Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae

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O Blog do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae é um dos veículos de comunicação em que circulam informações, produção de conhecimento, experiências clínicas e de pesquisa de seus diferentes membros. A interlocução com o público, dentro e fora do Departamento, é uma maneira de disseminar a troca no campo da Psicanálise e possibilitar a ampliação do alcance das reflexões em pauta. Fazem parte da equipe do Blog: Ana Carolina Vasarhelyi de Paula Santos, Fernanda Borges e Gisela Haddad.

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Paternidades: "Sobre o padrasto", um texto de Lia Pitliuk

SOBRE O PADRASTO

Veja a seguir uma adaptação do texto “Winnicott e as novas configurações familiares” de Lia Pitliuk, apresentado no X Encontro Brasileiro sobre o pensamento de D. W. Winnicott, que ocorreu em São Paulo em 5 de setembro de 2015. Essa nova versão foi feita especialmente para compor as reflexões acerca da paternidade no Blog do Departamento. Confiram!

Com o objetivo de trazer uma situação simples para clarear como enxergamos e como trabalhamos as assim chamadas ‘novas configurações familiares, escolhi falar do padrasto. Essa escolha foi disparada por uma cena que aconteceu no meu consultório, numa consulta com um casal.  
Trata-se de uma situação já corriqueira para nós, a de um padrasto à procura de uma analista para sua enteada. Na consulta do casal comigo fico sabendo que estão separados há mais de um ano e emerge uma necessidade grande dos dois de processarem sua história de casal, o que fazemos por várias consultas. Em um desses encontros a mãe diz ‘você foi pai da Joana’, e o ex-marido, ‘eu era padrasto dela enquanto casado com você’. Esse tema, obviamente, acabou se estendendo muito nas nossas consultas, de modo que pudemos reconhecê-lo e pudemos trabalhar em alguma profundidade as muitas dimensões dessas duas representações. Esse exemplo nos põe a pensar na problemática da paternidade e padrastidade.
Se durante muito tempo se pensou no padrasto como substituto de pai, na contemporaneidade está cada vez menos possível pensar assim. As exigências superegoicas das famílias muitas vezes apontam para isto, mas a experiência contradiz cada vez mais essa noção, e o padrasto de nosso exemplo nos deu uma primeira boa pista de por que isso é assim, ao dizer que sua padrastidade era totalmente dependente da relação conjugal.
Só isso já aponta para uma diferença importante entre paternidade e padrastidade, que só vem se acentuando com o tempo. Hoje todos têm a experiência de que com frequência um padrasto não o é para sempre, como dizemos que um pai é pai para sempre, por mais que se ausente ou se omita no concreto. Mais ainda, com frequência um padrasto não o é por muito tempo: diferente de 20 ou 30 anos atrás (tão pouco tempo!), as relações conjugais estão cada vez mais sujeitas à impermanência, às instabilidades e à dissolução, e isto torna muito vívida a noção (afetiva) do padrasto como uma figura que está, mas que pode deixar de estar a qualquer momento. De fato, com a sucessão de casamentos, a padrastidade vem se mostrando cada vez mais dependente da relação conjugal e, portanto, cada vez menos parecida com o que entendemos por um pai.
Aliás, vale um adendo: a palavra padrasto se origina do latim patraster, que significa ‘homem da mãe’. Este sim derivado de patre, que significa ‘pai’ – mas notemos que é derivação secundária. Exatamente o que o padrasto do fragmento clínico apresentado tentou transmitir, nas nossas consultas: era padrasto desde que fosse casado com a mãe das crianças.
Junto com isso, temos também o fato de que o pai, e algumas vezes os outros ex-padrastos, continuam presentes e atuantes de algumas formas, como que marcando ao padrasto – e a todos da família - que ele é algo diferente de um pai.
E aqui eu penso que temos que ficar muito atentos: fomos muito formados no apego à noção de substituição, e tendemos a desqualificar essa outra coisa que não seja uma substituição boa e fiel. Nas supervisões, por exemplo, escuto quanto os analistas, consciente ou inconscientemente, estimulam seus pacientes a ‘ocupar seus lugares’, entendendo esses lugares como o da substituição perfeita. Fala-se bastante do ‘ocupar o lugar de pai’ ou ‘assumir o lugar de mãe’ dos enteados, entendendo como fraqueza uma tomada de posição que não seja idêntica ao que se imagina de um pai ou de uma mãe.
O padrasto de nosso exemplo não se mostrava um pai fraco; bem ao contrário, ele se mostrava um outro presente e firme, só que muito particular, irredutível a um pai. Mas, ao mesmo tempo, este padrasto também se mostrava irredutível a um namorado ou ex-namorado da mãe, desinteressado e descompromissado: seguiu assumindo muitas funções e gastos com os enteados, participando bastante, e desde um lugar único, de muitos aspectos da vida deles. Por exemplo, ele é quem se ocupou de encontrar uma analista para a Joana, e era ele quem estava bancando, financeiramente, aquela primeira série de consultas.
Outra coisa muito interessante, que vejo em muitas famílias: com ele, os jovens desta família construíram canais de comunicação e de intimidade muito particulares, que não se explicam num sistema de equivalências simbólicas. O triângulo transborda, digamos: padrastos, madrastras e enteados (e tantas outras figuras) fazem desenhos diferentes e únicos, essa é a nossa verdade contemporânea.
Aliás, há mais uma característica muito importante na padrastidade que impede a simples substituição: nos recasamentos, os filhos acompanham o início da relação do pai ou da mãe com seus novos parceiros.
Se e quando este homem chega a se tornar o marido da mãe, esta figura já vai estar impregnada de toda a história de constituição desse casamento e dessa nova família, história em que a criança tomou parte e teve participação ativa. Este padrasto não antecedeu a criança, como é o caso do pai; em vários sentidos, a criança antecedeu o padrasto, e só isso já nos faria não poder falar em substituto do pai.
Para pensar essa figura, é importante que nos lembremos que uma figura – a do padrasto, no nosso caso – é uma construção. Não existe nenhuma possibilidade de uma captação direta de uma figura empírica. E se é uma construção, é bom que nos lembremos da condensação das figuras nos sonhos, por exemplo... e certamente dos conceitos de espaço transicional e de espaço potencial e de ilusão e de criatividade de Winnicott. Nem exatamente família, nem exatamente estrangeiro, o padrasto é uma figura do transicional que excede essas categorias, que excede as oposições, que é um diferente e um novo.
Como tão bem sabemos, o objeto transicional não é um equivalente simbólico de algo, não preenche um espaço vazio. Claro, um padrasto pode ser tomado assim, como negação da ausência do pai, e penso que essa chegou a ser a tentativa da mãe de Joana, repetindo que ex-marido tinha sido pai da Joana por 10 anos. Se isto não se transforma, teremos o mesmo fenômeno que conhecemos no caso do menino do cordão, de Winnicott, em que o cordão funcionava como recusa da separação, como uma afirmação de que ‘a separação não existe’.
Mas isso não é atribuição inerente de um padrasto, como às vezes se tenta impingir. Ele não tem por que estar no lugar de alguma coisa morta, de alguma coisa que foi perdida. Temos que admitir que esse não é um bom lugar para estar. O padrasto merece e pode ter um lugar melhor.
Existem dois bons conceitos que podem nos ajudar a sustentar uma concepção melhor, que são os conceitos de suplemento e de disseminação. Estes são conceitos utilizados por Derrida em seu trabalho desconstrutivo, que há muitos anos vêm sendo retomados brilhantemente por Ricardo Rodulfo.
O conceito de suplemento de Derrida é muito interessante para pensar esse novo, para pensar um não substituto e não oposto, esse que adiciona algo que não estava antes. O suplemento não se opõe a outro elemento e, portanto, não haveria como desalojar esse outro elemento e tomar o seu lugar. O suplemento enxerta algo novo que não estava ali, nos outros termos do sistema, e com ele deixamos a lógica da substituição e passamos a trabalhar com a lógica da disseminação, que se refere à impossibilidade de controlar o sentido de um movimento. A ideia principal é que aquilo que se dissemina excede qualquer efeito de geração: implica algo que se propaga, e que tem efeitos que nunca poderemos controlar.
Derrida não está falando de polissemia, de múltiplos sentidos de algo. Não é que poderíamos definir padrasto como uma combinação de pai e de tio e de amigo e de professor, e sei lá mais do quê. Não se trata de que na multiplicidade de sentidos, poderíamos chegar a uma definição de padrasto. Não, o importante na lógica da disseminação é que se admita o deslocamento do sentido numa direção que escapa ao retorno a qualquer ponto de partida e, portanto, que escapa à previsão, à captura, ao controle, às amarras aos nossos referentes prévios. Escapa do “claro, é um padrasto, ou seja, é uma espécie de pai”. Não há como fazer uma reapropriação.
A figura do padrasto, então - como as outras figuras das famílias, recompostas ou não - remete a verbos como disseminar e diferir, em vez dos verbos substituir e simbolizar. Remete também a transicionalizar. E a brincar, evidentemente.
O olhar do analista sobre as ‘novas famílias’ tem um impacto muito diferente conforme ele se apoia na lógica da substituição ou na lógica da disseminação. A substituição implica no apagamento do original, claro, e num ‘roubo’ do que era dele. É evidente que trabalhar com esse referencial certamente traz consequências de primeira ordem.
É muito importante que possamos conceber outros modos de ser e de viver, como Winnicott tanto se desdobrou em mostrar. Se trabalhamos tanto junto a Winnicott é porque entendemos que o mais fundamental, para a vida, é a possibilidade de se ter experiências, e então precisamos nos cuidar de não sermos nós a dificultá-las ou impossibilitá-las.
E claro, seria bom que fizéssemos isso não só em relação aos padrastos e às madrastas, mas também em relação aos próprios pais, às mães, aos filhos, etc. Os pais e os filhos vivos também excedem o referente da paternidade e da filiação, também são compostos e recompostos ao longo das experiências vividas, também se inventam e não cabem nas categorizações que às vezes nos fascinam, e que destróem a experiência como experiência. No meu ponto de vista, o que precisamos, nesse campo, é sustentar a transicionalidade e a disseminação como atitude clínica e, sem dúvida, como atitude ética.




Lia Pitliuk é psicanalista, membro dos departamentos de Psicanálise e de Psicanálise da Criança do Instituto Sedes Sapientiae. Professora no curso Psicanálise com Crianças e coordenadora de grupos de estudo sobre Freud e sobre winnicott no Sedes e em consultório particular. 


Um comentário:

  1. Parabéns Lia.
    Parece que diante dos idealizados lugares de Pai e Mãe tudo vira arremedo! Muito o oportuno diante de uma experiência quase corriqueira em época, que vc chama de padrastidade, e que temos dificuldade atribuir um valor próprio. Agradeço!

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