Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae

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São Paulo, SP, Brazil
O Blog do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae é um dos veículos de comunicação em que circulam informações, produção de conhecimento, experiências clínicas e de pesquisa de seus diferentes membros. A interlocução com o público, dentro e fora do Departamento, é uma maneira de disseminar a troca no campo da Psicanálise e possibilitar a ampliação do alcance das reflexões em pauta. Fazem parte da equipe do Blog: Ana Carolina Vasarhelyi de Paula Santos, Fernanda Borges e Gisela Haddad.

quinta-feira, 5 de julho de 2018

Neste mês vimos o avanço na Argentina da proposta de descriminalização do aborto. Veja a seguir um texto que discute este acontecimento e o tema do aborto articulados a outras questões como saúde pública, saúde mental e as representações psíquicas e sociais acerca da mulher.


Quem tem medo da descriminalização do aborto?
                                                                                             Helena Canto Gusso, Julia Fatio, Paula Rojas, Renata Conde (1)


Em 1970, Simone de Beauvoir escreveu um manifesto na França em favor da descriminalização do aborto. No texto, assinado por ela e mais 342 mulheres, se lia: Um milhão de mulheres na França têm um abor to a cada ano. Condenado ao sigilo, eles têm acontecido em condições perigosas, sendo que este procedimento, quando realizado sob supervisão médica, é um do s mais simples. Essas mulheres são vela das em silêncio. Eu declaro que sou uma delas. Eu tive um aborto. Assim como nós exigimos o acesso livre ao controle de natalidade, exigimos a liberdade de ter um aborto.” Intitulado como “Manifesto das 343”, a declaração causou grande escândalo no país. A palavra aborto, até então tabu nos meios de comunicação, passou a ocupar os noticiários e rapidamente o movimento foi nomeado pelos conservadores de “Manifesto das 343 Vagabundas”. Quatro anos depois, em 1975, o aborto foi legalizado na França. Recentemente , presenciamos também a descriminalização do aborto no Uruguai, Polônia, Irlanda e agora a Argentina avança nessa direção, com sua aprovação no Câmara dos Deputados.

No Brasil, o aborto segue como tema em disputa. Grupos religiosos e conservadores tentam pautar o debate para que o Estado incorpore suas crenças e morais nesse assunto. A partir da PEC 181 buscam tornar crime toda e qualquer forma de interrupção da gravidez. Por outro lado, há um longo trabalho de mulheres, movimentos feministas e organizações em defesa de seus direitos. Tivemos avanços concretos, como a legalização do aborto em casos de anencefalia, somando-se aos outros dois casos em que já era permitido – quando a gravidez representa um risco para vida da mulher ou é resultante de um estupro.

Ainda assim, estima-se que no Brasil 5,3 milhões de mulheres já tenham abortado ilegalmente. Só em 2014 foram contabilizadas 190 mil internações no SUS para curetagem. É a segunda maior atividade dos obstetras, sendo a primeira a realização de partos. Segundo pesquisas da UNB e UERJ a maioria delas tem entre 20 e 29 anos, vivem em relacionamento estável (70%) e têm pelo menos um filho. 

Quanto às suas crenças, 65% disseram ser católicas e 25% protestantes. Mulheres negras tem 2,5 mais chances de morrer durante um aborto do que as mulheres brancas, em sua maioria são provenientes de classes sociais mais pobres e ficam excluídas do acesso a procedimentos seguros. Também diante de aborto mal-sucedido, estudos mostram que elas têm menos acesso a serviços de saúde, o que aumenta o risco de vida.

A realidade brasileira expressa, portanto, a urgência em tomar o debate da legalização do aborto não como uma questão moral, mas de saúde pública que envolve atravessamentos de raça, classe e gênero. “Educação sexual para decidir; Contraceptivos para não engravidar; Aborto legal e seguro para não morrer” foi o mote da luta argentina.

Os movimentos feministas argentinos têm pautado fortemente o debate sobre osdireitos das mulheres e nos últimos treze anos fizeram uma árdua campanha pelo aborto legal, com debates semanais em Buenos Aires e nas províncias, construindo um amplo diálogo com a população. Segundo Flávia Biroli este trabalho de base, feito de modo estratégico e articulado, foi central para a compreensão de que a cidadania das mulheres é um valor democrático e é dever do Estado garantir sua integridade física e psíquica. O movimento #NiUnaMenos, surgido em 2015, foi também parte decisiva deste processo ao mobilizar milhares de argentinas e argentinos a lutar contra o feminicídio e pelos direitos das mulheres.

Outro ponto importante à descriminalização na Argentina, anterior e fundamental para a organização dos movimentos feministas atuais, é a longa história de resistência no país frente às violências de Estado. O encontro das mães e das avós de maio com as secundaristas, a cena de tantas jovens com pañuelos verdes amarrados em seus pescoços, braços e mochilas, ilustram que a transmissão da resistência tem a potência de quebrar e transformar o que poderia ser apenas um ciclo de dor e sofrimento. As mães e avós de maio ao manterem viva a memória das violências cometidas na ditadura argentina abrem caminho para que novas gerações de mulheres não aceitem a violência como destino e se apropriem do direito sobre seus corpos. Afinal, sabemos desde Freud que aquilo que não é recordado e elaborado, atualiza-se e retorna como compulsão à repetição.

O reflexo dessas articulações se evidenciou nos discursos pronunciados na Câmara dos Deputados da Argentina para defender a descriminalização do aborto: “ Se a gravidez é uma contingência, o desejo tem que ser a norma para decidir se queremos ou não ser mães. Não o desejo de outros, nem o parecer de um juiz.”; “ (...) a diferença entre o aborto voluntário e o involuntário é o desejo, e o que não queremos [sociedade argentina] discutir é que nós mulheres tenhamos direito a exercer nosso desejo, nossa liberdade.” 

Freud, em seu texto A Moral Sexual Civilizada, escrito em 1908, aponta para a moral sexual dupla. Segundo ele, a própria sociedade não acredita que seus preceitos possam ser obedecidos, e que a experiência também mostra que as mulheres são verdadeiros instrumentos dos interesses sexuais da humanidade. Freud afirma que “Uma das óbvias injustiças sociais é que os padrões de civilização exigem de todos uma idêntica conduta sexual, conduta esta que pode ser observada sem dificuldades por alguns indivíduos, graças às suas organizações, mas que impõe a outros os mais pesados sacrifícios psíquicos. Entretanto, na realidade, essa injustiça é geralmente sanada pela desobediência às junções morais.” (2) Não será sobre isso, que as mulheres na Argentina estão dizendo ao discursarem no Congresso em Buenos Aires que “O aborto existiu, existe e existirá! Legislem vocês o que quiserem” ?

Sobre esse assunto, a psicanalista argentina Iresis Greisis comenta que o tema do aborto levanta uma questão para a sociedade que é a separação entre a figura da mulher e da mãe. Para ela há um esforço em justamente manter a representação da mulher como mãe e, nesse sentido, o aborto é um golpe nessa crença, visto por muitos como um atentado à figura da mulher como mãe santa. Segundo Djamila Ribeiro, a maternidade compulsória implica nisso, uma construção social da feminilidade na qual a maternidade se torna o principal destino para a mulher, destino este tomado como natural. A maternidade, neste sentido, seria também uma forma de controlar os corpos das mulheres. As ditas “vagabundas” seriam então aquelas que recusam a representação de si como mães? Estaríamos diante da dupla representação da mulher como santa ou puta?

Nesse sentido, a conquista argentina opera uma disjunção entre mulher e mãe, o que gera efeitos nas próprias significações dadas à experiência aborto. Em um texto autobiográfico, Anne Ernaux comenta que em nossa sociedade o fato é que acabamos nos calando sobre a real experiência do aborto. Costumamos associá-lo a experiências traumáticas, de culpa, da qual uma mulher raramente se recuperaria. Ora, a generalização é o oposto da escuta analítica, e nesse momento lembramos de nossas hermanas argentinas: “(...) não queremos governar sobre os homens, queremos governar sobre nós mesmas, queremos governar sobre o nosso corpo, queremos governar sobre o nosso desejo, queremos governar sobre os nossos sonhos.”(Gabriela Cerruti, deputada Argentina)


Notas bibliográficas
2) FREUD, S. Moral sexual ‘civilizada’ e doença nervosa moderna (1908). In: O delírio e os sonhos na “Gradiva”, Análise da fobia de um garoto de cinco anos e outros textos (1906-1909). Tradução Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2015 (Obras completas, volume 8).



[1]Helena Canto Gusso - acompanhante terapêutica, psicanalista e aspirante a membro do Departamento de Psicanálise; Julia Fatio Vasconcelos - acompanhante terapêutica e psicanalista; Paula Grimberg Rojas - psicanalista e acompanhante terapêutica, formada no Departamento de Psicanálise; Renata Conde - psicanalista e professora da Escola de Psicanálise de São Paulo; e integram o Grupo de Estudos e Trabalho em Psicanálise e Feminismo, grupo criado em 2015, com a proposta de pensar diálogos e tensões entre feminismo e psicanálise, a partir de diferentes espaços como rodas de conversa, debates e produções teóricas.




quinta-feira, 28 de junho de 2018

Racismo e simbolização

No último dia 9 de junho realizou-se no Sedes Sapientiae a segunda parte do evento Questões sociais e políticas na história da psicanálise: ontem e hoje, evento que se propôs a resgatar na história da psicanálise, autores que se mantiveram esquecidos como Otto Gross, Sabina Spielrein, Frantz Fanon, Erich Fromm entre outros, mas que trabalharam no campo social e político e promoveram mudanças sociais e subjetivas significativas. Fanon,por exemplo, médico psiquiatra negro, nascido na Martinica, foi um importante pensador sobre as questões raciais. A convite do Blog Cristiane Abud, uma das organizadoras do evento, apresenta um lindo texto sobre o tema.

Confiram: 



Racismo e simbolização


Cristiane Curi Abud

Há alguns anos tenho me aproximado da problemática do racismo e o negro no Brasil e tem me intrigado o tremendo mal estar que o tema desperta em todos os lugares onde é discutido. Alguns colegas nomeiam essa mal estar como vergonha, culpa ou raiva pela violência exercida contra os negros. Essas palavras traduzem para mim apenas parte do mal estar que insiste de forma tão violenta que atinge meu corpo em sensações de enjoo, taquicardia e tensão muscular, sensações sobre as quais tenho muita dificuldade de pensar. 

Por isso, levanto a questão de quais seriam os efeitos do racismo no processo de simbolização. Bem, podemos definir a simbolização como tornar psiquicamente presente um objeto ausente.

Ao vivenciarmos uma determinada experiência somos corporalmente afetados por seus estímulos sensoriais (visual, olfativo, auditivo, tátil e gustativo). A percepção desses estímulos demandará trabalho ao psiquismo. Ocorre então uma passagem da sensação propriamente dita para sua respectiva imagem psíquica, que carregada de afeto, constitui o que chamamos de representação-coisa. O passo seguinte à significação afetiva da experiência é poder falar sobre ela, transformando-a em representação de palavra.

Basicamente, este constitui o processo intrapsíquico da simbolização. Mas se a simbolização requer que se represente o objeto na sua ausência, cabe questionar a função que o objeto cumpre neste processo.
Neste sentido, retomamos o conceito de objetos transicionais que incidem na área intermediária da experiência, abrindo caminho para a jornada do bebê desde o puramente subjetivo até a objetividade.

Os objetos ofertados ao bebê são artefatos da cultura na qual a família se insere. Importa aqui notar que a produção cultural não é ingênua, ela carrega aspectos sócio históricos, institucionais, econômicos e ideológicos. Carregam e revelam as alianças inconscientes acordadas pelo grupo familiar do bebê, inserido no grupo social maior, alianças que determinam o que fará parte do discurso e da experiência daquele grupo e o que não fará parte.

Foto 1. Esta foto foi tirada por um fotógrafo negro chamado Chichico Alkimin (1886-1978) e está exposta no Instituto Moreira Sales. Podemos receber seus estímulos visuais, percebê-la e fazer a passagem que se realiza da sensação para a imagem psíquica. No entanto, ao revelar o negativo das imagens deixadas por Chichico, o Instituto encontrou outras revelações a partir dos negativos das fotos.



Foto 2. Neste caso, o estímulo sensorial foi negativado, e aquilo que seria apenas uma sensação, insumo para a experiência estética da vida psíquica, aparece como uma coisa da qual se pretende livrar. Dentro do longo processo de simbolização de uma experiência, que aqui descrevemos, ataca-se seu primeiro passo, a percepção. Percepção de que ali tem seres humanos, sem os quais, a foto revelada seria outra, mas dela não podem fazer parte. Corta-se assim o mal pela raiz. Através de um mecanismo reconhecidamente perverso de ataque à percepção recusa-se que essas pessoas façam parte da cena social. Elas estão ali, sabemos que estão ali, mas agimos como se não estivessem. Tal aliança limita a possibilidade de canalização psíquica da experiência e de palavras para dizer, a violência toma outros rumos e retorna através de atuações.  



Num instituto de formação em psicanálise como o Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae essas alianças tendem a se repetir e selecionamos colegas, autores, teorias, eventos, publicações que fazem parte do nosso espaço transicional, espaço no qual tentamos simbolizar as experiências vividas na clínica, seja ela pública ou privada. Assim como selecionamos aquilo da cultura que não fará parte do nosso espaço. Essas definições e determinações se dão no detalhe, por exemplo, em como esse auditório organiza seus móveis estabelecendo já um tipo de relação entre oradores e plateia, neste crucifixo da parede, na forma como nos vestimos, no café que servimos nos intervalos, nas decisões de como investir os recursos financeiros do departamento, nos textos que utilizamos nas aulas e espaços de estudos, etc.  Se observarmos o perfil demográfico de nosso departamento, perfil dividido em classe, gênero e raça, não demoraremos a notar que nossos cursos são caros, somos uma maioria de mulheres, na plateia pelo menos, e somos uma maioria de brancos.

Corta-se assim o mal pela raiz. Só que não. A resistência dos movimentos negros no Brasil, este evento e tantas outras iniciativas que vem sendo tomadas em diferentes âmbitos da nossa sociedade propõe-se a rever o que Freud chamou de recusas da percepção, Ferenczi chamou de desmentido e Figueiredo de desautorização da percepção. É preciso enquanto psicanalistas, reconstruir nossa História, através da atividade de ligação do mal estar produzido a cada encontro no qual tentamos tomar consciência, rever e resignificar o pacto social do qual somos todos signatários. É preciso sustentar o mal estar para transformá-lo em representação, elaborações e simbolizações. 

Franz Fannon, Deivison Nkosi Faustino, Neusa Santos, Isildinha Batista, Mariele, Maria Lucia Silva, Anne Egidio, Maria Aparecida Miranda, Eliane Costa, Néia Marques, Maria Celia Malaquias e tantos outros amigos e colegas vieram para dentro da cena, do nosso espaço transicional que hoje, 9 de junho de 2018, pode, quem sabe, favorecer a nomeação, representação e simbolização de algumas das tantas experiências violentas que recusamos ao longo da nossa História. Quem sabe possa ser mais um espaço a favorecer que mais colegas venham para dentro da cena, ainda que para isso precisemos instituir bolsas de estudo no nosso Departamento.

Nas palavras De Fanon: “O olho não é apenas espelho, mas espelho retificador. O olho deve nos permitir corrigir os erros culturais.”

Cristiane Curi Abud é professora afiliada da Universidade Federal de São Paulo e professora do curso de Psicossomática do Instituto Sedes Sapientiae. É Psicanalista Membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae.

segunda-feira, 25 de junho de 2018

Texto sobre a mesa - A LÍNGUA ERRANTE / O APÁTRIDA - Evento Deslocamentos


Nos dias 04 e 05 de maio de 2018 aconteceu pelo Departamento de Psicanálise do Sedes Sapientiae o evento Deslocamentos, organizado pelo coletivo Escutando a Cidade O tema pretendia abranger não só  os deslocamentos como conceito psicanalítico,mas como viagem, mudança de povos e/ou indivíduos de um lugar para outro e como experiência de descentramento do sujeito. 

A convite do Blog do Departamento Maria Laurinda R. Souza escreveu um lindo texto sobre a mesa  A LÍNGUA ERRANTE / O APÁTRIDA.

Confira:


Corpos nômades. Línguas errantes


Maria Laurinda R. Souza

“Passar pelo silêncio e fazer dele sua vida, por esse ponto a que o escritor sempre volta, é ir a um limite da memória, lugar inaugural de um saber que perpassa sua obra: o saber do perdido, a volta aos lugares inóspitos do vazio, para viver com a despossessão, a partir da aprendizagem da incompletude, da não-totalização, que ele atravessa com o impacto de uma escrita, a dele, que é também o testemunho de algo que existe para além do burburinho e do vozerio desse século dos excessos que aponta para o sucesso ilusório da totalização”.[1]

Se começo este comentário com a citação de Ruth Silviano Brandão (2005) a respeito do trabalho de Pascal Quignard, é porque a escuta sobre “A língua errante e/ou o apátrida”,  me remeteu diretamente a esse escritor, ele também, assim como outros nomeados pelos palestrantes ,  marcado pela perda, pelo abandono e pelas catástrofes do século XX – guerras, totalitarismos, nacionalismos, fragmentações, êxodos, despossessões, genocídios, campos de extermínio -,  e que encontrou na arte – especificamente na música - e na literatura uma forma de sobrevivência. Significativamente,  afirmava ele que ”a mão que escreve é, antes, uma mão que escava a linguagem que falta, que tateia em direção à linguagem sobrevivente, que crispa, enerva-se, que, desde a ponta dos dedos, mendiga.”

Língua errante, à busca de sustentação para deslocamentos compulsórios na tentativa de não se imobilizar no vazio, de não enlouquecer. É, portanto, esta vertente, a da possibilidade de transformar a perda da língua materna ou o exílio voluntário ou forçado, na busca de uma língua outra que se torna  obra  literária, que me interessa privilegiar.

Na abertura deste encontro, Nelson introduz o tema propondo uma aproximação entre  a língua errante e o exílio: Será o exilado o apátrida da língua? É de Bárbara Cassin a afirmação de que a marca do exílio é a transformação da relação com a língua; o exílio desnaturaliza a  língua materna e se superpõe a outras duas perdas: o universo das nossas certezas e a certeza do nosso universo.  E se Paul Célan, citado por ele, nos impacta com a declaração de que sua língua materna é a dos assassinos de sua mãe, é porque nele o exílio e o embate com a língua se conjugam, produzindo sofrimento, mas também, criação.

O exílio, diz Caterina Koltai, sempre esteve presente no âmago da criação literária. Como se o escritor precisasse ser, por definição, um deslocado, afastado de seu país, cortado de sua língua materna. Mas, o que pode significar a perda da língua materna? Em sua fala, retoma um texto escrito anteriormente “A língua exilada”, em que se refere a dois autores húngaros: Sandor Márai e Imre Kertesz,, ambos testemunhas involuntárias da catástrofe, ambos capazes de transformar o vazio em capacidade de pensar.

Márai, teve sua obra proibida na própria terra e, ao emigrar para os EUA, em 1948, esquecida e só relembrada após o suicídio em 1989. Ao emigrar perdeu sua terra e seus leitores; perdeu as palavras. Pagou caro por sua liberdade. A língua materna permanecendo como uma ferida presente e sensível.

Um de seus grandes temas foi a amizade. O amigo era para ele uma testemunha, um consolo. Sua dedicação ao tema da amizade é uma das razões pelas quais Caterina Koltai, diz gostar tanto dele. Já em seu texto “Entre psicanálise e história: o testemunho” (2016)[2], Caterina também afirmara que “em situações extremas, quando se é submetido a tratamentos desumanos, algo pode colaborar para manter o fio da vida: a relação de amizade que se tece entre aqueles que estão submetidos ao mesmo destino e lutam pela vida lado a lado” (p.27).

Imre Kertesz, admirador de Márai, nobel de literatura em 2002, foi, ainda adolescente, prisioneiro dos campos de concentração nazistas. Ao sair do campo, com 16 anos, poderia ter emigrado, mas decidiu ficar, só começando a escrever 10 anos depois, também como uma forma de sobrevivência. Em sua obra mais conhecida Sem Destino,  trata da frágil experiência do indivíduo contra a arbitrariedade da história e do poder político. Quando em 1956, muitos decidiram abandonar a Hungria, ele mais uma vez resolveu ficar e continuar a escrever em sua língua materna. Tornou-se, dessa forma, o exilado em seu próprio país, o escritor do impossível. Escreveu para esquecer ainda que as lembranças nunca tenham desaparecido.

Márcio Seligmann-Silva também inicia sua fala convocando a literatura em sua aproximação com a psicanálise: de certo modo, diz ele, a literatura é uma espécie de porteira da cripta – conceito caro a Abraham e Maria Torok  que nos anuncia um impossível de simbolização – sendo que o que habita esse túmulo é o “esquecido” da própria história.  É esse esquecido, continua Márcio, que, muitas vezes,  se encontra na obra de Kafka e nos obriga a ouvir a voz da natureza esquecida, revelando-nos os traumas do indivíduo moderno. É  ao impossível que Kafka se refere quando fala sobre o surgimento de sua literatura, mencionando a  “impossibilidade de  não escrever, a impossibilidade de escrever em alemão, a impossibilidade de escrever de maneira diferente”. E, depois, acrescenta: “a impossibilidade de escrever”.

Nessa “literatura do desloucamento”, assim nomeada por Márcio, que marcou o século dos genocídios, muitos artistas como Kafka vão embaralhar os arquivos,  revelar segredos e romper fronteiras, fazendo-os explodir; o artista quer destruir os arquivos que funcionam como máquinas de destruição.  Bispo do Rosário é lembrado por ele como exemplo, no Brasil,  de um artista anarquivador. Portador de todas as categorias de segregação -  negro, pobre, louco -, rompeu, com sua arte, o exílio que lhe foi impingido.

Jean Améry, outro escritor dessa literatura de testemunho,  mescla, em seu ensaio sobre a tortura,  a análise objetiva da realidade desse “procedimento” com breves relatos subjetivos sobre sua própria experiência. Passou por vários campos de concentração e suicidou-se em 1978 tendo sucumbido àquilo que pode ser considerado como vivência  de desamparo absoluto frente a um poder absoluto – o do torturador. A tortura, disse ele, é o evento mais horrível que um homem pode guardar dentro de si; quem foi torturado permanece como tal. Permanece, para sempre, apátrida. Para sempre condenado ao exílio.

Com outro olhar, Vilém Flusser, que teve todos seus parentes mortos em campos de concentração, constrói uma obra positivando a apatricidade e o exílio, transformando o que poderia ser da ordem do abandono e da exclusão num ato de conquista e liberdade. Para ele, é preciso romper com os laços que nos enraízam e nos cegam e adquirir uma liberdade política e eticamente responsável com o próximo e com suas ligações.  “Pátria, para mim, diz ele, são os homens pelos quais tenho responsabilidade”. 

É uma ética da responsabilidade que se coloca em cheque no depoimento-poema  “Antigamente fomos muitos” de Almires Martins, indígena do povo guarani, e com o qual Seligmann-Silva encerra sua participação nesta mesa.

Se ele iniciou sua fala remetendo-se a Kafka, é com uma referência a ele que Peter Pál Pelbart termina, depois de citar um diálogo imaginário entre Edward Said e Mahmud Darwich, poeta palestino, que encontrou na poesia uma forma de superar o exílio sofrido aos 6 anos, em 1948.

Said: Se eu morrer antes de você, deixo como legado o impossível
Darvich: Está muito longe o impossível?
Said: A uma geração de distância
Peter: É quase Kafka que diz: Há fé, muita,  muita esperança, uma esperança infinita, mas não para nós.

Diálogo que remete a um possível do impossível. Um possível sempre adiado? Onde cada geração poderia dizer não ser ainda o momento?  Não foi essa a impressão que seu discurso nos deixou. Pois, depois de fazer uma aproximação entre o sofrimento do povo judeu e do povo palestino, ambos vítimas de condições históricas tão similares, e se perguntar como escapar da autovitimização competitiva, traz no desenvolvimento que  segue aberturas para o impossível.  Inicialmente pela compreensão de uma estratégia política que mantém essa racionalidade de extermínio do “outro” – palestino, mantendo-se, assim, o poder do Estado judaico e a justificativa para ocupação das terras palestinas,  expulsão de seus moradores e para a recusa à existência de um Estado Palestino. Depois, destacando a importância de que um povo pudesse re-conhecer a narrativa do outro aproximando suas culturas e a legitimidade de suas respectivas alteridades. Proposta também sustentada pelo movimento do próprio Edward Said.

Mas, o discurso mais importante para se pensar essas questões vem da África, enfatiza Pelbart, vem de um pensador negro, Achille Mbembe, em sua obra “Crítica da Razão Negra”. Nela enuncia que a constituição do pensamento europeu sobre o humano é indissociável do surgimento do negro como personagem racial, o que poderia se aplicar também a Israel com relação ao palestino ou ao muçulmano, diz Pelbart.  Judeu, palestino, negro – cada um carrega sua cota particular de desterro. Entre o negro e o judeu há um não-dito; ambos são vítimas da mesma racionalidade, ambos são marcados pela diáspora.

O conceito de raça serviu para diagnosticar a degradação e déficit ontológico de uma população outra ; eles são os menos-ser, necessários para fazer o reconhecimento dos que são.  Capitalismo, nacionalismo e racismo estão intimamente conjugados; somos herdeiros dessas operações.

É de Mbembe a potência da seguinte afirmação: “assim como se pode postular uma vontade de poder, deve-se postular uma vontade de comunidade, mas uma vontade descolonizada”; as diásporas, os deslocamentos, os exílios contemporâneos, podem criar novos fundamentalismos, mas, também, podem criar novos territórios – afetivos e sensíveis.

Retomo, para finalizar este comentário, uma das falas de Caterina Koltai: “Os recursos da literatura, assim como os do inconsciente se reinventam sem cessar na medida em que o poeta é sempre um pouco um profeta, na medida em que seu ouvido se abre no limiar da emergência da linguagem, lá onde chamamos as coisas antes de nomeá-las.”
É na esperança dessa reinvenção incessante que se podem criar deslocamentos possíveis para o que é da ordem do impossível, da ordem do horror.

P.S. Termino com um duplo agradecimento: a Gisela que me fez o convite para escrever para o Blog do Departamento  comentando esta mesa e, a Caterina, Márcio e Peter  pela generosa apresentação de suas falas e pela inspiração a buscar, nos autores citados, suas produções, o que me produziu muito encantamento.
   


[1] Brandão, R. S. “Pascal Quignard: escrever é ouvir a palavra perdida”. www.scielo.br/scielo.php

[2] Revista de Psicologia da USP, www.scielo.br/pusp


M. Laurinda R. Souza é professora do curso de Psicanálise pelo Departamento de Psicanálise do Sedes Sapientiae. Autora, entre outros, de Violência, Casa do Psicólogo, 2005 e Vertentes da Psicanálise, Pearson, 2017.
             

sexta-feira, 15 de junho de 2018

Seriam os objetos mediadores capazes de burlar o trabalho do negativo presente no funcionamento psíquico dos pacientes-limite?



Em 16 de abril o Departamento de Psicanalise realizou  no Sedes Sapientiae o evento  "ANNE BRUN - MEDIAÇÃO E COMPOSIÇÃO GRUPAL. Anne Brun é uma das mais importantes pesquisadoras do uso de objetos mediadores em tratamentos psicanalíticos. 

Camila Junqueira escreveu um ótimo texto sobre o evento a convite do Blog do Departamento.

Confiram!!




Seriam os objetos mediadores capazes de burlar o trabalho do negativo presente no funcionamento psíquico dos pacientes-limite?


Camila Junqueira

Que analista nunca ficou perplexo diante das atuações de um paciente? Rupturas abruptas, silêncios prolongados e vazios, confusões com horários e pagamentos, ausências frequentes, recados nas secretárias eletrônicas ou no Whatsapp, entre outras angústias transferidas sobre o enquadre. Com a ampliação dos limites da analisabilidade a partir da década de 60, muito se produziu para ampliar nossa compreensão acerca do vasto campo das patologias-limites, que de forma geral descarregam no corpo e em atos os traumas precoces que não conseguem metabolizar. São grandes os avanços metapsicológicos no que tangem a compreensão dos traumas primários e dos processos de simbolização - movimento que tenho me dedicado a estudar há mais de uma década - mas ainda cabem muitas questões, especialmente as ligadas ao manejo clínico desses casos.

Foi nesse contexto que me inscrevi no evento realizado no Sedes Sapientiae em 16 de abril último pelo Departamento de Psicanálise, cuja convidada era Anne Brun da Universidade de Lyon 2, uma das mais importantes pesquisadoras do uso de objetos mediadores em tratamentos psicanalíticos e que em 2013, junto com Bernard Chouvier e Rene Roussillon,  publicou um livro  sobre o tema[i]. Anne Brun realizou uma instigante apresentação de suas ideias, ofertando-nos sementes para refletirmos sobre o manejo de um amplo espectro de pacientes não apenas nas instituições, mas também em nossos consultórios. Para ela a utilização de mediadores em processos analíticos grupais é especialmente importante no tratamento de traumas precoces que estão na base das psicoses, das patologias do agir violento, da antissociabilidade grave, do autismo e da psicossomática, situações que estão no limite da subjetividade. Mas, me pergunto, se tal trabalho pode trazer inspiração para o amplo espectro de patologias-limites.

Segundo Anne Brun, do ponto de vista histórico, esses mediadores passaram a ser incluídos nos processos analíticos grupais diante da insuficiência dos dispositivos baseados na linguagem verbal, sendo utilizados há várias décadas por terapeutas ocupacionais e arte terapeutas sem uma sustentação teórica articulada com a teoria psicanalítica. Até há pouco tempo atrás os psicanalistas não tinham participação direta nos grupos onde esses materiais eram utilizados, estando presentes apenas nas supervisões. Para ela, assim como para Bernard Chouvier e René Roussillon, o psicanalista deve participar dos grupos, pois a ênfase não será mais sobre os produtos analisados à posteriori e sim sobre o processo de utilização desses objetos mediadores na sessão. Afinal, o que faz deles objetos mediadores é o fato de estarem submetidos à associatividade e à transferência, fatores fundantes do processo analítico. E quando a associatividade verbal está pouco desenvolvida a atenção do analista recai sobre a associatividade não verbal, o que Roussillon chama de mimo-gesto-postural, e que no grupo vai aparecer através das relações interpessoais e da utilização dos objetos mediadores.

A ideia de objetos mediadores é herdeira direta do conceito de ‘meio maleável’ introduzido por Marion Milner. Pesquisando um pouco mais sobre esse conceito[ii] percebe-se que o ‘meio maleável’ pode ser definido como uma substância concreta através da qual as impressões sensoriais ganham sentido. Assim, o ‘meio maleável’ pode ser argila, papéis, tintas, etc., mas também o enquadre e o analista, seu corpo e sua psique. Roussillon (1991)[iii] procura aprofundar a definição do conceito atribuindo-lhe certas características como indestrutibilidade (sobrevivência à agressividade necessária à separação), extrema sensibilidade, capacidade de se transformar indefinidamente, disponibilidade incondicional e vida própria. Essas duas últimas características podem parecer um tanto contraditórias, mas na realidade, o ‘meio malevável’ pode ser compreendido como a mãe suficientemente boa que ajuda a estabelecer progressivamente as experiências de desfusão e desilusão necessárias à formação do sujeito. E tal como a mãe, o ‘meio maleável’, constituído na sessão por objetos mediadores, vai exercer a função de para-excitação transformando a quantidade em qualidade e a força em sentido!

O que Anne Brun nos apresenta tem como pano de fundo uma ideia desenvolvida por Roussillon de que a transferência, sobretudo a transferência dos aspectos mais primitivos, se dá sobre a totalidade do enquadre[iv]. No trabalho que ela relata há ainda a potente ação do grupo. Haverá, portanto, uma constelação transferencial formada pelos membros do grupo, pelos analistas, pelo ‘meio maleável’, e pelas relações que se produzem. O objeto nunca será mediador em si mesmo, sempre dependerá das relações em que se insere e das simbolizações que ele possibilita através dessas relações. Os aspectos sensoriais dos objetos mediadores estimulam uma memória arcaica e permitem a expressão do mais primitivo, das experiências catastróficas que vão se reatualizar pela materialidade do ‘meio maleável’ e que acontece dentro do contexto grupal composto por outros pacientes e também pelos analistas. Nesse sentido, as percepções contratransferências dos analistas ganham relevo, e são o eco daquilo que é lançado pelos pacientes – para Anne Brun o que se produz na utilização do ‘meio maleável’ são mensagens (sensoriais) a espera de tradução (em palavras). Contudo, nem toda contratransferência aparece sob forma de pensamento, parte dela, aparece no corpo dos analistas. Anne Brun denomina essa transformação de ‘transposição sensorial’.

Em sua apresentação Anne Brun relata também trechos de um trabalho com um grupo de três pacientes e três analistas, cujos progressos em termos relacionais foram perceptíveis na vida destes pacientes.  O paciente autista após três anos de trabalho passa a desenhar figuras humanas e ao final do grupo consegue participar de todas as atividades da residência terapêutica. Anne Brun aponta mudanças evidentes na reflexividade desses pacientes, em sua capacidade de se sentir, de se ver e de se escutar, concluindo que nesse grupo em que os pacientes a princípio não possuíam um sujeito realizaram uma apropriação subjetiva de si mesmos.

Para os que desejam compreender melhor a delicadeza deste processo é interessante assistir sua apresentação que está disponível do site do Departamento[v], bem como ler ser artigo, publicado em 2015 pela Revista de Psicopatologia Fundamental, em que ela relata o trabalho com um grupo de crianças psicóticas[vi].

Resta ainda a questão da utilização dos objetos mediadores com pacientes-limites. Em que medida esse trabalho pode ser potencializador do processo analítico com pacientes que possuem fortes cisões? Já sabemos que essas patologias denominadas de ‘limites’ e que se situam aquém das neuroses tendem a se expressar no corpo e nos atos, sendo também denominadas de ‘patologias do agir’. Poderia os objetos mediadores operar como uma espécie de captadores dessas angústias que recaem no ato e por vezes transbordam sobre o enquadre por ausência de simbolização? O processo do fazer na sessão dentro de uma relação intersubjetiva onde há investimento por parte do analista, olhar, nomeação e afetos, poderá ativar o processo de simbolização, da ligação dos traços sensoriais à pulsão? Anne Brun baseia seu trabalho com objetos mediadores na ideia da associatividade como princípio central do processo analítico. Porém, se acompanhamos os desenvolvimentos de André Green acerca do funcionamento do pacientes-limites, encontraremos a descrição da ‘posição fóbica central’[vii] como a presença de um certo tipo de trabalho do negativo  no psiquismo desses pacientes impedindo justamente ‘a arborescência das cadeias associativas’; um trabalho do negativo que realiza um desinvestimento do processo simbolizante. Seriam os objetos mediadores capazes de burlar tal negatividade e permitir a retomada dos processos de simbolização? Só a pesquisa clínica poderá nos responder a essa questão.




[1] Brun, A.; Chouvier, B.; Roussillon, R (2013) Manuel des médiations thérapeutiques, Paris: Dunod
[1] http://theses.univ-lyon2.fr/documents/getpart.php?id=lyon2.2010.rey_b&part=368267
[1] ROUSSILLON R. (1991), Un paradoxe de la représentation: le médium malléable et la pulsion d’emprise, in Paradoxes et situations limites de la psychanalyse, Paris, Presses Universitaires de France, p. 130-146.
[1] https://reneroussillon.com/cadre-dispositif/le-langage-du-cadre-et-le-transfert-sur-le-cadre/
[1] ttp://www.sedes.org.br/Departamentos/Psicanalise/index.php?mpg=07.08.03&acao=ver&id=87&pg=
[1] http://sbpdepa.org.br/site/wp-content/uploads/2017/03/A-Posi%C3%A7%C3%A3o-F%C3%B3bica-Central.pdf


Camila Junqueira é psicanalista, doutora e pós-doutora pelo Instituto de Psicologia da USP e  membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae.


terça-feira, 15 de maio de 2018

Leitura e informação: meios de se combater o racismo

Leitura e informação: meios de se combater o racismo

Em setembro de 2017 foi lançado o livro O racismo e o negro no Brasil: questões para a psicanálise
organizado por nossas colegas de Departamento Noemi Moritz Kon, Maria Lúcia da Silva e Cristiane Curi Abud. O livro é um desdobramento do ciclo de palestras realizado em 2012 pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientae sobre o racismo e o preconceito no Brasil e se propõe investigar as  "marcas psicológicas do racismo, seus efeitos na formação subjetiva, assim como o papel da psicanálise nesse contexto".
E olha só que legal: o Clube do livro Panacéia (www.panaceiaclube.com.br), por meio de uma de suas curadoras, a psicanalista Maria Rita khel,  recomendou a sua leitura. Vale a pena dar uma olhada, ainda mais neste mês em que lembramos a assinatura da Lei Aurea em 1888. Já se passaram 130 da abolição da escravatura, mas esse capítulo da nossa história deixou marcas importantes na sociedade brasileira e o racismo ainda está longe de ser abolido.




segunda-feira, 14 de maio de 2018

Tentativa de quê?


Tentativa de quê?
Bruno Esposito, Laís Lima, Alessandra Balaban, Natalia Cruz Rufino

Falamos a partir de uma experiência clínico-institucional com adolescentes e seus familiares, que são, muitas vezes, encaminhados após uma tentativa de suicídio. Recebemos pais e jovens em estado de urgência, criando-nos um impasse constante. No caso desta urgência ser aceita, passamos a tomar medidas como a intervenção medicamentosa, internação domiciliar ou hospitalar e a realização de diagnósticos precipitados. Por outro lado, uma postura analítica demasiadamente passiva e não responsiva pode lançar pacientes e familiares em um perigoso vazio, colocando em risco a vida desses adolescentes.

Tomaremos aqui a adolescência como um trabalho intenso do psiquismo. Este período da vida, para Freud1, irrompe “como se escavasse um túnel numa montanha” (p. 195) - ao entrar nesse túnel perfurado de ambos os lados, torna-se necessário sair, renascer de outro jeito. Entra-se como um, mas nunca é possível sair do mesmo modo. O adolescente busca uma nova língua, um modo novo de dizer de si; ocorre que as autenticações que ele encontra para essa nova língua tendem, em nossa atualidade, a qualificar qualquer manifestação como sinal de uma doença.

A crise do adolescente não se encerra nele mesmo. À medida que os adolescentes fazem a travessia, os pais podem ou não se reenviar para a própria história desejante, para sua conjugalidade, sexualidade e sua própria adolescência, trazendo aí mais uma delicada passagem.

Aquilo que Eriksson2  denominou de “moratória do adolescente” – momento de suspensão temporal para a satisfação futura – é o insuportável na contemporaneidade. Vigora a crença de que é possível e necessária a satisfação de todas as solicitações desses jovens. Solicitações que são substancializadas: inúmeros pedidos como piercings, tatuagens, celulares e roupas são atendidos imediatamente, sem questionamento, anulando assim a metonímia intrínseca ao desejo (raramente há uma pergunta a respeito do por que e do para quê o jovem afirma querer estes objetos). Não há uma relativização da palavra - a palavra não é escutada como metáfora - e assim a expressão “vontade de morrer” é tomada ao pé da letra e não, por exemplo, como uma tentativa de se saber o lugar que se ocupa no desejo do outro.

Nesta lógica imediatista, há uma tentativa incessante de suprir a falta, sem conseguir positivá-la como aquilo que promove o desejo, o crescimento e a capacidade de se virar na vida (“meu filho vai ter tudo que não tive, não quero que passe pelo que passei”). Do lado do adolescente, a rapidez em conhecer, o fluxo acelerado das informações e a intolerância com aquilo que escapa incita-o a uma “desinscrição do impossível”³ , mantendo o engodo imaginário de que tudo se pode. Quando o limite se impõe, a reação dos jovens é explosiva, impulsiva e compulsiva.

Outro aspecto, bastante perceptível em nossa clínica, diz respeito ao borramento da hierarquia familiar. Os pais aparecem como pares, como iguais, sentem-se premidos a exercer um papel de extrema tolerância, promovendo um ambiente marcado pela liberdade, compreensão, permissividade e intimidade excessiva. Esse extremo favorece o seu avesso: excesso de presença e de ausência se alternam em vários momentos. Ora os jovens são protegidos e investidos maciçamente, como único projeto de vida desses pais,  ora são abandonados à própria sorte, “a vida ensina”, dizem eles.

Esta dicotomia também fica evidente no que diz respeito à produção de um saber a respeito dos filhos: ou se sabe tudo (“meu filho é meu melhor amigo”) ou não se sabe nada (várias mutilações no corpo que sequer são percebidas). Uma pesquisa israelense recente contrapôs relatos de mães e adolescentes sobre a presença de comportamentos suicidas, evidenciando o desconhecimento contundente das mães sobre esses comportamentos. Os jovens relatam três vezes mais a presença desses atos em relação a suas mães4.

Encontramo-nos com pais que reconhecem a turbulência deste período apenas quando a suposta tentativa da morte bate em sua porta; a morte aparece como única solicitação que não pode ser atendida. A partir daí, delegam ao profissional que sancione e revele o que se passa com seu filho, numa espécie de despossessão de saber acerca dos mesmos. Isto vai ao encontro da crença social de que se é possível encontrar uma verdade universal a respeito do sofrimento psíquico e de que este saber está fora da família, na internet, na medicina, na ciência. Há uma terceirização do saber, que é massificado o tempo todo. Neste sentido, o sintoma que deveria ter a função de fazer singularidade e ser formação de compromisso passa a ser pertencimento grupal, formação de parceria.

Assim, encontramos uma banalização por parte dos adolescentes do risco que as tentativas de suicídio representam. Estes adolescentes passam a pertencer a grupos dos que se cortam, que ingerem medicamentos em excesso, que tentam se matar. A tentativa de suicídio aparece como uma solução identificatória possível, uma possibilidade de parceria que é próprio da adolescência.

A partir da constatação de que a questão identitária é fundamental na adolescência e se mostra especialmente problemática nesses pacientes, os dispositivos grupais foram se tornando uma das principais ferramentas de intervenção na nossa clínica. Desde a formalização do contrato de tratamento, a proposta grupal tem sido bem acolhida tanto por parte dos jovens como pelos pais – porque estes também participam de grupos de família. A estratégia de grupos tem se mostrado fundamental na aderência ao tratamento, diminuindo sensivelmente os casos de abandono.

Nos grupos, observamos que o discurso sobre o suicídio rapidamente se desdobra em outras temáticas, que podem fazer referência a assuntos mais complexos como conflitos familiares, términos de namoro, questionamentos sobre a existência, assim como assuntos aparentemente muito triviais como marcas de celular, cor de cabelo, piercings, roupas de marca, discussões sobre política e gostos musicais. Nessa fluidez discursiva, os adolescentes vão assumindo uns em relação aos outros diferentes posições: parceiro, conselheiro, autoridade, piadista, experiente ou aprendiz.

“Eu tenho certeza de que sou muito insegura, isto é da minha depressão”, diz Ana. “Como você pode ter tanta certeza assim se você é insegura?”, pontua Maria. “Tentei me matar tomando vários comprimidos, mas a minha mãe descobriu porque achou as cartelas em cima da mesa”, diz Maria em outro momento. “Se você quisesse se matar mesmo, você não deixaria pistas, você já percebeu que você quer bronca o tempo todo?”, questiona Laura. No movimento grupal, se restitui o valor metafórico da palavra quando, por exemplo, a morte ou a psicopatologia passam a ter outros sentidos e um dos aspectos primordiais da contundência dessas intervenções diz respeito ao fato delas serem protagonizadas pelos próprios pacientes, ganhando lugar cada vez mais de pares e de autores do próprio saber (o saber não está mais só com os pais ou os médicos).

A posição dos adolescentes em relação aos pais também vai sendo modificada. De plenos, parceiros e amigos, como bem ilustra a frase de Carlos (“amor é só de pai e mãe”), as figuras parentais passam a ser questionadas, adquirindo um novo estatuto. Aparecem suas falhas, seus impasses, seus outros desejos... E Carlos passa a fazer amigos e namorar. Os grupos de família, por sua vez, tem o valor de restituir aos pais seu lugar de autoridade, do estabelecimento de limites, da importância de frustrar, de assumir a impossibilidade de ser tudo para o filho. Não é raro percebermos como, com o tempo, esses pais se recolocam no mundo de outra forma, voltando a trabalhar, interrogando sua vida conjugal, etc.

No contexto da adolescência, a evolução favorável de muitos desses casos nos faz questionar: a tentativa é de quê? Trata-se realmente de suicídio e do mortífero ou de tentativa de ato relacional, de parceria, de valorização da falta, da capacidade de suportar o sofrimento, de fazer furo no saber absoluto? Manter a vivacidade desses questionamentos nos parece o combustível necessário a essa clínica, para que a adolescência possa ser vivida como uma crise que produza múltiplas saídas e significações.

1 FREUD, S. Três ensaios sobre a teoria da sexualidade (1905). In Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud: Editora Standard Brasileira. Rio de Janeiro: Imago, 1996, v. 7, pp. 129-251.
2 ERIKSON, E. Identidade, juventude e crise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1976.
3 LEBRUN, J. Um mundo sem limite. Rio de Janeiro: Cia. de Freud, 2004.
4 ZALSMAN, G. et. al. Maternal versus adolescent reports of suicidal behaviors: a nationwide survey in Israel. In Eur Child Adolesc Psychiatry, 2016, dez., 25(12), pp. 1349-1359.

Alessandra Balaban é psicóloga e mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP. É psicóloga do CRIA, onde atua desde o início da instituição.

Bruno Esposito é psicanalista, psicólogo do CRIA-UNIFESP e especialista em “Saúde Mental e Saúde Coletiva” pelo Departamento de Medicina Preventiva e Social da UNICAMP.

Laís de Lima é psicóloga (PUC/SP), psicanalista e especialista em Psicologia da Saúde (UNIFESP) e em Psicanálise e Linguagem (PUC/SP). Aprimoramento em entrevistas iniciais (UNIFESP)

Natalia Cruz Rufino é psiquiatra e coordenadora do programa de atendimento a adolescentes do CRIA/UNIFESP.