Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae

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O Blog do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae é um dos veículos de comunicação em que circulam informações, produção de conhecimento, experiências clínicas e de pesquisa de seus diferentes membros. A interlocução com o público, dentro e fora do Departamento, é uma maneira de disseminar a troca no campo da Psicanálise e possibilitar a ampliação do alcance das reflexões em pauta. Fazem parte da equipe do Blog: Ana Carolina Vasarhelyi de Paula Santos, Fernanda Borges e Gisela Haddad.

quinta-feira, 8 de março de 2018

Cassandra França resumo de seu ótimo livro "Nem sapo, nem princesa: terror e fascínio pelo feminino"

De que maneira a Psicanálise pode participar do debate sobre o conceito de gênero? 

Confira no resumo que Cassandra França faz de seu ótimo livro "Nem sapo, nem princesa: terror e fascínio pelo feminino" a convite do Blog do Departamento



Livro: “Nem sapo, nem princesa: terror e fascínio pelo feminino
Editora Blucher (2017) – 192 pág.
Autora: Cassandra Pereira França
Apresentação: Renato Mezan
Prefácio: Miriam Chnaiderman

Abordar a temática da gênese da identidade de gênero parece ser a princípio uma contra-ordem num momento em que a luta pelo fim da homofobia e pelo direito dos cidadãos à diversidade sexual é uma das principais bandeiras em nossa sociedade. Todavia, abrir espaço para questionamentos intra e interdisciplinares é fundamental nesse momento. Assim, é preciso que nos perguntemos, seriamente, de que maneira a Psicanálise poderia participar, de modo ético, do debate acerca do conceito de gênero, que é um conceito sociológico, enquistado nos processos de subjetivação produzidos pela cultura e que acompanham os movimentos da história e da política.
Acreditamos ser necessário que a Psicanálise possa reconhecer a necessidade de fazer um inventário do seu instrumental teórico/técnico para lidar com a mudança sócio-cultural, principalmente no campo da sexualidade, ocorrida ao longo de um século de sua existência. A Psicanálise precisa se pronunciar e apagar os rastros deixados por Freud, desde os Três Ensaios (1905), onde ficou subentendido que a identidade sexual articulava-se com a eleição de objeto, o que enlaçou de modo contraditório, heterossexualidade, identidade e Superego. Apesar do devir da clínica psicanalítica ter desmanchado essa associação, mostrando que a presença de um Superego bem estruturado nos mais distintos aparatos psíquicos era completamente independente das eleições homo ou heterossexuais das pessoas, no campo clínico, esse postulado freudiano desencadeou efeitos nefastos: durante muito tempo, deixou margem para que algumas correntes teóricas vinculassem a perversão adulta aos transtornos de gênero e à eleição homossexual de objeto[1].
O livro “Nem sapo, nem princesa: terror e fascínio pelo feminino” coloca em discussão alguns pilares conceituais do pensamento psicanalítico, chamando a atenção do leitor para a precocidade da identidade de gênero, atestada tanto na literatura, com os inúmeros casos clínicos estudados, entre outros, por Stoller (1982[2], 1993[3]), Graña (1996)[4] e Bleichmar (2006)[5], quanto pela observação clínica, através dos relatos de pacientes e familiares que apontam o terceiro ano de vida dos meninos como a época em que a identidade de gênero parece estar visivelmente configurada. É indispensável ouvir o sofrimento psíquico de uma criança aprisionada pelos ditames da sexualidade normativa, para que se possa, então, vislumbrar, a um só tempo, tanto a fragilidade do clássico modelo edipiano, quanto a necessidade da Psicanálise em reconhecer que, como dizia Silvia Bleichmar[6]: “a identidade de gênero antecede a eleição de objeto e se inscreve no núcleo do Eu, antes mesmo que a criança reconheça sua correlação com a genitalidade”.
Um aspecto ilustrativo no material clínico estudado é a maneira em que o desejo de ser mulher não tem, a princípio, sua origem no desejo sexual pelo homem, antes pelo contrário, é um desejo bordejado por um grande desprezo pela genitália masculina e por tudo que um homem pode representar em nossa sociedade.  Tampouco é o efeito do desenlace de uma eleição genital antecedida pelo sepultamento do complexo de Édipo ou pelas conseqüências da angústia de castração. O desejo contundente de se travestir de mulher expressa nesse caso e, em muitos outros, a fascinação narcisista pelo corpo feminino – ao qual não se pretende possuir desde uma posição masculina – mas sim, apenas envolver-se nele, em uma tentativa desesperada de proteção da integridade egóica,
Enfim, a proposta do livro é a de colocar na roda dos debates psicanalíticos, fatos clínicos capazes de evidenciar que as variações na identidade sexual não se reduzem ao posicionamento do sujeito diante da castração, e sim aos complexos modos de combinação entre os fantasmas que articulam o desejo sexual e as formas de organização dos atributos de gênero a cada época, em determinada sociedade. Por reconhecer quão parco é o nosso conhecimento sobre as identificações primárias, o convite ao leitor é o de acompanhar a plasticidade inscrita em movimentos identificatórios nos primórdios da constituição psíquica, e que ilustram tão bem a riqueza das identificações múltiplas, em permanente movimento de ressignificação do desejo, e a limitação dos dualismos estanques presentes nas categorias enrijecidas de masculinidade e feminilidade.




[1] Bleichmar, S. (2010) El desmantelamiento de la subjetividad: estallido del Yo. Buenos Aires: Topía Editorial.
[2] Stoller, R. (1982) Extrema feminilidade em meninos: a criação da ilusão. In: A experiência transexual. Rio de Janeiro: Imago Editora.
[3] Stoller, R. (1993) Feminilidade acentuada em meninos: uma ênfase nas mães. In: Masculinidade e feminilidade: apresentações do gênero. Porto alegre: Artes Médicas.
[4] Graña. R. (1996) Além do desvio sexual: teoría, clínica e cultura. Porto Alegre: Artes Médicas.
[5] Bleichmar, S. (2006) Paradojas de la sexualidad masculina. Buenos Aires: Paidós.
[6] Bleichmar, S. (2000) El transexualismo infantil, un modo restitutivo de identificación. Actualidad psicológica, 25 (281), p. 3.

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