Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae

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O Blog do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae é um dos veículos de comunicação em que circulam informações, produção de conhecimento, experiências clínicas e de pesquisa de seus diferentes membros. A interlocução com o público, dentro e fora do Departamento, é uma maneira de disseminar a troca no campo da Psicanálise e possibilitar a ampliação do alcance das reflexões em pauta. Fazem parte da equipe do Blog: Ana Carolina Vasarhelyi de Paula Santos, Fernanda Borges e Gisela Haddad.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

15 anos da Coleção Clínica Psicanalítica

Aconteceu no último dia 28 de novembro, na Livraria Cultura do Shopping Villa Lobos, o evento que comemorou os 15 anos da Coleção Clinica Psicanalítica, cujo editor é Flavio Ferraz. Foram 81 livros lançados, sendo quase a metade escrita por membros do Departamento de Psicanálise.  Renata Cromberg, que participou da gestação e se tornou grande incentivadora desta coleção preparou uma fala entre amorosa e poética para  relata o percurso desta inusitada edição de livros. O Blog do Departamento apresenta uma versão resumida deste texto. Confiram!!! 



15 anos da Coleção Clínica Psicanalítica – 80 livros +1

A primeira memória foi a memória-caranguejo. Crab era o nome do restaurante na Vila Madalena, quando em 1999 comemoramos a definição dos sete primeiros livros da coleção e o aceite da então Editora Casa do Psicólogo.

Cravada na memória, tenho a cena de Helena Tassara proseando com Flávio, que contou-lhe hesitante a ideia da coleção de 15 volumes que estava pensando em organizar. Lembro-me do rosto de regozijo e alegria de Flavio que espero nos acompanhe muito ainda através de suas estrepolias criativas.

Comecei então depurando as memórias relativas ao convite feito a mim para escrever Paranoia e o processo de escritura e edição deste meu primeiro livro para retirar delas aquilo que imaginei ser comum com os outros autores da coleção. Imediatamente decidi que teria que falar do Flavio como criador e editor da coleção, mas como fazê-lo de uma forma que fugisse a imagem do pai, como não transformá-lo na imagem ambivalente totêmica, o que não seria justo para o Flavio autor que escreveu questionando o primado do masculino? Como falar com legitimidade da produção escrita da coleção de uma forma que devolvesse aos autores, ao editor e a editora  ao menos uma possibilidade de formar uma imagem da interligação dos livros entre si na sua multiplicidade o que ao menos exprimiria a existência de uma força aglutinante em constante movimento e transformação?
Como método de trabalho resolvi ler o índice e prefácio ou introdução dos livros da coleção que eu tinha comigo. Foi aí que me deparei com o comovente, amoroso e poético prefácio de Rubens Volich ao livro Ensaios Psicanalíticos do Flávio que veio de encontro a todos os adjetivos que estavam se formando em mim para descrever a presença de editor de Flávio.
Vou me utilizar da imagem da árvore. Certamente de imediato evoca a imagem que dá título a obra de Renato Mezan, O tronco e os ramos, que acabou de ganhar merecida e incontestavelmente o primeiro lugar no Prêmio Jabuti na categoria Psicologia, Psicanálise e Comportamento, em um ano em que, entre os dez finalistas, 7 ou 8 eram livros de psicanálise que conquistaram os três primeiros lugares. O que significa uma afirmação do campo psicanalítico no campo cultural. Tive a satisfação de estar entre estes indicados e agradeço a Renato e Flávio, dois grandes incentivadores nos primórdios da minha escrita.
Mas a árvore que se formou em mim, além do tronco e dos inúmeros ramos, se prolonga pela terra com múltiplas raízes e se abre para o céu em múltiplas folhas. Uma árvore viva em que a seiva brota da terra, circula pelo tronco e se transforma no oxigênio que se expande pelo ar que traz novos elementos que caem na terra formando novamente a seiva que alimenta a árvore em conexão com o ambiente. Em relação a Coleção, Flavio é com certeza esta árvore generosa. A coleção se desdobra como árvore desta árvore, onde cada livro seria uma folhinha, sendo Flavio o fecundador, aquele que enxergava a fecundação e o fruto virtual em cada um de nós e  tranquilamente esperava maturar para fazer vir a luz, corrigindo minuciosamente os originais, zeloso, presente junto as duas pontas de produção, o autor e a editora, revisando incansavelmente os textos mais rústicos, para que se tornassem os mais belos e saborosos frutos.

Uma outra possibilidade de pensar a partir da imagem da árvore que criei é pensar com Rubens como as múltiplas raízes da árvore que é Flávio são os andarilhos de Cambuí, sua terra natal, os loucos de rua que desde cedo tornaram-se múltiplos enigmas para o menino. Devemos a este enigma que a curiosidade do menino formulou, este encontro com a psicanálise que permitiu vislumbrar a loucura como uma forma particular pela qual o sujeito exprime uma verdade, enigma que como todo enigma de verdade, sobre a verdade, encontra criativas, múltiplas e intermináveis respostas e é por causa dele que temos sua criação de uma coleção cujos  livros/ folhas ressoam os caminhos e falas dos andarilhos de Cambuí em psicopatologias múltiplas e é por isso que eu pessoalmente acho que a coleção vai passar dos cem volumes.

A árvore serve para pensar também a maneira como Flávio pensou o eixo uniformizante dos livros na autoria singular de cada um: o tronco dos elementos teóricos freudianos conduzem a uma psicanálise contemporânea, aos desdobramento em outros autores psicanalíticos e outros campos de saber a partir de raízes pré-freudianas históricas, filosóficas. literárias e médicas. A seiva é a experiência clínica de cada autor, sempre presente a cada livro.

Quando Freud fala a Jung que a psicanálise se fará per se e não deve se influenciar nem pela biologia e nem pela filosofia, o faz num momento de consolidação do campo conceitual e metapsicológico novo. Uma vez consolidado este campo, sabemos que na contemporaneidade a psicanálise só se fará per se, se estiver transdisciplinarmente compondo com outros campos de saber como a física, a filosofia, a psiquiatria, a medicina, a biologia, a genética, a linguística, a fonoaudiologia, as ciência sociais, a educação, etc..., sendo muitas vezes o ponto de partida ou o de chegada, ampliando seu escopo clínico sem mais separar o ouro puro da análise de divã no consultório e o cobre da psicoterapia individual ou em grupo e examinando os pontos comuns e as diferenças em seus vários ramos advindos das teorias dos clínicos e teóricos das gerações que se seguiram a Freud em sua contribuição à ampliação da compreensão do sofrimento humano.

Em viagem de pesquisa, na biblioteca de Zurique, folheando os originais das primeiras publicações psicanalíticas, coloquei lado a lado a multiplicidade de campos que compunham as revistas, verdadeiros livros onde se delineava a psicopatologia psicanalítica, mas também se resenhava livros de campos afins como a neurologia, a psiquiatria, a hipnose ou a educação e se divulgava congressos desses campos, visualizei a coleção como um desdobramento deste espírito inaugural, numa imagem muito parecida com a que Gisela Haddad fez para divulgar no Facebook , com todos os livros desta coleção juntos, ou da foto da revista Brasileiros com Flavio ao centro de todos os livros em espiral.

Apresento assim os ramos que se formaram na minha árvore/coleção e que aglutinaram a folhagem dos livros:
1. A coleção começou com uma abordagem baseada na psicopatologia tradicional, que emergiu do campo nascente da psiquiatria, mas que logo foi transformada pela instauração da psicanálise no coração da psiquiatria, como aponta Alexandra Sterian, até os anos 30 do século 20: Perversão, Psicossomática, Emergências psiquiátricas, Depressão, Paranoia, Psicopatia, Neurose Traumática, Autismo, Esquizofrenia, Fobia, Hipocondria, Histeria, Neurose Obsessiva. (13)
2. Mas desde seu início a coleção ampliou o espectro da psicopatologia psicanalítica abarcando novos quadros a partir das mudanças sociais e culturais que redefiniram as subjetividades ao longo do século XX e começo do XXI, assim como as formas de expressão do pathos humano, enquanto excesso causador de sofrimento: Borderline, Problemas da Identidade Sexual, Disfunções Sexuais, Transexualidades, Estresse, Normopatia, Epistemopatia, Demências, Tatuagem e marcas corporais, Neurose e Não Neurose, Crise pseudoepiléptica, Adições, Ideoalcoolismo. (13)
3. Trouxe um olhar psicanalítico, uma lente aumentada quanto ao específico que organiza a cena do sofrimento psíquico em sintomas, transtornos, distúrbios e disfunções : Transtornos da excreção, Transtornos alimentares, Distúrbios do sono, Transtornos de pânico, Sintoma (5)
4. Trouxe a clínica a partir dos grandes temas que organizam os processos de humanização tal como visto pela psicanálise: Morte, Desamparo, Cena Incestuosa, Corpo, Ressentimento, Violência, Violência e masculinidade, Adolescência, Complexo de Édipo, Linguagens e pensamento, Problemas de linguagem, Acontecimento e linguagem, Narcisismo e vínculos, A trama do olhar, O tempo e o ato na Perversão, Amor e fidelidade, Imitação. (17)
5. Trouxe o foco para questões técnicas específicas e metapsicológicas da clínica psicanalítica: Desafios para a técnica psicanalítica, Entrevistas preliminares em psicanálise, Término da análise, O tempo, a escuta e o feminino, Transferência e Contratransferência, Ecos da Clínica, Pós - análise, Ensaios Metapsicológicos e clínicos e Ensaios Psicanalíticos. (9)
6. Ampliou o espectro da clínica tradicional dos primordios para novos campos que não utilizam somente os conceitos psicanalíticos, mas formulam novas conceitualizações, uma clínica mais em contato com as possibilidades e necessidades de novas configurações dos aparelhos de saúde coletiva que permitem a expansão da psicanálise para a Escola, o Hospital, para grupos e classes sociais diversos e para o campo do trabalho humano: Psicoterapia breve, Clínica da Exclusão, Clínica do Trabalho, Saúde do trabalhador, Psicologia Hospitalar e Psicanálise, Orientação Profissional e Acompanhamento Terapêutico (7)
7. Trouxe a expansão da psicanálise para novas e diversas configurações familiares  e novos terrenos propícios ao sofrimento psíquico que o campo psicanalítico se vê potente a abarcar: Adoção, Infertilidade e Reprodução assistida, Psicoterapia de casal, Psicanálise da Familia, Incestualidade, Familias Monoparentais, (6)
8. Trouxe temas específicos de psicanalistas pós-freudianos que ampliaram de maneira significativa com novos conceitos o campo de aprofundamento do sofrimento humano e trouxeram novas formas de abordá-lo: Winnicott nas Consultas terapêuticas e na Autorização e angústia de Influência, Bion, no Trabalho do Negativo, e em Clínica do continente  e Fairbain. (5)
9. Trouxe o social e o político como constituinte do Inconsciente e da subjetividade gerando, sobretudo na contemporaneidade novos modos de abordagem do sofrimento psíquico: Anomia, Tortura, Inconsciente Social, Psicanálise e Música, Cidade e Subjetividade, Crítica a Normalização da Psicanálise (6)

A coleção que começou majoritariamente com autores de São Paulo e do Instituto Sedes Sapientiae logo se expandiu para outras instituições em São Paulo e outros estados. Dos 67 autores, 34 pertencem ao Instituto Sedes Sapientiae, em São Paulo, em seus vários Departamentos e cursos, 9 pertencem a Sociedade Brasileira de Psicanálise em São Paulo, 6 pertencem a PUC de São Paulo  e dois pertencem a USP de São Paulo. Há 16 autores pertencentes a várias instituições de outros estados : 4 de Minas Gerais, 4 de Pernambuco, 4 do Rio de Janeiro,  1 de Santa Catarina e 3 do Rio Grande do Sul.
Cada um de nós, autor singular, neste encontro de congratulações recíprocas, estamos juntos, em festa e alegria, celebrando uma comunidade viva e orgânica, que se renova  e se vivifica a cada lançamento da Coleção.

Escrever é antes de mais nada um apelo pulsional de cada um por expressão linguajeira na criação singular que encontra o Outro como mediador e enlaçador no fazer cultural de um campo social. Assim se dá o encontro com a possibilidade de alguma comunicação com outros que vieram antes de nós e escreveram, que virão depois de nós e escreverão, ampliando o trabalho civilizatório. Escrever é intensamente prazeroso, mas, vindo do pulsional, não é fácil: implica confrontar-se com o vazio originário, o silêncio, a angústia e o gozo que fazem brotar a palavra encadeada em linguagem. À Flávio, à antiga Editora Casa do Psicólogo, que virou nosso nome-fantasia, marca originária de uma casa primeira, a nossa casa atual Editora Pearson Clinical, que nos abriga, nos valoriza e nos reconhece com esta grande festa, a estes três agentes que nos enlaçaram e enlaçam permitindo que contemos nossas histórias e com isso continuemos a transmitir a psicanálise acho que posso dizer em nome dos autores, nosso muito obrigada. 

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