me no Armazém S. José. É lá que se reúnem  artesãos e pintores. Trabalhos delicados de madeira, joias semipreciosas de prata, camisetas pintadas com motivos cubanos e frases que,  vou reencontrar  nos muros da cidade e nos painéis das avenidas: falas de José Martí, Che Guevara e de Fidel, todas elas alusivas ao valor da Revolução. Numa delas: “O Bloqueio é um genocídio”.

Sim, isso é visível.

A cidade padece com o racionamento de alimentos e com a falta de manutenção: casas com telhados caindo, encanamentos improvisados, fiação atravessando muros, pessoas coabitando espaços extremamente pequenos com portas e janelas escancaradas para aliviar o calor que neste inverno chega a 36 graus. Crianças brincam com bolas improvisadas e alheias às águas que escorrem pelos canos sem esgoto e se empoçam nas ruas. Alheias, também, à história que marca a crise econômica que afeta esta ilha.

 Sim, há muitas faltas visíveis, mas todas as crianças têm acesso à educação, embora a qualidade já não seja a mesma. Muitos professores resolveram abandonar o ensino porque o ganho mensal – 20 pesos – é inferior a qualquer prática comercial ou turística – agora parcialmente liberada pelo Regime. Todos têm emprego, mas os salários, garantidos pelo Estado, não são suficientes para a manutenção mensal.  A saúde é um modelo para o mundo e motivo de orgulho, mas começam a surgir falta de médicos especialistas e dificuldade em adquirir equipamentos de ponta. Sim, há a literatura, mas a falta de papel tem dificultado o acesso a livros impressos.

No Congresso os especialistas cubanos vão apresentando repetidamente as causas maiores de preocupação nos serviços de saúde e seguridade social: o envelhecimento da população, a baixa taxa de natalidade - atribuída à dificuldade econômica -, e os conflitos decorrentes da mudança e abertura política da Ilha; hoje, cerca de 42% da população realiza alguma atividade privada com um ganho superior ao oferecido pelos empregos sustentados apenas pelo Estado.

Quando comento com uma amiga a preocupação e surpresa com as condições sociais e de moradia, ela me pergunta: mas que imagem você tinha da ilha?

Imagem? Sou atravessada por uma avalanche delas. Minha juventude marcada pelas narrativas da oposição à ditadura de Fulgêncio Batista, liderada por Fidel, Cienfuegos e Che, em Sierra Maestra. As frases e poemas de José Martí, herói da independência (“um grão de poesia basta para perfumar todo um século”). O  livro A Ilha de Fermando Morais referência dos movimentos de esquerda na época da ditadura. Meus amigos exilados em Cuba quando a opção de ficar era o risco de prisão e tortura. O filme de Wim Wenders sobre Buena Vista Social Club. A história de Hemingway e seu refúgio na Bdeguita do meio e na Floridita. A aposta numa revolução socialista e no Estado Social. Os filmes e fotos que vi de Cuba,  onde as cores e um certo olhar sobre a persistência e a luta desse povo encobria o descolorido que eu encontrava agora. Cuba revisitada:  de um lado, o ideal, a utopia, de outro, a realidade e seus tropeços. Hay que endurecerse, pero sin perder la ternura jamás...

 Foi o encontro com a música que me devolveu a ternura ao olhar. Em todas as ruas, praças e bares há sempre grupos tocando e dançando. Salsa, mambo, merengue – uma mistura da influência espanhola e africana. Mas também há os grupos de jazz e de música clássica.

Ao final da tarde, depois de um dia passeando pelas ruas de Havana Velha – reconhecida, desde 1982,  pela Unesco, como patrimônio histórico e cultural -chego à Praça de San Francisco, lugar de grande concentração de turistas. É lá, na Basílica Menor de San Francisco de Asís, um convento  construído no final do século XVI, e hoje transformado em museu de arte sacra e auditório de música, que entro para assistir uma das apresentações do IV Festival Internacional de Mozart: Quinteto de cordas n. 3 em Do e o Quinteto de cordas n. 4 em Sol menor. Duas violas, dois violinos e um Cello. Na viola I, Firmian Lermer, reconhecido violista austríaco e professor da Universidade Mozarteum de Salzburgo, acompanha os membros da orquestra do Liceu cubano de música, alunos desse mesmo Liceu. Para além da música o que me encanta é o prazer desse músico mais velho e experiente em acompanhar e incentivar a apresentação desses jovens músicos. Prazer visível na forma como olha para eles e no abraço que eles lhe dirigem ao final de cada apresentação.

Na tarde seguinte, à porta do Gran Teatro Alícia Alonso, um outro encontro significativo. Uma senhora cubana tenta, como eu, conseguir um ingresso para a apresentação da noite. Ela me fala, com entusiasmo, sobre a paixão cubana pela dança. Em geral, os ingressos se esgotam logo no começo do ano. Ela própria sempre os compra com antecedência, mas, este ano, ficou muito doente e pensou que não viveria a tempo de ver as apresentações. Não foi o que ocorreu e agora ela, assim como eu, esperávamos por alguma desistência. Depois de quase duas horas de espera, a desistência foi nossa. Ela saiu da fila para buscar o neto na escola, eu,  vencida pelo cansaço. Assisti algumas das apresentações pela televisão e outras pelo telão colocado no calçadão ao lado do teatro. Não há ingresso para todos, mas não há restrições à divulgação simultânea dos espetáculos; um movimento solidário de acesso à cultura.

Na ida a Varadero – praia geralmente visitada pelos turistas - uma senhora faz uma pergunta inesperada: De Varadero se vê Key West? Marta, a guia cubana que nos acompanhava, ficou tão surpresa quanto eu. A turista espanhola insistia e afirmava que sim. Retirou a máquina fotográfica e mostrou uma foto que parecia confirmar essa possibilidade. A insistência foi se tornando irritante, e não terminaria se eu não tivesse lançado outra pergunta: Key West? Onde fica a casa de Hemingway? Não dei muita sorte. A tal turista era apaixonada por Hemingway e agora a insistência era para afirmar quem sabia mais sobre a vida do autor – se ela ou Marta. O divertido da historia é que Marta tinha sido professora de literatura inglesa e conhecia a vida e a obra de Hemingway. Começaram a discutir Por quem os sinos dobram, O velho e o Mar, os autores que o influenciaram, os lugares onde viveu – a Bodeguita del Medio, La Floridita, o quarto 511 do Hotel Ambos Mundos, La Finca Vigia. Anotei o roteiro para o dia seguinte...

No meio das referências literárias apareciam, na fala de Marta, as dificuldades da vida em Havana. A carreira que valorizava, mas que abandonou para trabalhar no turismo e dar aulas privadas de ingles. Os livros que gostaria de reler mas a que tem dificuldade de acesso.  Há, em Cuba, um misto de expectativas favoráveis às mudanças decorrentes da abertura do Regime e um receio da perda dos valores que marcaram a Revolução e que permitiram o acesso pleno à Educação, à Saúde e à Cultura.

O dia em Varadero é para o repouso. A areia branca,  a águal azul transparente e as palmeiras lembram as praias de nosso nordeste. O sol está quente apesar do inverno. Lá, assim como em toda a ilha, é possível pedir as bebidas preferidas por Hemingway - o mojito e o daiquirí, ambas feitas à base de rum branco.   

Ao final da tarde, uma foto com o grupo. Marta pede para não ser incluída; o guia precisa manter uma certa distância do grupo que acompanha.  O endurecimento do Regime deixou marcas profundas no exercício da liberdade.

Depois de um intervalo de quatro dias para o Congresso, mais uma visita ao centro de Havana e um passeio pelos jardins do Hotel Nacional, construído por Al Capone, com frente para o Malecón, avenida à beira mar por onde transitam os turistas, os pescadores, os namorados e os grupos ocasionais de música caribenha.

A tarde foi reservada para o Museu Nacional de Belas Artes. Logo na entrada, na sala à esquerda, uma exposição temporária. Deixo-a para o final e me encanto com as instalações de Sislej Xhafa, artista kosovar  que viveu de perto a desintegração da antiga Iugoslávia e fez de suas obras uma elegia à resistência.  Um colchão de casal abandonado nas ruas de Havana Velha é recortado no formato de um coração com as duas metades abertas. Um guarda-chuva colorido é o varal de apoio para as roupas recicladas que se vendem nas janelas das casas. Uma lápide com um telefone em cima cria um enigma surpreendente; não podemos falar com os mortos, mas, com quem falaremos no futuro? Em seus objetos há uma dialética de imobilidade e  movimento questionadora da capacidade humana para resistir, adaptar-se ou seguir adiante.  Reconheço-me na ternura poética das imagens que ele criou sobre Cuba.

Saindo do museu, a despedida na sorveteria mais famosa: Coppelia. Foi lá que descobri, mais uma vez, a experiência dos lugares segregados. Há a fila para os cubanos e o lugar para os turistas – sem filas. Um não tendo acesso ao lugar do outro. Eu não posso comprar a moeda nacional (CUP) que me permitiria entrar nesse lugar e a moeda a que tenho acesso (CUC) marca meu lugar de turista e o preço que tenho que pagar por produtos que, para mim, não estão racionados. Entendo o princípio e o valor econômico representado pelo turismo, mas me sinto atingida pela segregação.

Na volta ao Brasil vou ao centro da cidade em São Paulo. Necessidade urgente de resolver uma situação burocrática na representação do Ministério da Saúde. Vejo as pessoas deitadas nas calçadas, crianças pedindo esmolas nos faróis, prédios abandonados, pixados, vidros quebrados, pinturas descascadas, ocupações... Cenas tão presentes no nosso cotidiano.

Surpreendo-me perguntando a mim mesma porque me inquietei tanto com a precarização das moradias e das condições econômicas em Cuba. Lá, apesar da precariedade, não se vê pessoas jogadas nas ruas, crianças perdidas pela cidade e não há medo de transitar desacompanhada à noite. Havana ainda é uma cidade segura para caminhar.

Dei-me conta, novamente, que vivemos uma realidade terrivelmente segregadora. É bom, esporadicamente, ter olhos de estrangeiro para poder, de fato, enxergá-la.

20/11/2018

Maria Laurinda é psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, professora do Curso de Psicanálise Teoria e Clínica, autora dos livros “Violência”( 2005) e “Vertentes da Psicanálise”(2017) ambos da Coleção Clínica Psicanalítica, ed. Casa do Psicólogo.

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

Texto Fátima Vicente - "Passar para outra coisa"


Nos dias 26 e 27 de outubro passado aconteceu o evento "CLÍNICAS REPUBLICANAS E DEMOCRÁTICAS, CLÍNICAS PÚBLICAS E ABERTAS" no Sedes Sapientiae cujas mesas eram formadas por aqueles que praticam a clínica nas ruas, nas praças, nos canteiros, nas casas, nos campos e nas florestas, nos trabalhos de recepção, de acolhimento, de cuidado e praticam a escuta, como dispositivo contra a exclusão em situações sociais críticas.

Confira abaixo o lindo texto "Passar para outra coisa" escrito por Maria de Fátima Vicente sobre a mesa de sábado, dia 27 de outubro, à convite do Blog do Departamento.





Passar para outra coisa

Maria de Fatima Vicente
                      
Era 27 de outubro de 2018, sábado cedo. Fomos quase pontuais e precisamente atentos. No auditório do Sedes Sapientiae aconteciam leituras abertas à evocação, a pensamentos, a emoções. Principalmente abertas à conversa.

Era a primeira mesa do segundo dia do evento “Clínicas republicanas e democráticas, clínicas públicas e abertas”. Um título longo que abarca histórias múltiplas e experiências diversas.

A abertura do evento ocorrera na noite anterior, com a apresentação do documentário de Eliane Brum sobre a triste história de Altamira/PA. Tristeza ponteada pelas histórias e singularidades subjetivas resgatadas dos escombros, na experiência de Saúde Mental que ali aconteceu, graças à escuta solidária, à presença andarilha e à fé cega na vida de quem dispõe de si ao outro. Apenas uma alegria discreta, brotada na confiança construída e na palavra partilhada. Palavras de uma amiga durante o café da manhã coletivo, já que não pude estar presente àquela noite. Havia faltado à importante abertura do evento, pois no mesmo horário, junto com Tatiana, colega psicanalista do Departamento de Psicanálise, e Juliana, colega assistente social da Clínica do Sedes, participara de uma das “Rodas de Conversa” sustentadas pelo coletivo Escuta Sedes. Dispositivo inventado na urgência destes tempos, para abrigar a angústia, a confusão, o medo, o temor de cidadãs e cidadãos perturbados com os riscos da polarização instalada no país, nos desarranjos do processo eleitoral em curso. Mais uma tentativa de experiência de saúde mental em um momento de loucura social.

Estávamos às vésperas do segundo turno das eleições para presidente do país. E do que elas significavam: à beira de nós, à beira do abismo, mas com a esperança nervosa de que ainda desse pra virar.

Era nessa vigília que ouvíamos daqueles colegas da mesa, como cada um “se vira” quando está extra-muros, quando exerce o ofício de psicanalista em  variados contextos, como fazer outras clínicas, aquelas necessárias.

É muito pouco dizer, nesses casos, que se trata de “sair dos consultórios”. É mais que isso.

Quando ouvimos o relato de Auro Lescher sobre o trabalho desenvolvido no antigo e sempre inquietante e juvenil Projeto Quixote, reconhecemos que é muito mais do que isso e outra coisa. Auro nos fala de educadores terapêuticos, os tais E.Ts, que vão munidos de mochilas lúdicas contendo algum material que possa dar sustentação à troca de palavras entre os educadores e quem está ou vive na rua. Troca por meio da qual o afeto do reconhecimento transita e faz tramitar o silêncio que embrutece ao fazer desse silêncio, a  esperança de voz, de fala, de canto. Às vezes, nasce um rap! Garotos e garotas ladeando o Casarão Amarelo da Consolação, de um lado, residência artística, do outro, mocó construído na angústia e na espera da polícia ou do parceiro.  

Logo, o trânsito e o trâmite fazem do muro uma banda de Moebius, sem dentro nem fora, banda em que soam vozes, risos, olhares e calores. Tudo se escora nesse circuito. Nada nem ninguém é escória. Não mais. Um novo modo da propriedade.

Sobre escoras e ancoragens nos falam Emília e Jorge Broid, representantes da espantosa empresa Sur, que conta somente com esses dois sócios para ir a campo aberto fazer Psicanálise. Fazer resgates. Engancham o cordão encarnado da História e das histórias.

Jorge resgata a história da longa, tradicional e pouco ortodoxa, mas, convenientemente esquecida pelos homens de bem, de algumas Psicanálises, aquelas da vocação psicanalítica para com os que não contam: os operários e os jovens de Reich, os pacientes da policlínica de Berlim, e vários outros. Dentre esses, os pobres.
Ah! Essa gente! Ah! Essa palavra!

Os pobres.

Curiosamente, essa palavra não aparece em nenhum dos  títulos de nosso evento. E, no entanto, nesse extramuros de um país de abissais diferenças sociais, econômicas e culturais, isso conta. Disso se conta.

Jorge nos lembra de que já em Freud, a ampliação da Psicanálise é pensada como questão de Saúde Pública, sob a responsabilidade do Estado. Estado que daria conta dos custos que a neurose acarreta à vida social e, que para subvencionar  o tratamento a tantos, teria que reduzir um pouco o custo  e o valor da Psicanálise: do ouro puro da transferência e da interpretação ao cobre da sugestão.

A espinhosa questão do risco de uma clínica de segunda qualidade porque voltada democraticamente também para os pobres é confrontada pela qualidade das clínicas apresentadas pelos colegas naquela nossa reunião. Pois, com sugestões também se faz boa clínica, aquela que resgata o brilho no olho, ou porque o leva “na mochila”, mas, principalmente, porque o transmite “olho a olho” ao reencontrar e reenganchar o fio daquela história na qual e no quando  os olhos brilhavam.

Emília traz a experiência de reenganchar, pela sugestão, a experiência que fez marca de valor no menino quase sem voz, experiência de valor que pode ser reconhecida ao ser retomada pela analista: voltar a apostar na alegria por meio da lembrança da alegria que havia quando a mãe sentia que tinha valor aovender garrafas de água no farol.
Lampejos! A transmissão da experiência vivida por meio da justa forma.

Nesse pequeno ponto de luz uma história para contar, a história dos papeizinhos que marcaram o intercâmbio com o outro, aquele sedento, para quem se tinha água a oferecer. Registro dos valores cobrados e recebidos. Mais que contabilidade, traços para escrever uma nova história, para criar, para fazer a vida com alegria prosseguir.

O custo de levar a Psicanálise aos pobres é o custo de lhes reconhecer o valor. Não muitos estão dispostos a pagar o preço. Divisar os pequenos faróis na escuridão dos tempos, à qual olhamos de frente e juntos. Um novo modo da amizade.

Disso sabe bem o movimento que acolhe Noemi Araújo, porque precisa da Psicanálise que ela leva, transporta e transmite.

A experiência de escutar os alunos da Escola Florestan Fernandes, na qual as lideranças em preparação do MST se apoiam e se educam é feita de alianças e de profundo respeito e perseverança para com o desejo de cada um.

Insistir, perseverar, permanecer, de corpo presente, ficar assentada no lugar da escuta enquanto cada assentado faz sua passagem naquela casa de itinerância. Intervenções no ponto, passagens pontuais. Esse é o trabalho de Noemi.

É, porém, com o relato sobre as crianças do MST que fazemos a experiência da liberdade do sujeito como fundamento, experiência à qual a escuta da psicanalista deu lugar e da qual ela traz notícias à comunidade psicanalítica.

Ela nos conta que as crianças foram a ela por si próprias, em transferência uma com as outras e cada uma esperando a sua vez. Porque a vez e a voz ali estão asseguradas.
Fazem seu singular percurso de análise e se vão. Nenhum pai e mãe a obstruir lhes os caminhos. Porque estes já foram abertos pela confiança depositada e nas responsabilidades que lhes foram reconhecidas, não só pelos adultos, mas também por eles.

As crianças que vão e vêm sobre seus próprios pés falam de uma possibilidade de laço social em que a solidariedade fale e seja ouvida, para além da autoridade da família. Daquilo que entra no jogo quando o desejo encontra seu lugar na polis.

Sobre isso conversamos com os colegas que nos falaram à mesa: sobre ETs de mochilas, sobre brilho no olho, sobre a memória e sobre a perseverança. Sobre o que encontram os psicanalistas quando caminham entre as gentes e aprendem com elas. Conversamos sobre a paciência histórica nestes tempos, sobre apostar que é possível sair da repetição, que o sujeito possa advir no laço social e na instituição psicanalítica. Um modo cotidiano e vivo de virar: passar para outra coisa.


Maria de Fátima Vicente é psicóloga e psicanalista, trabalha em consultório privado desde 1978. É professora do Curso de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae desde 1992, e membro do Departamento de Psicanálise desta instituição  desde sua fundação. É mestre em Psicologia e doutora em Ciências Sociais, autora de “Psicanálise e Música – Aproximações”, São Paulo: Editora Pearson/Casa do Psicólogo - Coleção Clínica Psicanalítica coordenada por Flávio Ferraz.

terça-feira, 6 de novembro de 2018

Fórum de Discussão com o texto "Flores Amarelas" de Nicolas Winck


O Blog do Departamento abre seu espaço para um fórum de discussão sobre o momento atual de nosso país. Confiram abaixo o lindo texto "Flores Amarelas" de Nicolas Winck

Flores amarelas

Nicolas Winck

Grandes escritores do século XX expressaram a dor de seu tempo tentando descrever a relação entre o sujeito e a sociedade. Essa ponte foi historicamente resumida a um conjunto de receios que permeiam os desejos, as impressões e o discurso.

Fernando Pessoa publicou, em 1934, o livro Mensagem, no intuito de reconstruir e projetar de modo simbólico a história de Portugal. Foi justamente no terceiro poema da obra, denominado “Ulisses”, que o poeta consagrou uma das maiores sínteses do nosso passado ocidental:

“O mito é o nada que é tudo”. Não foi a primeira vez – e obviamente não seria a última – que o fato histórico e a ficção deram as mãos.

Um pouco depois, em 1940, Carlos Drummond de Andrade deu vida e público ao Sentimento do mundo. Enevoado como Pessoa, o poeta mineiro já reconhecia, no poema “Congresso Internacional do Medo”, que vivemos todos uma vida amedrontada, para, enfim, morrermos de medo. Fosse o medo “dos sertões, dos mares, dos desertos” ou ainda “o medo dos ditadores, medo dos democratas”, estaríamos ainda fadados a deixar a existência e partir para “o medo de depois da morte”.

A partir de obras engajadas como essas, é no mínimo cômodo que se atribuam significados ao recorte político e social do momento dos poetas – em um caso, a agitação de um governo militar que seria encabeçado por Salazar e, no outro, o Estado Novo brasileiro e a Era Vargas. É cômodo, mas não absurdo. A ideia não é aproximar com intimidade a história de Portugal à do Brasil, muito menos abrir mão das relações entre a obra e seus autores (até porque elas de fato existem). A questão é que a literatura já apontava, com seus recursos, o clímax do embate político de 2018: um período eleitoral que flutua entre a negação, o mito e o medo.

Nesse contexto, é importante reconhecer que nenhuma ação deixa de ser política por não estar revestida de nomes de partidos ou de referências a grupos de ativismo. E é justamente neste ponto que se diferenciam realidade e verdade: no discurso. O modo de expressar apoio ou aversão às propostas e ideias de figuras como Fernando Haddad e Jair Bolsonaro determina a relação entre as nossas verdades e a realidade tal como se apresenta para nós.

A mobilização EleNão, por exemplo, canalizou força expressiva na negação. Todos que aderiram a esse discurso conhecem a alta porcentagem de negativas que habita a retórica do candidato do PSL.

Durante grande parte de suas participações em debates ou entrevistas, ele nada mais fez do que negar. Negou frases que teria dito, negou possíveis alianças, negou estar presente em determinados lugares, negou tudo o que pôde. A frase “Jamais iria estuprar você porque você não merece”, esbravejada contra a deputada Maria do Rosário, em 2003, tornou-se uma de suas negações mais conhecidas não só pelo conteúdo absurdo de suas palavras, mas porque todos sabemos que se trata, na verdade, de uma grave afirmação. Ou seja, mesmo quando afirma, Bolsonaro o faz pela negação, pela violência. O capitão, sabemos, afirma-se no ato de negar o outro. No aniquilamento do que não lhe cabe à própria compreensão e, claro, ao seu orgulho.

Nesse sentido, uma manifestação coletiva contra Bolsonaro só poderia encontrar voz por meio do espelhamento do discurso do candidato, que emana repúdio, aversão e, finalmente, afastamento, uma síntese do não, do nunca, do jamais. Contudo, surgiu daí uma dialética complicada, pois, no gesto subjetivo de afastar o absurdo e no distanciamento do inimigo, o mito e o medo passaram a ganhar força, vida e sobrevida.

Quando Fernando Pessoa define mito como “o nada que é tudo”, está evocando o teor fundamental da ausência na origem das nossas crenças.

Referir-se a Jair Bolsonaro como mito, portanto, é justamente afirmar o caráter esporádico da sua presença real. É conferir um aspecto quase poético e lendário às suas ausências, por exemplo, nos debates, como se uma figura como a dele não fosse digna de uma interação tão intimista, tão terrena, tão aproximada a seus oponentes. É neste momento que o nadase torna tudo: no momento em que incontáveis eleitores apaixonados aprovam que ele permaneça distante dos debates, longe de seu adversário, e tornam-se, eles mesmos, seu corpo e propaganda. Bolsonaro, então, sai da condição de candidato e deixa a patente de capitão para converter-se em um mito, um princípio, um ideal. Ele pode não estar em debates, porém já está em tudo: nas redes sociais, nas mensagens de grupos de WhatsApp, não apenas na boca e na palavra de seus eleitores, mas nas de todos. Agora pelo sim ou pelo não.

Criou-se, com essa onda de ódio, preconceito e escárnio, uma força negativa onipresente. Uma nuvem escura de medo ergueu-se sobre a razão, sobre os fatos, sobre o estado de direito, sobre o bom-senso. É um medo generalizado, pois está nos dois lados: os que temem o caos da barbárie travestida de ordem e os que temem as responsabilidades trazidas pelas noções mínimas de civilização e democracia. Enfim o medo drummondiano dos ditadores e dos democratas. Os que negam Bolsonaro e os que negam Haddad. Ou melhor: os que negam as verdades de um e as verdades de outro. Eis a nossa realidade.

Sendo assim, há que se enfrentar o medo e renovar a linguagem política. Se fatos e Direitos Humanos foram transformados em questão de opinião – e, no limite, uma questão de fé –, é importante ressignificar as nossas referências e as nossas verdades. O que leva alguém a votar em Bolsonaro? Caso a resposta esteja envolvida por alguma negação, não se está votando em uma proposta de governo nem em um candidato a presidente, e sim elegendo um discurso. Um discurso que nasce no outro, mas que morre em nós. O medo que deságua na violência e que faz com que o indivíduo fique afastado daqueles que são seus semelhantes.

Não é novidade, porém, que as atitudes dos brasileiros oscilem entre as esferas do público e do privado, muitas vezes confundindo-as.

Atualmente elegemos um político que defenda os nossos interesses e, se as nossas ideias divergem das dos outros, paciência. Para compensar a falta de unidade, abraça-se um coletivismo postiço: o verde e amarelo, as camisas da Seleção Brasileira de futebol, quaisquer movimentos que estabeleçam a Pátria acima de tudo. A eleição tornou-se mais um jogo de final de campeonato: quer-se ganhar a todo custo, mesmo que seja à força, com armas e dentes, com subversões e com o completo apagamento do nosso passado histórico. A esfera dos interesses públicos foi implodida pelos grupos privados de WhatsApp e a verdade passou a alimentar o seu avesso: a mentira.

O conceito de mito, a partir daí, associa-se como sinônimo a termos como mentira e boato. A ausência, então, torna-se chave fundamental para a automação do medo que faz os celulares tremerem ininterruptamente. O discurso dos eleitores – muitas vezes referidos pela mídia indevidamente como fãs –, por outro lado, está presente, replicando o mito, que se apresenta na voz dos outros, longe da razão e do compromisso com outras verdades, mas que, nem por isso, deixa de ser uma realidade. O medo enterrou o discurso, sepultando-o nos comandos encaminhar e compartilhar. Afasta-se qualquer informação antes mesmo que se tenha tempo para pensar nela, e é preciso tempo e serenidade para desmitificar. Por isso que o longo prazo assusta tanto os brasileiros, que dormem abraçados a suas próprias verdades.

Drummond, no fim das contas, já cantou o medo, aquele que não permite que cantemos o amor. São duas opções que se anulam e que precisam urgentemente oferecer espaço para reflexão e diálogo. O poema do Sentimento do mundo, afinal, encerra-se com tom profético neste derradeiro verso: “e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas”. O gesto de nascer em um mesmo plano da morte deve ser lido aqui como uma pergunta a respeito do que prevalece – se os nossos túmulos ou as medrosas flores amarelas. Se o túmulo sepulta qualquer esperança de humanidade e a cor amarela encontra eco na nossa bandeira, parece que o medo, por outro lado, se não mata, apenas faz dilatar o tempo. Tempo de repensar, talvez de renascer.

NICOLASWINCK é linguista formado pela USP e professor de Literatura e Língua Portuguesa.


Texto escrito em 19 de outubro de 2018