Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae

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São Paulo, SP, Brazil
O Blog do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae é um dos veículos de comunicação em que circulam informações, produção de conhecimento, experiências clínicas e de pesquisa de seus diferentes membros. A interlocução com o público, dentro e fora do Departamento, é uma maneira de disseminar a troca no campo da Psicanálise e possibilitar a ampliação do alcance das reflexões em pauta. Fazem parte da equipe do Blog: Ana Carolina Vasarhelyi de Paula Santos, Fernanda Borges e Gisela Haddad.

sexta-feira, 10 de junho de 2016

O fenômeno da imigração e clínica psicanalítica

O fenômeno migratório tem chamado a atenção do mundo e a acolhida dos imigrantes tem sido tema de intenso debate no mundo. Diante deste cenário, o Blog do Departamento conversou com a equipe do Projeto Ponte da Clínica do Instituto Sedes Sapientae para saber o que faz um psicanalista na clínica com imigrantes e migrantes. Confiram a seguir:

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Projeto Ponte: atendimento psicanalítico para imigrantes e migrantes
O projeto Ponte funciona há 6 anos na Clínica Psicológica do Instituto Sedes Sapientiae, realizando uma clínica que articula psicanálise e migração, ou seja acreditando na especificidade da escuta dos sujeitos migrantes cuja singularidade aponta para os efeitos do deslocamento, ao deixar para trás um espaço familiar para ir em busca de um espaço estrangeiro. São imigrantes, refugiados, “sem papéis”, exilados, migrantes internos, estudantes e profissionais temporários, brasileiros retornados, cujo discurso comum é a “busca pela terra prometida”, como um movimento inerente ao humano e ao deslocamento do desejo. Uma fala que atravessa o migrante e o impele a deslocar-se muitas vezes, mesmo sob péssimas condições, muitas vezes submetendo se aos coiotes, ao tráfico humano, à prostituição, à exploração laboral etc.
Alguns aceitam  viver em condições desumanas nos campos de refugiados, onde famílias inteiras ocupam-se  em sobreviver na esperança de encontrar um lugar melhor,  muitas vezes idealizando estas condições que nem sempre os países de acolhida oferecem. Entretanto, do ponto de vista da subjetividade, todo migrante reconhece de forma mais ou menos consciente um limite: não era mais possível viver no país de origem. Era necessário deixar a família, a língua materna e ir além do familiar.

Migrar na atualidade
O tema das migrações e as consequências destes deslocamentos estão na pauta das discussões na contemporaneidade, pela extensão e aprofundamento do fenômeno migratório como efeito político de um mundo globalizado. Ouve-se e assiste-se a luta diária dos refugiados na Europa provindos de vários países da África, Síria, Irã, mas é bom que não esqueçamos que em nosso continente americano isto também ocorre há muito tempo, principalmente entre países como México e Estados Unidos, entre vizinhos do MERCOSUL e do Pacto Andino, o mais recente drama dos refugiados haitianos, colombianos e sírios, ou a migração de pessoas deste continente para a Europa.
Os motivos da migração são inúmeros, ora privilegiando aspectos econômicos, sociais, de trabalho ou de estudo, ou ainda por fatores  políticos, sexuais, de violência ou perseguições religiosas, ou mesmo por necessidade e desejo de mudança de vida.

Conhecer a história real
Migrar é um fenômeno humano que acontece desde os primórdios da civilização, embora a cada momento histórico os fatores de deslocamento precisem ser pensados e articulados à história de cada povo e de cada sujeito. Isto é sem dúvida um dos nossos desafios clínicos, ou seja, a necessidade de conhecer algo da realidade histórica e cultural do país de origem de cada um, sem abandonar o pressuposto psicanalítico da escuta do ficcional, da fantasia, do latente. É, portanto imprescindível elucidar a articulação entre a vida anterior à migração e os efeitos e ecos no país de acolhida, assim como considerar os efeitos dessa ruptura ocorrida na realidade desse sujeito que impõe um antes e um depois temporal e geográfico que, em geral aponta para um lugar, uma posição subjetiva que é o deslocar-se.
O migrante que chega ao Brasil, quase sempre desconhece a história violenta de nossa colonização frente às culturas originárias, assim como os efeitos políticos e econômicos desta história, e as fantasias que acompanham os brasileiros confrontados com o estrangeiro. Desconhecem  que nosso movimento de colonização inclui anos de escravidão e racismo e que há uma violência e certo despojamento em relação às línguas faladas pelos nativos  ou pelos escravos assim como pelas suas religiões , organização social e tipo de relação com o tempo e o espaço que as diferentes culturas tinham.
Muitos dos migrantes que atendemos sentem os efeitos desta fantasia nacional que se transforma em discriminação e violência, mas se traduzem também em sedução, cordialidade e horror frente ao estrangeiro. Também se surpreendem com o paradoxal racismo frente aos migrantes provindos de países da África como Guiné Bissau, Cabo Verde, Angola, Senegal, República Democrática do Congo, Burundi  e se questionam  se isto se estende a eles próprios, à sua presença ou à estranheza que sua língua e cultura provocam.

Miscigenação, mestiçagem ou diferenças?
Ainda que a coexistência de culturas indígenas, africanas, europeias e asiáticas, seja proclamada como tendo um efeito de miscigenação ou mestiçagem brasileira, a mistura dilui as diferenças que tanto procuramos escutar como psicanalistas. Preferimos falar da relação entre as várias culturas, desde a singularidade e diferença de cada uma, ou como o migrante se relaciona com estas culturas.

Clínica com migrantes: Seria uma clínica social?
Pode-se dizer que é uma clínica ampliada que tem como objeto a escuta de sujeitos estrangeiros, refugiados, exilados, migrantes internos, retornados, que tentam se inscrever e ter um lugar, em um território onde possam ganhar visibilidade como sujeitos que compartilham um mesmo espaço, ou seja sujeitos atravessados pelas questões sociais.
Por outro lado, é uma clínica que impõe desafios, como a necessidade de contato com instituições, associações e equipamentos por onde estes migrantes transitam o que faz com que se estabeleça um atendimento em rede. Como muitas das organizações que acolhem migrantes são ligadas à igreja, isto  demanda aos analistas  deslocar-se e conhecer novos territórios por onde estes circulam. Além disso, há que se evitar ficar tomado pelas necessidades urgentes por moradia, emprego, transporte ou assistência e embora nossa proposta não seja a de oferecer assistência social, é comum que nos informemos sobre locais em que são oferecidos cursos de português, equipamentos públicos de saúde, assistência jurídica, tramitação de documentos etc.

O lugar do analista
A sustentação de nossa posição de analistas exige não transformar nossos pacientes em vítimas, ao contrário, eles são sujeitos de sua história e de suas escolhas.  Nosso trabalho se propõe a elaborar os motivos da migração, articulando passado e presente para que eles se apropriem de sua experiência migratória, evidenciando esse duplo lugar de estrangeiro reeditado na transferência. Também aponta para a construção e a apropriação  do desejo do migrante de ter um futuro nestas terras. Assim o analista é testemunha do que acontece na contemporaneidade  ao sustentar um lugar de escuta dessa diferença que o migrante encarna com seu corpo, seu sotaque, sua cultura, um lugar descolonizado. O percurso do analista desta clínica com migrantes, impõe a necessidade de mudança, de questionamento e reorganização dos instrumentos clínicos de recepção e acolhimento dos pacientes. Inclui-se ainda as entrevistas iniciais, a questão do (des) conhecimento da língua constitutiva destes pacientes, o funcionamento de grupos com sujeitos de culturas variadas, a necessidade de contemplar o deslocamento destes pacientes, seja porque conseguiram emprego temporário, por questões de documentação, pela possibilidade de viajar para o país de origem ou de receber familiares, seja pelo fantasma da (im) possibilidade do retorno ao país de origem. Enfim uma clínica que nos desafia como cidadãos do mundo e aproxima a psicanálise da política, seja pelas causas que provocam as migrações, pela posição que o analista encarna no social, ou pelo compromisso com estes sujeitos e o seu sofrimento, sua luta pelo acesso à cidadania, à moradia, ao emprego, à saúde, à educação, à fala, etc.
                                                                               
Liliana Emparan, coordenadora do Projeto Ponte: atendimento psicanalítico a imigrantes e migrantes
Terapeutas: Carol Yu, Claudia Sagula, Heloisa Silva, Lisette Weissmann, Malena Laureti, Vânia Prata.
Supervisão externa: Pablo Godoy Castanho



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